sexta-feira, 19 de julho de 2013

Aspas para as aspas: por que acreditar no Galo?

Roberto Drummond nasceu em Ferros, Minas Gerais, em 1933, e faleceu na cidade de Belo Horizonte aos 68 anos de idade, em 21 de junho de 2002, vítima de problemas cardíacos. Não sei se esses problemas teriam relação direta com o jogo Brasil 2 x 1 Inglaterra, pelas quartas-de-final da Copa do Mundo, jogado no mesmo dia. Não sei se Drummond estava regando as plantas em seu quintal ou jogando buraco com sua esposa ou alimentando periquitos, ou se estava assistindo ao jogo e o teste foi duro demais para o coração frágil de um sexagenário. Sei que ele não imaginava que o Ronaldinho que metia a bola por cima de um incrédulo Seaman, que catava cavaco tentando alcançar, seria a grande esperança de seu Galo para conquistar, onze anos depois, a Taça Libertadores da América, o maior título da história do clube.


Irônico, o destino. 


Como irônicos eram o tom de suas crônicas esportivas e os títulos de seus romances: O dia em que Ernest Hemingway morreu crucificado (1978), Sangue de coca-cola (1980), Quando fui morto em Cuba (1982), Hitler manda lembranças (1984), Ontem à noite era sexta-feira (1988), entre outros. O mais famoso, provavelmente, é Hilda Furacão (1991), que rendeu adaptação para a teledramaturgia global. Ou talvez seja Uma paixão em preto e branco, publicação póstuma que compila crônicas de sua autoria sobre aquele que seria o grande furacão de sua existência, o Atlético.


A literatura, como tudo na vida, é um eterno retorno, é repetição-só-que-não, é releitura. 


Lamento profundamente não poder ler o que Drummond escreveria agora que o Galo impõe à sua massa seguidora testes cardíacos dificílimos. Mas agradeço a Mauro Beting pelo brilhante esforço de compilar trechos das crônicas publicadas por Drummond de modo a formar um único texto que não apenas faz sentido como uma peça única, como também tem tudo a ver com o momento vivido pelo Galo atualmente. Premonição? Mesa-branca-Chico-Xavier feelings? Prefiro acreditar em Nietzsche. E ler Drummond.


Aspas para as aspas de Beting:


"Libertadores quae sera tamen: Roberto Drummond acredita - Olimpia 2 x 0 Atlético Mineiro.


Ele acredita!

Saudade de Roberto Drummond. Um atleticano cronista (necessariamente nesta ordem) que hoje escreveria algo parecido com isso. Todas as palavras abaixo são dele em outras crônicas atleticanas.
Aspas abertas:
"O que mais combina com a magia do Atlético é o sangue. Esse que nosso volante recuperou quando tinha tudo para deixar o campo e continuou a jogar com a cabeça enfaixada. Toda vez que o Galo foi apenas arte e esqueceu seu lado heroico, ele saiu banido de campo e derrotado dentro do coração dos que o amam.
Mas quando o lado heroico do Atlético prevalece, ele sempre sai de campo glorificado. É com sangue, suor e raça que o Galo pode derrotar o rival. É com amor. É como quem disputa o coração da mulher amada. É como quem defende o último pedaço de chão da pátria. É assim que o Atlético deve fazer.
Se fizeram um eletrocardiograma da bola, verão que até ela está com o coração batendo na garganta. Vocês dirão que não – que bola não pensa, que bola não sente… Ingênuos! A bola sempre sabe que rede beijar. E esse beijo, às vezes, é deixado para a última hora, para nos fazer sofrer. Mas esse beijo costuma ser dado a quem merece. A quem desde a primeira vista deste campeonato pôs amor em tudo que fez. Houve ocasiões, sim, que o adversário mereceu tanto quanto o Atlético. Nunca mais do que o Galo.
A bola levará isso em conta no Mineirão. Tudo na vida é questão de merecer. Os jogadores do Atlético podem estar tranquilos. São os mais capacitados e predestinados para serem campeões.
Queria que todos os atleticanos não se esquecessem quando se virem cercados, sem saída e sem caminho, que sempre há um jeito de chegar até a linha de fundo e cruzar uma bola.
Senhor, apague o sol, apague a lua, anoiteça os olhos da amada, derrame a noite sobre nós, mas não deixe o Atlético capitular. Senhor, tire nosso pão, corte nossa água, proíba nossos amores, decrete a solidão nas esquinas, nos bares e em nosso coração, faça de nós um bolero, faça de nós um tango, faça de nós a mais desesperada canção, mas transforme a zaga do Atlético num muro.
Prenda de vez nosso coração, mas espalhe luz sobre os caminhos de nosso meio-campo. Acenda uma estrela na chuteira deles e não deixe o adversário jogar. Não deixe o Atlético capitular.
Senhor: nos faça descobrir o amor para depois tirá-lo de nós. Faça-nos sofrer de amor, mate-nos de amor, se preciso, mas quando o atacante pegar a bola, Senhor, iluminado seja o seu caminho.
Senhor, depois que o Atlético ganhar, aí, Senhor, prive-nos de tudo o que quiser, exile a amada no Paraguai e outra vez nos mate de amor.
Mas, Senhor, não nos prive do Atlético. Ser atleticano é como casamento. Na saúde e na doença. Nas alegrias e nas tristezas.
O atleticano é capaz de após uma derrota pegar a camisa no armário e sair às ruas. O primeiro e único mandamento do atleticano é ser fiel e amar o Galo sobre todas as coisas. A bandeira atleticana cheira a tudo neste mundo. Cheira ao suor da mulher amada. Cheira a lágrimas. Cheira a grito de gol. Cheira a dor. Cheira a festa e a alegria. Cheira até mesmo perfume francês. Só não cheira a naftalina, pois nunca conhece o fundo do baú.
Já vi o atleticano agir diante do clube amado com o desespero e a fúria dos apaixonados. Já vi atleticano rasgar a carteira de sócio do clube e jurar: Nunca mais torço pelo Galo. Já vi atleticano falar assim, mas, logo em seguida, eu o vi catar os pedaços da carteira rasgada e colar, como os amantes fazem com o retrato da amada.
Que mistério tem o Atlético que, à simples presença de sua camisa branca e preta, um milagre se opera? Que tudo se transfigura num mar branco e preto?
Ser atleticano é um querer bem. É uma ideologia. Não me perguntem se eu sou de esquerda ou de direita. Acima de tudo, sou atleticano. Toda manhã, quando acordo, eu rezo: Obrigado, Senhor, por me ter dado a sorte de torcer pelo Atlético”.
Aspas fechadas.
Posso acrescentar?
“Obrigado, Senhor, por ter me dado a sorte de torcer pelo campeão da América na próxima semana”.
Eu acredito que Roberto Drummond acredita lá em cima. Eu acredito no time de Cuca aqui embaixo.
Vocês sabem: “Se houver uma camisa preta e branca pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento”. Já falou Drummond.
O vento de 2013 está a favor do Galo nesta Libertadores.
Eu, Mauro Beting, acredito.
Faltam 90 minutos. Quem sabe mais. Mas quem mais sabe em 2013 não vai deixar ter pênaltis. Vai fazer ainda mais do que fez contra o Newell´s. Quem mais jogou não vai deixar perder mais um título ganho. Mais um título perdido pelo receio de que não vai dar.
O novo Atlético é o do novo atleticano que sabe que muita coisa não foi conhecida. Muito troféu não foi conquistado. Muita vitória foi perdida. Mas este novo alvinegro contagia o mais velho com uma nova mentalidade. Não mais do já-perdeu. Mas do que pode-ganhar. Não mais do tudo-contra-todos, mas do todos-pelo-Galo.
De novo vai ganhar de velho. De novo vai sofrer e suar para ganhar por pelo menos dois. Com muito mais de 11. Com tudo mais de milhares no Mineirão. Com milhões pelas gerais de Minas e do Brasil.
De novo vai ter de se superar. De novo vai ter de esquecer a arbitragem que o atleticano não esquece que não é amiga e anulou lance difícil que poderia ter dado em gol de Tardelli – o único que tudo jogou em Assunção, embora pudesse ter dado ao ausente Ronaldinho um gol de presente na segunda etapa.
De novo vai ter de estar atento até o último chute, como Pittoni fez o golaço da vitória do Olimpia, na infeliz escolha de Alecsandro que atrapalhou Victor, como o mano Richarlyson se atrapalhou com Salgueiro, com Silva, e com mais uma expulsão tola como o amarelo levado por Marcos Rocha.
Aquele chute do Salgueiro que desviou na zaga, aos 36 iniciais, era o típico gol que o Galo levaria. Não levou. E olha que poderia ter levado mais, por que Luan não se encontrou, e demorou para Cuca apostar em Rosinei. Como insistiu com Jô até ele só não fazer um belo gol em passe genial de Guilherme por que Silva fez mais uma grande defesa. Tão importante com os pés como Leo Silva que salvou gol certo, tão certo e gol também não feito como o que Bareiro perdeu na sequência.
Muita coisa deu errada em Assunção. Muita coisa tem como ser refeita no Mineirão. Foi um enorme e exagerado 2 a 0. Mas reversível. Como foi muito difícil segurar aquele pênalti contra o Tijuana. Como foi muito complicado reverter aquela derrota em Rosário. Como será ainda mais complicado igualar os dois gols sofridos em Assunção.
Mas quem diria que seria diferente para o atleticano?
Vai ser assim.
O Roberto Drummond acredita. Eu também.
(O texto que compilei com trechos de crônicas de Drummond que abre este post é uma colagem feita a partir de sete colunas do cronista mineiro. Todas presentes no essencial “Uma Paixão em Preto e Branco”, coletânea de colunas de Roberto publicada pela Editora Leitura, muito bem organizada por Alexandre Simões)".
Aspas das aspas fechadas.

Por Bruno Passeri.




quinta-feira, 11 de julho de 2013

Gogó para o alto


Henrique Alves, presidente da Câmara dos Deputados, e Renan Calheiros, presidente do Senado(José Cruz/ Agência Brasil)

Existem dois tipos que conquistam as mulheres. Quem me disse foi um velho amigo meu, camarada de partidão e vizinho de porta aqui na vila. Há os que chegam nas mulheres com as mãos na cintura, dizem uma meia dúzia de palavras sem sentido só para causar arrepios com o calor da voz e as levam direto para o canto da festa. Outros, também bem-sucedidos, por paixão incomensurável pelos amigos, preguiça existencial ou por brilhante vergonha, optam por encher a tulipa e beber uma gelada junto à seus pares. Vencem quando, exaustos preza e caçador, chocam-se por pura atração anatômica e acabam tendo por companhia, além do incansável copo transbordando, o par da vez.

Vale ressaltar que esse papo aconteceu no século passado: tempos em que as mulheres eram mais intimidadas pela conservadora sociedade cristã. Hoje os tempos são outros e até os que não adotam nem um perfil nem o outro também podem se dar bem. O sucesso, contudo, é menos frequente. O bêbado e o obcecado estão sempre mais próximos do objetivo. Podem conferir. O primeiro não gasta tanto dinheiro quanto o segundo, mas tem de se afastar dos amizades. "Cada escolha uma renúncia", como diz o profeta que trabalha engraxando sapatos na esquina entre as ruas Mem de Sá e Lavradio.

Pois bem, estava eu na quarta-feira passada assistindo a TV a noite quando me lembrei das palavras do sábio companheiro de Pecebão. Não por causa das mulheres, já que a minha velha dormia ao meu lado e nesta altura da vida não quero comprar briga com ela, que já mostrou no tempo de casamento ser vingativa como a minha sogra e chata como a hora cívica da época do colégio. Vi os políticos de Brasília e os cartolas dos grandes clubes brasileiros e lembrei das personalidades evocadas pelo meu parceiro de bar, aqui no Andaraí. E veio a minha cabeça uma relação que o faria engasgar na hora de mastigar o provolone  no restaurante do Seu Luís: dirigentes de clubes e os petistas são todos, sem exceção, alcoólatras em busca de suas metas. Em vez de irem direto ao ponto, fazem média junto a quem está próximo e adiam a peleja. 

Não duvido que eles queiram realmente alcançar o desenvolvimento de suas respectivas instituições. Afinal, os dirigentes são, por via de regra, torcedores, enquanto os petistas, em muitos casos, sofreram na pele os golpes do conservadorismo durante a ditadura. Entretanto, objetivos outros acabam por prendê-los e tomar muito tempo. Digo aqui da corrupção e dos interesses escusos sim, mas também da boa relação que eles tentam travar nos meios por onde circulam e da imagem que tentam passar para o público.

O programa de sócio-torcedor é espetacular, aumenta a arrecadação e o vínculo entre os torcedores e o clube, mas é deixado de lado por colidir contra os interesses das empresas que vendem ingressos ou por desagradar as torcidas organizadas. Dilma pede uma Constituinte para arejar o cenário político e trazer pessoas interessantes novamente para a política, mas a bancada ruralista, por exemplo, teme o fim do coronelismo e a perseguição aos crimes que são cometidos na Câmara e no Senado.

E cada vez mais o pretendente está alcoolizado, e cada vez mais ele se distancia da garota da noite que, nessa altura da madrugada, já começa a pensar em como vai voltar para casa ou em procurar a outra amiga que, acompanhada pelo obcecado, já deve ter a maquiagem borrada ou o cabelo despenteado. E o tempo passa, o desenvolvimento não chega, e políticos esportivos e engravatados com a estrela no peito só fazem por fortalecer o status quo. Apesar de desejar o progresso, apesar de achar a donzela irresistível.

Só que, até meu parceiro de mesa fixado nos estanques modelos de sedutor, teria que se render ao meu argumento final. Diferente do que aconteceria na nossa época de gafieira, o rapaz não vai poder terminar a noite com o gogó para alto, pensando no que fará na próxima vez que encontrar a menina (que, provavelmente, não terá sua face lembrada). O momento de instabilidade social vai levantar o cadáver e pressioná-lo a fazer o que tem que ser feito. Com o adiamento do plebiscito, o Distrito Federal dá mostras de que não confia na ebulição que vem das ruas e fecha os olhos para a Copa do Mundo tensa que se constrói, a cada superfaturamento, diante dos olhos da Fifa. E é possível que a revolta se estenda também para o universo, até então isolado, dos clubes de futebol. O efeito da bebedeira promete ser nauseabundo durante um longo tempo após a madrugada de flerte. 

por Helcio Herbert Neto.                                                                                   




quarta-feira, 10 de julho de 2013

Mata-mata: Fluminense, Botafogo, Flamengo e Galo vivem quarta-feira decisiva, por motivos diferentes.


O Fluminense anuncia hoje, às 16h, na sede das Laranjeiras, a assinatura do contrato com o consórcio de empresas que administrará o Maracanã pelas próximas quatro décadas. As informações dão conta de que o acordo terá a mesma duração da concessão do estádio: 35 anos. Daqui a 35 anos, estaremos em 2048, Fred terá 64 anos e o presidente Peter Siemsen, signatário do contrato, 91 anos de idade. Pode ser que o Fluminense esteja fazendo um grande acordo. Pode ser que, na condição de um dos advogados mais conceituados do país, Siemsen tenha garantido dispositivos legais que ajustarão o contrato ao longo do tempo de forma que os benefícios do Fluminense jamais caduquem. É possível. A torcida tricolor está preocupada, porém. E tem razão de estar. Nada na postura do consórcio que tomará conta do ex-Maracanã indica boa-vontade nas negociações com os clubes. Em breve, o Botafogo deve anunciar acordo por dois anos com a mesma arena. Jogará por lá, pelo menos, até que o Engenhão se recupere de um dos maiores fiascos públicos protagonizado pela gestão do esporte carioca (e não foram poucos ao longo da história). O Flamengo, por outro lado, endurece o jogo, bate o pé, diz que não aceita os termos propostos, fala em “abismo” entre os objetivos das partes envolvidas. Talvez seja o Flamengo o inflexível ou irrealista. Ou talvez Botafogo e, principalmente, Fluminense estejam entregando o ouro fácil demais. O tempo dirá. Esperemos que todos os clubes façam acordos que os permitam desenvolver-se economicamente e garantam às suas torcidas o direito básico de torcer por seus times no templo eterno da Avenida Maracanã.

***

O Flamengo joga hoje em Arapiraca contra o tinhoso ASA, às 21:50h. O ASA pode ser mais perigoso que parece, principalmente jogando contra um Flamengo que ainda balança na temporada. Que deixe de balançar e leve o jogo muito a sério. Até que os ventos entrem pela janela de transferências internacionais trazendo dois ou três bons reforços – se é que o farão -, o Flamengo joga o ano na Copa do Brasil. É um tipo de competição que favorece times de massas apaixonadas que empurram bolas para as redes quando as coisas parecem impossíveis. Um tipo de competição que aceita campeões menos brilhantes do que outros concorrentes. O campeonato de pontos corridos não mente. O mata-mata, a seu jeito, também não. Na verdade, são perguntas diferentes que os dois campeonatos fazem. O Brasileirão se questiona: “qual é o melhor time?” Ou ainda: “qual é o time com a capacidade de ser melhor na maior parte do tempo, em longo prazo?”. A Copa do Brasil, a seu tempo, interroga: “que time é capaz de oferecer mais (futebol, vontade, dedicação, concentração e, sobretudo, alma) num curto espaço de tempo?”. Ambos os campeonatos oferecem a quem responder melhor a vaga na mítica Taça Libertadores da América. Em 2013, para times como Flamengo, Vasco, Palmeiras, entre outros, é muito sensato perceber a que pergunta são capazes de responder melhor. E levar muito a sério a resposta.

***
A mítica Libertadores faz outras perguntas, além das citadas anteriormente. Apenas uma vem ao caso hoje: serão o Galo e sua massa capazes de fazer o improvável, como tantas vezes se viu nesse torneio? A resposta passa, claro, pelo apoio incondicional da torcida, pela alma que o time empregará em cada jogada, por uma atuação abaixo da média do excelente adversário, mas, acima de tudo, passa por Ronaldinho. Um jogador extraordinário capaz de arregaçar qualquer jogo contra qualquer adversário, mas que, no entanto, costuma não cumprir essa promessa em jogos como o de hoje à noite. Um Ronaldinho inspirado e elétrico pode contagiar torcida e time e, sobretudo, dar ao Galo o talento necessário para a reviravolta (porque ainda se trata de uma partida de futebol). Ele joga mais do que a soma de todos que estão em campo, mas, na Libertadores, a resposta não está só aí.


Por Bruno Passeri.

terça-feira, 9 de julho de 2013

The Queen needs you, Andy

Fonte: The Times

A leitura da vitória de Andy Murray em Wimbledon pode ir muito além da (re)conquista dos britânicos de seu "próprio território", digamos assim. É muito significativo que, após 77 anos aplaudindo outros jogadores erguendo o troféu mais tradicional do tênis, os ingleses tenham voltado a bater palmas para alguém "de casa", como já havia sido nas Olimpíadas do ano passado. 

E a primeira observação é sobre essas aspas quando digo "de casa", pois tanto as Olimpíadas quanto Wimbledon foram/são disputados em Londres, e Murray é escocês. Há, em todas os debates - e nas próprias entrevistas do jogador - a brincadeira de que 'ele é britânico quando ganha e escocês quando perde'. Minha experiência etílica-socio-cultural de dois meses em solo da Rainha, com londrinos e escoceses, me passa uma credibilidade mínima para afirmar que o fundo de verdade é maior do que a brincadeira nesse caso. 

Se fosse o contrário - Murray fosse inglês e os títulos fossem na Escócia -, não acho que haveria grandes problemas. Mas Londres (isso não se aplica a Inglaterra como um todo, de maneira alguma) é "The Heart", o coração do Império Britânico, é sério, educado, polido, espetacular. Ninguém diz, mas a Escócia é meio "primo farofeiro" (nos padrões londrinos, claro); o sotaque é estranho, soa meio caipira, eles gostam muito de festa, enchem a cara de uísque até não poder mais, dançam de saia na rua, enfim, fazem uma arruaça não muito britânica. Sinceramente, não conheço bem o Murray. Pelo que já observei, imagino até que ele seja um escocês mais inglês que a maioria, mas isso não muda muita coisa. As manchetes dos jornais, os outdoors, a conversa nos pubs, tudo exalta Andy Murray como herói , ídolo britânico. Não que esse seja o sentimento, mas é uma necessidade.

Uma necessidade de um povo com uma sina que resultou num complexo curioso: o de possuir a patente de inúmeros esportes e terminar, quase sempre, superado pelos outros (e, ainda pior, suas ex-colônias). Eles inventam, criam regras, apaixonam-se por aquilo e...perdem. Perdem para o Paquistão e para a Índia no críquete, perdem para a Nova Zelândia e para a África do Sul no rúgbi, perdem para os Estados Unidos no golfe e no beisebol, e para quase todo mundo no tênis e, pior, no esporte mais popular do planeta, o futebol. Ainda que o Campeonato Inglês seja o mais importante, que seus times sejam podres de ricos, organizados, que Londres seja a cidade com mais clubes e estádios de futebol, o fantasma está lá e incomoda muito: a Inglaterra, mãe do futebol, só ganhou uma Copa do Mundo em sua história, a de 66, jogando em casa e derrotando a Alemanha com um gol que é discutidíssimo até hoje.

Os britânicos e, sobretudo, os ingleses, sentem-se lesados. "A gente cria o esporte, leva até lá, ensina eles a jogarem e depois apanha?". É muito frustrante. Acrescente-se a isso a falta de grandes nomes, de heróis que ajudem a dimensionar, a significar uma geração, uma era no esporte. Como foi Pelé, Michael Jordan, Schumacher, o próprio Tiger Woods. Apostou-se muito em Hamilton, mas a Fórmula I está longe de arrancar suspiros tão apaixonados e, mesmo que assim fosse, Hamilton não é esse cara. 

Sobrou para Andy Murray, o pobre escocês eternamente semifinalista que não conseguia ultrapassar a linha do bom para o vencedor, do muito bom para o campeão. Mas Murray rompeu essa barreira - muito mais psicológica do que técnica - e fez isso justamente em Londres, duas vezes. Nada menos que em uma Olimpíada e em Wimbledon, o Grand Slam mais tradicional do mundo. O talentoso tenista escocês virou ídolo do esporte britânico. O jovem agora é Sir.

The Queen needs you, Andy.



Por Beto Passeri.








segunda-feira, 8 de julho de 2013

O Brasileirão está de volta. E o caminho dos cariocas não será florido...


Crônica sobre a sexta rodada do Campeonato Brasileiro de 2013. 


A Copa das Confederações foi legal, até muito mais do que eu esperava. Alguns bons jogos, times jogando à vera, torcida enchendo estádios e o impulso para os protestos renderam um saldo positivo à competição FIFA. Mas estamos de volta.  Acabou a fantasia e estamos de volta para o que realmente importa. A alucinação do verdadeiro boleiro não é a Sapucaí das estrelas internacionais da FIFA, mas suportar o dia-a-dia e delirar com coisas reais.

Reais não como o Madrid e os milhões e milhões em moeda brasileira investidos pelo Barcelona para levar o que de melhor tínhamos até antes de junho. Real como ter Nei ostentando a braçadeira e cabeceando contra o patrimônio, real como ter Wallace e González tentando cobrir um Leonardo Moura a cada dia mais pachorrento, real como o talento de Seedorf. Real.

A sexta rodada do Campeonato Brasileiro foi apenas a sexta rodada da competição, mas não só. Foi a primeira depois de longa paralisação e a penúltima antes do fechamento da famigerada janela de transferências, que pode reordenar o painel do campeonato. Times que capengam podem se acertar com uma ou duas boas contratações – o nível entre os concorrentes é equilibrado assim – e concorrer ao que antes não cogitavam; times bem estruturados podem ver o barco fazer água com petrodólares de toda parte do globo carregando seus principais jogadores. O campeonato muda de figura nessa época.

O Botafogo, líder incontestável,  apresenta o futebol mais consistente até aqui, mas vive um dilema. Perdeu alguns jogadores, um deles especialmente importante (Fellype Gabriel rumou para o Sharjah FC, dos E.A.U.), mas nada que comprometa o desempenho de maneira definitiva. Por enquanto. Pior seria perder Lodeiro, Jefferson, Dória ou o próprio Seedorf, que são efetivamente a base de sustentação do (bom) time montado por Oswaldo de Oliveira. O dilema do Botafogo é saber se torce para acertar mais vendas, oxigenar os cofres do clube e manter salários em dia, ou se torce para que ninguém apareça com a valise cheia de dólares para desfigurar seu time como aconteceu em 2012. Enquanto o lobo não vem, o time segue a toada de vitórias e desponta como candidato ao título até segunda ordem. Uma vitória sobre o Fluminense tem um peso muito grande nesse campeonato, em que pese a desastrada organização do evento em Pernambuco, que atraiu meia dúzia de gatos pingados e rendeu três mariolas num jogo entre dois dos melhores times do campeonato valendo a liderança. Como disse o próprio Oswaldo após o jogo, “não é todo mundo que vai ganhar do Fluminense nesse campeonato”. Não é mesmo. O Fluminense é menos time do que foi, por exemplo, em 2010 e 2012, mas ainda leva poucos gols, defende com muita firmeza, tem jogadores decisivos na frente e dificilmente perde. Se o vento da janela de transferências não sacudir a laranjeira, segue candidato ao título.

Flamengo e Vasco jogam a lanterna dos afogados no clássico do próximo domingo em Brasília depois de mais um final de semana preocupante. O Flamengo parece ter encontrado um mínimo padrão de jogo, a bola deixou de ser inimiga número 1 do time, que já consegue trocar alguns passes e construir algumas situações de perigo. Isso já é muito mais do que aconteceu nas primeiras quatro rodadas. Mas a limitação técnica, emocional e, em alguns casos, física da maioria de seus jogadores restringe drasticamente o campo de ações durante as partidas. O Coritiba, nos pés de um maestro fantástico como Alex, tão infinitamente superior à maioria dos colegas em ação no campeonato, precisou de dez minutos para empatar um jogo que nem parecia fazer questão de ganhar. Empatou e ficou com a vice-liderança. A ver quando dura o fôlego do capitão coxa-branca. Se Alex conseguir manter esse rendimento por pelo menos 28 ou 30 rodadas, dificilmente o Coritiba não permanecerá na primeira metade da tabela.
Em Caxias do Sul, o Vasco não levou o chocolate que o 5 x 3 aplicado pelo Inter anuncia. Uma bisonha cabeçada de Nei contra o patrimônio esfriou ainda mais o gelado ânimo da nau vascaína no começo do jogo. Depois, o Inter não foi brilhante. Aliás, o Inter não é brilhante. Muitas vezes, nem é tão competitivo. Tem muitos jogadores com síndrome de vaga-lume. Ontem, apesar do frio e da chuva, D’Alessandro e Forlán estavam inspirados. E, logo cedo, colocaram o fraquíssimo time do Vasco em seu lugar. Apesar de jamais ter vislumbrado a possibilidade do empate durante o jogo, o Vasco foi encontrando brechas frequentes no preguiçoso sistema defensivo colorado. A ponto de conseguir, com suas enormes limitações, enfiar três no molhado barbante do Estádio Centenário.
A expectativa do Flamengo é ganhar o clássico, encaixar duas, três ou até quatro contratações consistentes (Leandro Castán e Sheik, que estão na pauta, são bons investimentos), ganhar a queda de braço com o Consórcio Maracanã e esperar dias melhores. Com salários em dia, com o Maracanã, com três jogadores de bom nível, em forma e com espírito competitivo, o Flamengo já pode concorrer a um G4, por exemplo. A expectativa do Vasco é menor. Espera convencer Paulo Autori de que um pouco mais de sua inacreditável paciência valerá a pena, espera fechar acordos com seus maiores credores para desafogar o fluxo de caixa, pagar salários em dia e fechar contratos de patrocínio, espera também ganhar o clássico para motivar seu elenco, contratar uma ou duas peças razoáveis (sua capacidade de investimento, por ora, é menor do que a do arquirrival) e se manter sem maiores sobressaltos no meio da tabela até o final do campeonato. Para ambos os times, o mais importante é planejamento para 2014. Mas existe 2013, e é preciso passar por ele antes sem grandes sustos.

O campeonato mais encruado do mundo está de volta. Longo, árduo, imperfeito. Necessário.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Galos, Noites e Quintais


Belchior não poderia saber que Galo e Newell's duelariam hoje pelas semifinais da Libertadores.

"É briga de cachorro grande com supositório de pimenta", diria Washington "Apolinho" Rodrigues, lendário radialista carioca. Hoje, 03 de julho de 2013, às 21h50m, horário de Brasília, Atlético e Newell's Old Boys, da Argentina, abrem o duelo pela principal semifinal da edição deste ano. Será um Coloso del Parque lotado com 42 mil "leprosos" empurrando.

Ya se van abriendo las puertas
Nos encontramos otra vez
Mi corazón latiendo cada vez más fuerte
Un día más para alentar, para estar con vos
Llegan los pibes, las banderas
Todos los barrios estarán
Vuelvo a ver la cancha llena
La fiesta ya va a empezar
En la platea y en la popular
Todos los trapos colgados están
Cómo no sentirme así
Te llevo adentro del corazón
Vivo solo para vos
Si muero que sea de lepra
Si muero que sea de lepra
Cuando los once van saliendo
Ya no cabe la explicación
Bombo y tambor
El humo rojinegro y la mejor canción
Querido Newell’s la banda ya llegó
Todos los trapos colgados están
Cómo no sentirme así
Te llevo adentro del corazón
Vivo solo para vos
Si muero que sea de lepra
Si muero que sea de lepra

Semana que vem, provavelmente, as coisas se invertem e aí são os leprosos que vão sentir o bafo no cangote da massa atleticana no Horto, onde caiu, está morto. Dizem alguns que estes são os dois jogos mais importantes da história do Atlético. Não sei. No passado, um título brasileiro e mesmo um mineiro eram muito importantes para o torcedor, e o Galo o conquistou com brilho. Mas faz muito tempo, e muitos dos atleticanos que inventaram o inferno do Independência nem eram nascidos, então faz sentido a dimensão do jogo de agora.

O jogo em si, a gente sabe mais ou menos como vai ser. Vai ter pilha, bateria, rádio, chinelo, laser, papel higiênico em rolo e picado dentro de campo. Vai ter fumaça, bumbo, bandeira, faixa - entre elas aquela que diz "Si muero, que sea de lepra" e fica bem estendida no meio da arquibancada, de frente para o plano principal enquadrado pela TV. Arquibancada de cimento, pão com linguiça, cerveja e cigarro na plateia. 
Padrão FIFA não vai ter. Vai ter dedo na cara, mão na bunda, chute no tornozelo, eventualmente cusparada, falhas de arbitragem e milonga.

Libertadores é pornô.

Vai ter comentarista dizendo que o time brasileiro não pode cair na provocação. Vai ter outro dizendo que o futebol atleticano é moderno. Ninguém vai dizer que o Galo é retrô. Ninguém vai lembrar que era mais ou menos assim que o futebol brasileiro jogava, salvo a disparidade física, quando não havia torcedores do São Caetano rico, o Chelsea, entre os meninos brasileiros de 15 anos. Um jogo agudo, para dentro do gol, com bola rolando veloz no meio-campo (tiki-taka é coisa de outra gente, aqui nunca foi assim), ponteiros incisivos dos dois lados, um 10 à vera (que Ronaldinho sempre pode vir a ser) e um centroavante de referência.

O Newell’s joga bola, tem um time raçudo e experiente, identificado com as cores da camisa e um atacante com o selo do futebol argentino clássico, o enjoado Ignacio “Zlatan” Scocco (ele é a cara do Ibrahimovic), um pentelho que cai pelos dois lados do campo, parte para cima do marcador, cansa o beque, inferniza a defesa e sabe chutar.

O jogo de hoje tem tudo para ser anacrônico. Quem nunca viu seu time ganhar a Libertadores pode até dizer que é um torneio ultrapassado, que precisa ser revisto pelas normas internacionais, etc.. Mas reza baixinho embaixo do cobertor toda quarta à noite: “não permita, Deus, que eu morra, sem ter visto meu capitão levantar essa taça”.

Eu rezo para que nunca se uefachampionsleague-se a Libertadores. Eu quero ganhá-la de novo do jeito que ela é. O Mundial nem me importa.

“Eu era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais.
Como um galo quando havia, quando havia galos, noites e quintais”

Belchior, chorando suas saudades, não poderia imaginar que hoje teria rinha à moda antiga. Hoje tem.



Por Bruno Passeri.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Em progresso


Com dois de Fred e um de Neymar, Brasil massacra a Espanha no Maracanã, conquista o título da Copa das Confederações 2013 e faz pensar.

Do discurso, é preciso saber quem enuncia, o que enuncia e, sobretudo, de onde enuncia. Identificar essas posições é vital para entrever as relações de poder que o compõem.

No futebol, a paixão clubística é de uma natureza totalmente diversa daquela que se nutre pelo selecionado nacional. A paixão pelo clube é deliberada porque cada um decide para que time torce, embora essa escolha não seja desembaraçada de mediações. Na minha família, por exemplo, uma escolha por não ser Flamengo representaria uma tomada de posição radical contra a tradição. "Eu sou Flamengo", portanto, é o discurso que eu enuncio a partir de minha posição social e formação familiar. Há diversas relações, inclusive de poder, implícitas nesse discurso. Mas esse é assunto para outra prosa.

Por ora, nos contentemos em apontar a diferença de natureza entre esta paixão pelo clube e aquela pela seleção nacional de futebol. A nação não é uma escolha. O homem pode estar mais ou menos afastado de suas origens, mas resta uma bandeira, um hino, uma História e, acima de tudo, uma língua - logo, uma estruturação cognitiva, uma forma particular e nomear e entender o mundo - compartilhada com outros tantos seres humanos, elementos que estampam sobre estes homens uma espécie de marca indelével. Discutir a formação histórica das nações e a questão da identidade nacional também é assunto para outras prosas.

No Brasil, o futebol é uma dimensão definitiva da vida pública. Entre outras coisas, somos o que jogamos. E a função histórica da Seleção Brasileira não pode ser desprezada. Não sei como a coisa se dá em outras praças, não conheço a fundo outros países para dizer e não pretendo estabelecer, por isso mesmo, qualquer tipo de comparação. Basta saber que é assim no Brasil.

De onde enuncio estas palavras agora, um estado de embriaguez pelo acontecido ontem, 30 de junho de 2013, no Maracanã, o raciocínio parece fazer sentido. 

Os cinco títulos mundiais da Seleção, referendação suprema de sua vocação futebolística, pontuaram momentos históricos cruciais da história moderna do país. O bi-campeonato 58-62, quando se instituiu um novo paradigma de jogo, pautado pela possibilidade do drible e do improviso, o avassalador triunfo de 70, em que se acrescentou à maturação daquele novo paradigma o advento do alto rendimento físico, o chorado tetracampeonato de 94, quando houve Romário, e o alegre penta em 2002, todos esses títulos encontraram ressonância em movimentos que se davam no âmago da sociedade brasileira.

Aqui, é preciso fazer uma digressão. 

Pensemos que um time de futebol é composto, basicamente, por jovens. Nos parâmetros do esporte de alto rendimento, o declínio fisico de um atleta de futebol se dá, em geral, a partir dos 30 anos de idade e mais acentuadamente a partir dos 35. Demograficamente pensando, porém, um sujeito de 30 anos é um jovem. A Seleção Brasileira que ofereceu o baile da noite passada tinha como jogador mais velho o goleiro Júlio César, com 33 anos de idade. A média de idade da equipe é de aproximadamente 26 anos. Jovens, portanto. Em 1958 e 1962, essas médias eram de mais ou menos 25 e 27 anos, respectivamente. Em 1970, a média era de pouco mais de 24 anos, enquanto em 94 e 2002, curiosamente, as médias foram idênticas: 26,2 anos de idade. Ou seja, no sentido do termo apropriado pela demografia, e não pela ciência esportiva, foram equipes formadas por jovens.

Como são jovens que compõem a maioria dos imensos cordões que ocupam as ruas e os espaços públicos há pelo menos três semanas no país. Toda seleção nacional, dessa forma, é uma pequeníssima amostra da juventude de um país. Salvo nosso grande goleiro atual, todos os demais jogadores do time que arrebentou a corda da viola na final da Copa das Confederações 2013 nasceram nas décadas de 80 e 90. Nesse sentido, é possível afirmar que jogadores da Seleção atual e jovens que atiçam o panorama político nacional fazem parte de um mesmo conjunto, foram criados no mesmo momento, sob condições históricas similares e sob o mesmo zeitgeist, ou espírito da época: são da mesma geração.

Como Pelé, Garrincha, Didi, Zagallo e seus companheiros nos dois primeiros títulos mundiais do Brasil, em 1958 e 1962, foram da mesma geração daqueles que cantavam, à base de frases de jazz e samba, goles de uísque e cachaça, roncos de motor automotivo e britadeiras e betoneiras, à sombra das curvas de arquitetos modernistas, um Brasil que vislumbrava uma candidatura ao desenvolvimento e ao progresso prometido lá pela metade do século XX. 

Como um amadurecido Pelé, Tostão, Jair, Rivelino, Gérson e outros foram da mesma geração que se entricheirava sob os porões, ou atrás das armas, ou dos palanques, ou na subserviência, ou atrás de seus salários, ou de Deus, ou da família, ou da tradição, ou da propriedade ou de um hologramático milagre econômico, gemendo, entre altos e baixos, um "Pra frente, Brasil" que se fundia com a harmonia do escrete amarelo. 

Como estavam condenados, pelo mesmo tribunal histórico, os filhos dos porões a perderem as lindas batalhas que insinuaram nas ruas e no gramado no início da década de 80. 

Como respiraram depois de três décadas de asfixia econômica, poítica, ideológica, social e de títulos mundiais no futebol de seleções, os nascidos nos 60 (salvo Gilmar, nascido em 59, e Cafu, que veio ao mundo em 70), através de um trabalho pragmático realizado dentro dos campos e nos escritórios e nas salas de estar de cada família. Era preciso ser assim, dizia o senso comum sobre a vida e sobre a Seleção: a dureza dos tempos recentemente passados nos ensinara dessa forma e o destino daquela geração estava marcado. Havia Romário e a taça veio, dura como vieram as notícias das décadas anteriores. Quebrando o protocolo FIFA, Dunga ergueu-a proferindo: "É nossa, caralho!". 

Depois, na torrente do discurso do progresso e da modernidade foram levados patrimônios nacionais, vendidos tesouros inestimáveis, a bandeira puiu, mercantilizaram-se Brasil e brasileiros nascidos na década de 70, cegados pela luz do ouro e, convulsionadas ao ritmo marcial de La Marsellaise, hino nacional francês, seleção e sociedade assistiram ao espetáculo de Zidane.

Em 2002, havia algo no ar. Qualquer coisa no espírito daquela época anunciava novos ventos. Um pouco da enxurrada de alguns anos antes estancara, poucas partículas se cristalizaram no fluxo da globalização, ou sei lá o quê. Tínhamos, então, alguma coisa a oferecer ao mundo, além de nossa própria resiliência a toda lama histórica? Do outro lado do mundo, chegavam imagens e sons de um grupo de jovens nascidos nas décadas de 70-80, capitaneados pelo líder brabo e carismático que era o Felipão, pagodeando entre japoneses e coreanos. Cafu ergueu a taça com um sorriso que, por si só, é um discurso complexo, e disse: "Regina, eu te amo". Poucos meses depois, com 52.793.364 votos, a maior marca da história da República, Luís Inácio da Silva, o Lula, pôs a faixa no peito.

Em 2006, coincidentemente de volta ao território europeu, metrópole e totem de nossa construção (inclusive no futebol, claro), fomos arrogantes. Estávamos ricos, pela primeira vez participávamos do mundo do consumo para valer. Comprávamos muito, vendíamos muito, o país estava em ebulição, subíamos a cada dia no ranking das maiores economias mundiais, tínhamos os maiores do mundo portando cordões de ouro em terras espanholas de fazer inveja aos portados pelos astros do basquete em terras ianques. "Iate em Botafogo, apartamento em Ipanema, uma vida de bacana, se eu entro assim pro esquema". Ou: "Desempregado, falido, andava pela rua largado e fodido. Achou na rua uma carteira recheada de dólar. Acabou-se a miséria, foi-se o tempo da esmola". Assim cantavam Marcelo D2 e Chorão, respectivamente, em "À procura da batida perfeita" e "Rubão", no começo do século XXI. Éramos todos assim, todos um Rubão à sua própria maneira. E nossos rubões, na Alemanha, pagaram caro para ver Zidane, de novo.

A ressaca estava braba em 2010. Tínhamos um repertório de brados na gaveta, tínhamos um capitão do "É nossa, caralho!" no comando da equipe, tínhamos uma ex-guerrilheira disputando o poder. Estávamos buscando as referências, revisitando o passado em busca de pistas sobre o que fazer dali em diante. Mas o time não encaixava, as referências não davam liga e, cheios de energia mas sem o ímpeto natural, demos murros nas pontas das facas e voltamos da África do Sul mais cedo do que gostaríamos, depois de fazer o máximo que era possível com o que estava disponível.

Agora temos milhões nas ruas e uma taça das Confederações na estante da CBF. Temos um time que deu liga, atropelou a quem de direito e reafirmou a hierarquia óbvia e quase esquecida da história do futebol. Temos uma torcida que reaprende a torcer em casa por uma seleção que volta para casa depois de muito tempo. Reaprende a ponto de formar, com quase oitenta mil corpos, um desfibrilador gigante capaz de reanimar o sagrado Maracanã, onde talvez nem a força da grana destrua as coisas belas e nem o peso do concreto novo soterre os velhos espíritos que o fazem ser a máquina potente que sempre foi. Nós também voltamos para casa depois de muito tempo. Houve uma diáspora. Estivemos na luta e na farra, estivemos fisica ou espiritualmente fora por um tempo. Aos poucos, estamos voltando. É só o começo. O processo é moroso. Há defasagem entre as pressões das ruas e os movimentos institucionais que atendem a essas pressões. Mas eles acontecem. 

A Seleção Brasileira não representa o povo e o povo não representa a Seleção. A Seleção não empurra o povo e nem o povo empurra a Seleção. Os dois se imbricam profunda e mutuamente num processo complexo e contínuo. São os mesmos jovens que compõem os dois, afinal. 

David Luiz nasceu em Diadema, São Paulo, em 1987. É zagueiro, atua no Chelsea, da Inglaterra. Com 26 anos, está no centro da média de idade da Seleção atual. É um jovem brasileiro que andou fora por um tempo e voltou a jogar em casa. Ao final da partida, na zona mista onde, segundo o padrão FIFA, os jogadores devem dar seus depoimentos aos jornalistas credenciados, seu discurso não foi polêmico, não foi vingativo, não foi de desabafo, não foi ideológico. Foi determinado: 

"(...) desde o começo, a gente entendeu o que tinha na mão, e entendeu que poderia demonstrar isso, mas somente unidos. A gente se uniu, tem um grupo muito consciente, a gente ainda não ganhou nada. Ganhou hoje um título importante que é especial, mas ainda estamos numa caminhada muito grande."

Marilena Chauí nasceu em Pindorama, São Paulo, em 1941. Tem 71 anos, é professora de filosofia da Universidade de São Paulo e um dos maiores nomes do estudo da história da filosofia no país. No eclodir da mobilização pelas ruas das cidades brasileiras, declarou:

“Não é momento histórico, é um instante politicamente importantíssimo, no qual a sociedade vem às ruas e manifesta sua vontade e sua opinião. Mas a ação política é efêmera, não tem força organizativa do ponto de vista social e política, não tem uma força de permanência, caráter dos movimentos sociais organizados, de presença organizada em todos os setores da vida democrática.”

Há algo em comum entre os dois discursos. Nada está ganho e, apesar dos efeitos expressivos do sacode no bicho-papão - em campo e nas ruas - muito trabalho ainda há pela frente. Muita determinação é necessária ainda para construir um momento histórico que garanta o hexacampeonato mundial. Ou será o contrário?



Por Bruno Passeri.