Para ler ao som de: O Rappa - Papo de Surdo e Mudo
Sempre que cai a alvorada no bairro cumprem-se os dogmas do velho ritual pagão. Quando o Sol ousa repousar na encosta verde da Floresta da Tijuca, os bares recebem a gente da área, que, antes do último feixe luminoso, já inunda as ruas com bancos, cadeiras e alegrias. Dispostos a superar os problemas e a celebrar mais um dia que se vai, o povo encontra abrigo entre serras e rios, nessa terra onde paira o cheiro da madrugada.
Aldeia Campista. Interseção entre Vila Isabel, a Tijuca e o Andaraí, a região recebeu de braços abertos a família Dos Santos na chegada à Capital Federal. Vindos do interior do Maranhão, Dona Rosa e sua prole seguiram o fluxo dos nordestinos brasileiros. A fuga da seca, da fome e da sede traz os filhos do chão rachado ao Rio de Janeiro. Entretanto, um dos filhos dessa sofrida e batalhadora mulher teria o dom de brilhar nos gramados e espantar a dura miséria semi-árida nacional.
Era fim da década de Vinte e a Zona Norte não conseguia imaginar o fim de seu sofrimento. O filho de Dona Rosa via isso diariamente no trajeto que fazia até Bangu, onde jogava bola. O negro alto e forte não se destacava somente por seu porte. Uma habilidade incomum chamava atenção de quem assistia qualquer 5 minutos de seu futebol. Por mérito, chegou ao primeiro time do Bangu. Era adorado por seus companheiros de time, já que distribuía entre seus colegas os mais fáceis gols da história do Futebol Amador. Rapidamente, seu nome virou sinônimo de celebração.
Celebração no esporte, quando matava a bola no peito e a torcida vibrava com a iminência de uma bela jogada. Celebração na vida, quando erguia o copo e comemorava cada gol na noite carioca. Famoso freqüentador das abafadas e atraentes madrugadas do Rio, o nome de Fausto já era notável; tinha destaque nas manchetes dos periódicos esportivos e emanava das aguardentes nas esquinas do Subúrbio.
Com as longas e boêmias noites, Bangu ficava cada vez mais distante. A longa viagem começava a ser o álibi de atrasos e faltas. Largar a madrugada e dedicar-se plenamente a vida de atleta? Nunca. Buscar um clube que fosse mais próximo das redondezas do Rio Maracanã parecia uma alternativa mais plausível.
A camisa negra e a Cruz de Malta receberiam o meia que abandonara o clube alvi-rubro. Muito mais próximo da casa de Fausto, o Vasco seria sua nova residência futebolística. Sob a égide do nome do desbravador português, vieram títulos e a consagração popular. O filho do Maranhão caiu nos braços da torcida. Deleitou-se com a fama. Banhado pela euforia dos cruzmaltinos e pelo doce sabor da cevada, Fausto chegou à Seleção Brasileira.
Pouco tempo depois, chegava o primeiro Mundial de Futebol. O planeta suspirava só de pensar em ver todos os grandes jogadores da Terra se confrontando para decidir quem seria o Maior. Tendo como plano de fundo o misterioso e desconhecido universo das Copas do Mundo, a seleção brasileira desembarcava no Uruguai. E coube a Fausto ser o destaque do Brasil na Primeira Copa.
Um time desorganizado e inconseqüente. Uma equipe de homens que sentiram a pressão e que tremeu perante os adversários. Nada disso foi capaz de ofuscar as grandes apresentações de Fausto dos Santos. As atuações individuais do craque vascaíno fizeram com que a torcida e a crítica passassem a chamá-lo de ‘Maravilha Negra’. Apesar das grandes exibições do Meia, o time brasileiro sucumbiu frente aos gélidos iugoslavos. Somente o maravilhoso negro maranhense foi absolvido pelo povo.
Ao voltar para os bares da Aldeia Campista, um sentimento estranho tomou a vida do filho de Dona Rosa. Ser o único respeitado em toda uma lista de selecionados causou um sentimento de Solidão. Para celebrar o clamor popular por seu nome, entornava mais um copo. Para esquecer a eliminação e o desempenho pífio do seu time, tragava mais uma dose. O ritmo de Fausto se tornava cada vez mais alucinante.
Alucinante e estafante. Uma gripe interminável assustava Dona Rosa. Onde já se viu vida assim? Atleta deve esbanjar saúde, ter hábitos disciplinados. Mas Fausto era exatamente o avesso dessa imagem. Mais magro, pálido e festeiro, a Maravilha Negra andava abatida. Fugia de médicos com a mesma eficiência com que escapava dos marcadores. Ouvir um homem de branco era ter a confirmação de uma verdade que era muito menos dolorosa sob a forma de suposição.
As tosses e febres tiraram-no do Mundial de 34. Como que prevendo uma despedida derradeira, foi à Europa para varrer a miséria da vida de sua família. Chegou ao Barcelona com status de astro. E, realmente, emanou luz. Levou o time Azul-Grená a um Campeonato Catalão e apresentou às espanholas o valor da gente da terra do samba.
Encontrou muito nas noites européias. Mulheres, bebidas, glamour. Não obstante, a saudade foi mais forte do que todas as benesses da vida de jogador profissional. Sua família, seu bairro, seus amores e amigos. Tudo estava no Brasil. Após uma rápida passagem no futebol e na noite da Suíça, voltou aos incandescentes paralelepípedos do Norte da Guanabara.
No retorno, o habilidoso meio-campo encontrou portas fechadas no Vasco da Gama. Sem oportunidades no clube em que mais brilhou, teve de encontrar o afago no time Rubro-Negro da Zona Sul. Contudo, ele já não era o mesmo. Incapaz de jogar uma partida completa, os torcedores desconfiavam da abnegação de Fausto. Entretanto, a culpa não era de sua dedicação. A boa e velha gripe se intensificou, privando-lhe até mesmo das suas confidentes madrugadas. As cinzas das horas marcavam o futuro da Maravilha Negra.
Tuberculose. Não adiantou driblar por tanto tempo os médicos, o destino é impiedoso. Como golpe final e irremediável, foi levado para um manicômio no interior do Brasil. Terra de ares limpos, puros e sóbrios. Acompanhado por sua mulher, passou seus últimos dias distante do barulho de seu povo e do movimento de seu ambiente predileto: a Aldeia Campista. Em meio a loucos e enfermos, Fausto disse adeus ao futebol e à festa que pôs em prática nessa vida.
A Aldeia Campista desapareceu. Foi engolida pela expansão comercial da Tijuca. Ninguém mais conhece a região pelo antigo nome. Todavia, é só o Astro-Rei demonstrar o cansaço por mais um dia de luz que o povo das redondezas das terras de Fausto repete a centenária procissão. Aquelas esquinas, que recebem jovens e velhos, ricos e pobres, contam a história do homem que espantou o mundo e que um dia foi chamado de Maravilha Negra. Todos que por ali bebem e celebram a oportunidade de estar respirando, altivos, celebram também, inconscientemente, a vida de Fausto; o símbolo do espírito daquele lugar.
Por Helcio Herbert Neto.
sexta-feira, 4 de novembro de 2011
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
A Verdade com palavras fáceis
Morreu hoje pela manhã talvez o último resquício do período clássico do futebol brasileiro. Luiz Mendes, o Comentarista da Palavra Fácil e da mais preciosa memória do esporte, foi vítima, aos 87 anos, de um câncer que já o abatia há tempos. Esse célebre radialista deixa saudades e lembranças preciosas para aqueles que tiveram a oportunidade de conviver com ele. Por uma efêmera manhã, este que vos fala teve a felicidade de estar com esse grande personagem. E, da boca de Luís Mendes, tive a chance única de obter a comprovação de uma verdade preciosa, que esvai-se ao longo do tempo.
Era uma manhã cinza de um sábado. Após uma longa noite fora de casa, em meio à noite da Zona Sul carioca, chego em casa já ao amanhecer. Poucas horas depois, um compromisso bate a porte. Havia me inscrito em um Fórum Jornalístico, como pude me esquecer? Ainda que relutante a abandonar o amável e aconchegante travesseiro, tomo a decisão de me levantar e ir, mesmo que atrasado, para o encontro. O evento contava com diversas figuras imponentes do jornalismo esportivo, dentre eles, Luiz Mendes. É, aquele velhinho, que aparecia de vez em quando na televisão.
Ao chegar no auditório, encontrei apenas um companheiro. Sim, eu havia chegado antes da própria produção das palestras. O prevenido amigo da fileira da frente mal entendeu minha dificuldade de ficar acordado naquela espera que parecia interminável. Aos poucos as outras pessoas iam chegando, acomodando-se nos assentos e comentando sobre as suas expectativas. Para mim, cada pessoa que chegava era como um eficiente despertador digital. Fui sendo acordado assim, com requintes de crueldade, até desistir, definitivamente, de cochilar.
Começa o evento. O apresentador agradece ao público pela presença, cumpre as cerimônias e evoca o primeiro palestrante. Seria exatamente Luiz Mendes o responsável por abrir o evento e manter-me acordado. O assunto foi acontecendo, como uma chuva de fim de tarde em um domingo. Rapidamente, compreendi a razão pela qual aquele homem era conhecido como o Comentarista da Palavra Fácil: a maneira como ele passava o universo de suas experiências era leve, divertido. Não havia mais sono. Apenas uma compenetração de quem tem a convicção de que está vivendo um momento único.
O tempo passou e o bate-papo, infelizmente, acabou. Sempre solicito, Luiz Mendes aguardou fora do auditório àqueles que desejavam tirar uma foto e guardar para posteridade esse momento inesquecível. E lá fui eu, sem câmera, mas com uma caneta, um papel e uma ideia na cabeça. Durante sua participação, ele declamou sua adoração pelo futebol de Garrincha e Zizinho. Foi nesse instante que eu percebi que poderia aproveitar a oportunidade para tirar uma dúvida.
Sempre fui contra essa idolatria maluca que culmina com a denominação de alguém de Rei. Para mim, a Humanidade já exorcizou a monarquia e todos seus poderes absolutos desde a Queda da Bastilha. Pelé era um grande nome do futebol, um personagem único, mas que nada havia feito pelo povo brasileiro para ter tal título de nobreza. Questionar a hegemonia de Pelé no Brasil é uma heresia tão grande quanto cuspir em uma imagem santa ou acreditar que existe alguma alternativa para o sistema econômico e social em que vivemos. Mas seria mesmo Pelé isso tudo?
Após uma sessão inesgotável de fotos, chega minha vez. Sob a desculpa de querer um autógrafo, me aproximei. Já após a assinatura, eu, um tanto exitante, perguntei se Zizinho era melhor que o Pelé. Ele me olhou desconfiado. Contudo, com a mesma calma e reverência que impostava sua voz nas ondas do rádio ele me disse: "Não". De súbito, achei que ele, como toda a nação brasileira, estivesse me reprimindo pela pergunta. Aí, veio a continuação: "Na verdade, cinco jogadores foram os melhores. Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Zizinho, Pelé e Garrincha. Todos eles tiveram o mesmo nível. Foram fantásticos. Impossível eleger um"
Pronto. Aí estava o álibi final, tudo o que eu mais precisava para ter certeza que minha opinião não era uma mera iconoclastia vã. Se Luiz Mendes, que havia visto esses cinco fantásticos jogarem bola não era capaz de saber quem era o melhor, como, em todos quatro cantos desse país, o nome de Pelé é proclamado Monarca de um esporte com tantos virtuosos?
Desde então aquela frase ecoa na minha cabeça. Com a simplicidade de quem conversa no café-da-manhã, aquele senhor foi capaz de mudar minha maneira de ver o mundo. Percebi que não se tratava de um olhar adolescente e anarquista da realidade, simplesmente uma tentativa de reinterpretar verdades questionáveis. A partir daquela frase, tento ler por trás das linhas, procurar outros pontos de vista, desconstruir imagens sacras. Uma tarefa inglória, porém necessária. Provavelmente, ele nunca soube da importância daqueles trinta segundos de conversa. Obrigado, Luiz Mendes.
Por Helcio Herbert Neto.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Reencontro
O relógio passa em um ritmo incessante. Poucas são as chances que temos de recordar o passado, reviver os grandes momentos que, após longos períodos, tornam-se etéreos. A imaterialidade dessas memórias perdidas fazem com que as situações vividas passem, muitas vezes, despercebidas, como se nunca tivessem acontecido. Pessoas que outrora compartilharam experiências formidáveis tornam-se, com o correr do calendário, meros conhecidos. A mudança no papel exercido pelas personagens da vida real é ainda mais abrupta quando observado o caso de relações mal-resolvidas; aquela que antes fora protagonista passa pela posição de vilã e, após alguns poucos e demorados anos, hoje carrega o amargo papel de coadjuvantes.
Entretanto, algumas vezes ocorre um lapso capaz de romper a inércia. Pode acontecer em uma quarta-feira chuvosa, durante uma carona ou em qualquer fila do pão nas esquinas da vida. De súbito, como em um ato de vidência do passado, um olhar e um sorriso mostram-se familiares. Aquela estranha, que por vezes foi vista no corredor e respondida com um mero aceno, evoca lembranças de bons momentos. Acima de qualquer aspecto, voltam à tona as mais belas nuances de uma doce amizade.
Foi uma experiência semelhante a essa que os espectadores de Santos e Botafogo tiveram o prazer de sentir. Após meia década de brigas conjugais com os bons resultados, a Vila de Pelé recebeu um confronto de Alvinegros exuberantes. Um Santos com o artilheiro do campeonato e a maior promessa do futebol mundial enfrenta o time com o mais vistoso padrão tático e o jogador de mais identificação na realidade brasileira. Além de Neymar e Loco Abreu, o que os torcedores puderam assistir foi um dos mais belos lapsos de memória do futebol nacional: ali estavam presentes, indiretamente, Pelé, Garrincha e a antiguidade áurea da Mitologia Futebolística.
Dois emblemas que andaram por baixo na segunda metade do século passado, assombrados por fantasmas da imponência de seus passados e da incompetência de seus dirigentes. Dois times dispostos a garantir vaga no hall dos maiores da História. O resultado desse embate épico foi um show de habilidade. Com uma pintura do Camisa 11 santista e mais um gol saído dos pés de Borges, o time da Baixada Litorânea Paulista conseguiu arrancar os três pontos.
Embora longe da disputa pelo título brasileiro, o Santos conseguiu recuperar a eficiência e ganhar do Time da Estrela Solitária. A moral do Santos se eleva e aumentam as expectativas para o Mundial de dezembro, quando o inimigo vestirá azul e grená e será muito mais potente. Do outro lado, o Botafogo perde a chance de assumir a liderança a oito rodadas do fim. Não obstante, segue na briga pelo mais disputado título nacional das últimas década
Acaba o jogo. Torcedores retomam suas atividades, como se nada houvesse acontecido. Depois desses instantes mágicos de futurologia histórica restam apenas a dúvida. Existirá no futuro oportunidade de consertar os erros e reviver, de certa forma, os bons momentos do passado? Não se sabe. A única coisa que inquestionável é a relevância do que já foi vivido. Isso sim não poderá ser esquecido nunca.
Por Helcio Herbert Neto.
terça-feira, 11 de outubro de 2011
Série Marginalizados: O Quinto Beatle
Para ouvir ao som de: John Lennon - Sunday Bloody Sunday
Bob Bishop, olheiro do Manchester United em 1961, foi à Irlanda incumbido de achar um bom jogador; com sorte e olhar apurado, um craque. Jamais passou pela sua cabeça voltar para a Inglaterra com um mito na bagagem.
Bons jogadores jogam acima da média, craques ultrapassam essa esfera, e mitos são raríssimas personalidades que mudam a história do esporte para sempre. Eles inovam a forma de jogar de uma geração inteira, fazem estilo próprio, quebram paradigmas da bola e riem do impossível.
Com 17 anos, o jovem de Belfast estreava no profissional formando um lendário trio ofensivo com Bobby Charlton e Denis Law, que imortalizaria os Diabos Vermelhos. George Best era único, mas não só (e exatamente por isso) dentro de campo. Um vanguardista do marketing pessoal e um precursor do consagrado “jeito boleiro”.
Best era um Garrincha europeu. Driblador, de muitos zagueiros e incontáveis mulheres; sedento, por gols e por álcool. Nas quatro linhas, era um presente divino, uma obra completa, minimamente perfeita; fora delas, uma cólera insaciável, um ser humano eternamente vazio.
O futebol incontestavelmente genial, o tipo bonitão, a megalomania e a tendência a soltar pérolas para a imprensa o fizeram o primeiro grande popstar do mundo da bola. Na época em que os “quatro garotos de Liverpool” estouravam sucessos no mundo inteiro, os tabloides ingleses estampavam, jogo após jogo, fotos de Best sob a alcunha de “O Quinto Beatle”, tamanha a popularidade que atingiu.
Os 90 minutos não bastavam mais para o ponta-direita norte-irlandês. Ele queria o foco em tempo integral; nos gramados e nas noitadas, nos jornais e na publicidade, nos uniformes e nas roupas de marca. Passou a investir em casas noturnas, lojas de grife e o que mais lhe rendesse dinheiro e fama.
Diriam que tinha tudo que se pode querer; a vida dos sonhos. Mas não. Bebia para olvidar suas responsabilidades terrenas e lidar com o peso de ser um Deus. E dormia com muitas mulheres para lembrar que estava vivo e para esquecer da vida. Fora dessas contradições, não encontrava fadas.
O talento sobrenatural foi consumido pela cabeça fraca, e uma trajetória que indiscutivelmente estaria nos anais do futebol foi recalcada pela história do esporte. A falta de oportunidade de disputar uma Copa do Mundo, as constantes críticas sobre sua personalidade e as várias pausas ao longo da carreira fizeram com que a “fábula” de Best se esvaísse na linha tênue do tempo.
Em 2005, bem depois de ter se afastado dos campos e do foco, a lenda britânica foi internada em estado grave, pois não havia se afastado do álcool. E foi assim que seu maior companheiro ao longo de toda a vida o traiu, entregando-o à solidão pavorosa da morte. Mas não antes de George Best fazer seu “último brinde”, como assim definiu. Na cama do hospital, ouviu seu amigo Denis Law ler uma carta que continha uma usual mensagem de apoio e a assinatura que tornou a ruína da vida menos dolorosa: “Do segundo melhor jogador de todos os tempos, Pelé”.
Por Beto Passeri.
Bob Bishop, olheiro do Manchester United em 1961, foi à Irlanda incumbido de achar um bom jogador; com sorte e olhar apurado, um craque. Jamais passou pela sua cabeça voltar para a Inglaterra com um mito na bagagem.
Bons jogadores jogam acima da média, craques ultrapassam essa esfera, e mitos são raríssimas personalidades que mudam a história do esporte para sempre. Eles inovam a forma de jogar de uma geração inteira, fazem estilo próprio, quebram paradigmas da bola e riem do impossível.
Com 17 anos, o jovem de Belfast estreava no profissional formando um lendário trio ofensivo com Bobby Charlton e Denis Law, que imortalizaria os Diabos Vermelhos. George Best era único, mas não só (e exatamente por isso) dentro de campo. Um vanguardista do marketing pessoal e um precursor do consagrado “jeito boleiro”.
Best era um Garrincha europeu. Driblador, de muitos zagueiros e incontáveis mulheres; sedento, por gols e por álcool. Nas quatro linhas, era um presente divino, uma obra completa, minimamente perfeita; fora delas, uma cólera insaciável, um ser humano eternamente vazio.
O futebol incontestavelmente genial, o tipo bonitão, a megalomania e a tendência a soltar pérolas para a imprensa o fizeram o primeiro grande popstar do mundo da bola. Na época em que os “quatro garotos de Liverpool” estouravam sucessos no mundo inteiro, os tabloides ingleses estampavam, jogo após jogo, fotos de Best sob a alcunha de “O Quinto Beatle”, tamanha a popularidade que atingiu.
Os 90 minutos não bastavam mais para o ponta-direita norte-irlandês. Ele queria o foco em tempo integral; nos gramados e nas noitadas, nos jornais e na publicidade, nos uniformes e nas roupas de marca. Passou a investir em casas noturnas, lojas de grife e o que mais lhe rendesse dinheiro e fama.
Diriam que tinha tudo que se pode querer; a vida dos sonhos. Mas não. Bebia para olvidar suas responsabilidades terrenas e lidar com o peso de ser um Deus. E dormia com muitas mulheres para lembrar que estava vivo e para esquecer da vida. Fora dessas contradições, não encontrava fadas.
O talento sobrenatural foi consumido pela cabeça fraca, e uma trajetória que indiscutivelmente estaria nos anais do futebol foi recalcada pela história do esporte. A falta de oportunidade de disputar uma Copa do Mundo, as constantes críticas sobre sua personalidade e as várias pausas ao longo da carreira fizeram com que a “fábula” de Best se esvaísse na linha tênue do tempo.
Em 2005, bem depois de ter se afastado dos campos e do foco, a lenda britânica foi internada em estado grave, pois não havia se afastado do álcool. E foi assim que seu maior companheiro ao longo de toda a vida o traiu, entregando-o à solidão pavorosa da morte. Mas não antes de George Best fazer seu “último brinde”, como assim definiu. Na cama do hospital, ouviu seu amigo Denis Law ler uma carta que continha uma usual mensagem de apoio e a assinatura que tornou a ruína da vida menos dolorosa: “Do segundo melhor jogador de todos os tempos, Pelé”.
Por Beto Passeri.
domingo, 9 de outubro de 2011
Não há Casa Pré-Fabricada
Para ler ao som de: System Of A Down - B.Y.O.B
Prefeitura, Governo do Estado, Governo Federal, FIFA e o Comitê Olímpico Internacional traçaram um projeto infalível. Em três anos, dois eventos esportivos gigantescos no Rio de Janeiro. Uma grande oportunidade para o desenvolvimento. O programa previa o velho modelo proclamado na bandeira nacional: ordem para o povo e progresso para a burguesia. A população seria deixada de lado no processo. Um Estado de Exceção entraria em vigor, a soberania nacional seria suprimida em virtude dos espetáculos que a cidade irá receber.
Contudo, o exercício de futurologia das autoridades responsáveis pela organização dos espetáculos se mostrou incorreto. De súbito, surgem focos de resistência em diversas esferas sociais. A promessa de melhorias no cotidiano dos brasileiros se concretizou como uma quimera. Os questionamentos tornam-se constantes. Surge um desconforto irremediável na relação entre as organizações esportivas internacionais e os governantes.
A tentativa de limpeza promovida pela prefeitura do Rio gera reações internacionais. Os corredores viários que ligam pontos de extrema importância para os eventos, como o Aeroporto Internacional Tom Jobim e a Barra da Tijuca, região que concentra grande parte dos jogos das olimpíadas, realizam remoções desordenadas, que violam leis e a dignidade de várias famílias cariocas. A população local, por meio de vídeos que já superaram os dois mil acessos no youtube, abriu os olhos de organizações de Direitos Humanos internacionais. Após a grande repercussão, ONU investiga a maneira como os moradores têm sido retirados de suas moradias.
A coalisão da FIFA, do COI e dos políticos locais havia planejado uma realidade para o Rio de Janeiro. Construíram uma projeção. Entretanto, não há casa pré-fabricada. A população não aceita as imposições das autoridades. O Mundo das Idéias é cruel. Engana românticos e ingênuos. E acreditar que os cariocas acompanhariam passivamente mandos e desmandos arbitrários é uma ingenuidade que não será perdoada.
Por Helcio Herbert Neto.
domingo, 2 de outubro de 2011
Primavera dos Povos
Regina repousou a xícara de café puro desequilibradamente sobre a mesa da cozinha, enquanto passava o olho pelo jornal à procura de novas notícias. Não ia trabalhar. O banco havia entrado em greve e ela rezava em si por um reajuste que cobrisse pelo menos a inflação iminente. Leu o que não agradava - “os seis maiores bancos que operam no Brasil lucraram R$ 25,9 bilhões no primeiro semestre de 2011” – e desceu para checar a correspondência.
No térreo, só o radinho de pilha do porteiro ligado e o pequeno Maicon brincando de ajudar o pai no serviço quebravam o clima lúgubre daquela manhã de terça-feira. O menino correu, sorridente, e denunciou suas ‘férias’. Severino girou lentamente a respeitável barriga para corrigir o filho a tempo.
- É, dona Regina, os professô num tão querendo mais trabalhá por merreca não – disse abafado pelo bigode grisalho.
Nada de cartas na caixa. Foi quando ela se lembrou de ter visto algo estranho sobre Correios no periódico, e sentiu uma espécie de compaixão oficial por aquela gente parva e por si mesma.
Subiu no elevador com Sérgio, seu vizinho de baixo, e, em vinte e cinco segundos, não falou sobre o tempo que tinha virado, mas descobriu que o mestre de obras também não ia trabalhar e o porquê lhe soou familiar. Os anônimos que ajudavam a erguer o monumento de R$860 milhões para a festa em 2014 não recebiam os R$160 de cesta básica que queriam. Não tinham plano de saúde e ganhavam comida estragada na hora almoço.
À noite, logo após o jantar, Regina deitou junto ao marido e ele achou estranho. Consumida por um medo visceral e inexplicável, tratou de procurar conforto no ombro sempre firme do homem. Não achou ruim ver esporte na tv àquela altura. Achou que, se tudo estava saindo dos trilhos, se algo estava balançando, queria ver os robóticos atletas milionários promovendo algum espetáculo.
Não mais. No canal internacional, a poderosa liga de basquete americano estava estagnada. Ele achou estranho, mudou. Gostava das raquetes também, mas os tenistas não apareceram para exibir seus fortes patrocínios. Não toleravam mais as jornadas desumanas de jogos e as lesões seguidas e irreversíveis. O modelo esportivo ruíra.
Um olhou para o outro. Ele sabia que a Justiça Federal logo estaria na mesma e então poderia passar mais tempo em casa. Ela suspirava, aliviada, por fazer parte do mesmo mundo cretino que as estrelas internacionais. Entre os dois, harmonia. E ali, nos lábios do proletário, um beijinho de anarquia.
Por Beto Passeri.
quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Fagulha no palheiro
Uma hora algo queima. Não de repente. Vai fritando aos poucos.
Pode ser uma frustração, um desejo que não se realizou. E pode ser defeito do sistema. Um alimentando o outro. Abrasando.
Por exemplo: quer ser artilheiro, craque com a dez, armador clássico, lançador, dono de arrancadas e dribles, passes de sinuca.
Desde pequeno tem talento para assumir o comando do ataque, o controle do meio-campo. O destino que carrega no nome.
Mas ninguém reconhece. No par-ou-ímpar, mais novo, vai pra zaga. Na peneira, tímido, vai pra zaga. No juvenil, sem lugar no meio e na frente, vai pra zaga.
E agrada. Claro, joga melhor que os zagueiros. Muito melhor.
Nunca mais sai de lá. Desarma. Marca. Tira a bola e passa pra outro brilhar, pro armador, pro meia, pro atacante, pro craque, pro artilheiro.
Nada de lançar, driblar, encantar. Só combate, cerca, impede as melhores jogadas.
Desfaz o que sempre quis fazer.
O reverso do seu sonho.
Nasceu pra enfrentar o mar – mas é faroleiro.
Zagueiro. E dos melhores. Titular, campeão, seleção, Europa.
Casa, carro, dinheiro, conforto.
Mas lá dentro um chip vai fritando.
Esquentando.
Acaba pegando fogo.
LUIZ GUILHERME PIVA (blog do Juca Kfouri)
Por Beto Passeri.
Pode ser uma frustração, um desejo que não se realizou. E pode ser defeito do sistema. Um alimentando o outro. Abrasando.
Por exemplo: quer ser artilheiro, craque com a dez, armador clássico, lançador, dono de arrancadas e dribles, passes de sinuca.
Desde pequeno tem talento para assumir o comando do ataque, o controle do meio-campo. O destino que carrega no nome.
Mas ninguém reconhece. No par-ou-ímpar, mais novo, vai pra zaga. Na peneira, tímido, vai pra zaga. No juvenil, sem lugar no meio e na frente, vai pra zaga.
E agrada. Claro, joga melhor que os zagueiros. Muito melhor.
Nunca mais sai de lá. Desarma. Marca. Tira a bola e passa pra outro brilhar, pro armador, pro meia, pro atacante, pro craque, pro artilheiro.
Nada de lançar, driblar, encantar. Só combate, cerca, impede as melhores jogadas.
Desfaz o que sempre quis fazer.
O reverso do seu sonho.
Nasceu pra enfrentar o mar – mas é faroleiro.
Zagueiro. E dos melhores. Titular, campeão, seleção, Europa.
Casa, carro, dinheiro, conforto.
Mas lá dentro um chip vai fritando.
Esquentando.
Acaba pegando fogo.
LUIZ GUILHERME PIVA (blog do Juca Kfouri)
Por Beto Passeri.
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