quarta-feira, 4 de julho de 2012

Faz tanto tempo assim?











Quase sempre que falamos de passado fica a impressão de que estamos nos referindo a um tempo áureo, melhor que o atual e que jamais voltará. A terceira premissa certamente é verdadeira; as outras duas são discutíveis, mas eu, guiado pelo meu pessimismo com o futuro, tendo a acreditar que não são falaciosas como um todo. De qualquer forma, não é o passado em si que me interessa agora. É o não-passado, o ‘falso passado’, ou seja lá como você queira chamar.

A definição de passado é tudo aquilo que já passou. E a definição, tão simples, é muito genial. Isso porque é exatamente assim que deveria funcionar, mas não funciona. Pois não interessa o quanto o relógio ou calendário nos direcione, só nos encontraremos através sentimento de pertencimento daquele tempo e espaço. 

Ou seja, se em 100 anos nada acontecesse no mundo além do passar dos dias e das noites, nós não consideraríamos esse período como passado. Por outro lado, se em 60 segundos toda a história da humanidade mudasse, esse minuto seria um marco e dividiria dois tempos bem distintos, tal qual foi o milésimo de segundo em que a primeira partícula do Big Bang explodiu. O que me separa da Independência do Brasil não são 190 anos, mas o fato de eu não conseguir me imaginar em tal conjuntura. O que me distancia das minhas primeiras festas de aniversário não são esses anos de vida gastos até aqui, mas a memória embaçada, destorcida, quase bêbada daquele tempo.

Claro que essas são comparações extremistas – e a graça é essa -, mas é inegável que estamos condicionados ao tic-tac do relógio, que “pensa” por nós, evitando uma confrontação com nossas próprias vivências. Vamos ao ponto: 2006. Não parece tão distante assim, né? (Agora mesmo, numa fração de segundos, você recorreu a um ponto de referência - seis anos atrás – não foi?). Claro que todo mundo irá se surpreender relembrando detalhes de seis anos atrás, como era a vida pessoal, amorosa, o trabalho, etc, mas uns se espantarão mais e outros nem tanto. Para alguns, seis anos significa metade, um terço da vida; para outros, um piscar de olhos. Essa discrepância do relativismo de idades e também a intensidade das mudanças me leva a buscar um ponto comum, que é o motivo pelo qual este texto está neste blog: o futebol.

Todo esse pensamento me ocorreu assistindo à final da Eurocopa, quando os comentaristas falavam sobre a formação dessa atual seleção da Espanha. 2008, na outra Eurocopa. Mas eu precisei buscar um ponto de referência ainda mais forte e acabei me detendo na Copa do Mundo de 2006.

Você ainda tem a(o) mesma(o) namorada(o) ou marido/esposa que tinha em 2006? Pois o Brasil era inquestionavelmente a melhor seleção do mundo, referência do futebol arte, e a Espanha...ninguém levava a Espanha a sério. Você tem o mesmo emprego? Porque Ronaldinho Gaúcho era o atual melhor jogador do mundo. Hoje ele está no Atlético Mineiro, que àquela época disputava a Série B do Campeonato Brasileiro. Você ainda mora na mesma casa? Pois fique sabendo que Seedorf, um dos craques do Milan campeão da Liga dos Campeões no ano seguinte, acaba de fechar com o Botafogo do Rio de Janeiro, que em 2006 comemorava um estadual depois de seis anos sem levantar um troféu.

Você não mudou muito desde 2006? Mas Iniesta, eleito melhor jogador desta Eurocopa e autor do gol do único título Mundial da Espanha, era reserva na seleção e no Barcelona. Messi, três vezes melhor do mundo e já um dos maiores jogadores da história do futebol, também.

Você se aposentou nesse tempo? Ronaldo, Zidane e Romário também. O último, inclusive, chegou ao milésimo gol. Você se formou no colégio ou na faculdade de 2006 para cá? Neymar, que tinha 14 anos, se formou no Santos. Entrou nos profissionais, ganhou um tricampeonato Paulista, uma Copa do Brasil e uma Libertadores que não vinha desde Pelé.

Faz tanto tempo assim, é? Faz. Faz porque a diferença entre um minuto, uma hora e uma vida não é o que acontece, é o que a gente sente.









Por Beto Passeri.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Espanha, Itália e a Extinção do Segundo Atacante


Espanha campeã. E ai? O que fica para o futebol?

Com certeza o que mais chama a atenção em uma primeira análise é a faiscante ausência da referência. Com base (novamente) no modelo azul-grená da Catalunha, Vicente del Bosque abandonou a fixação pelo tradicional atacante de área nos momentos decisivos, muito em virtude da má fase de Fernando Torres, muito pela contusão do dinâmico David Villa. A formação campeã, pródiga nas trocas de passes e em um avanço massivo e consistente manteve a identidade conseguida com Luís Aragones em 2008 e condecorada na Copa de 2010.

Entretanto, é vã qualquer crença de que esse estilo de jogo vai se propagar pelo mundo. A maneira coletiva dos 'Rojos' se apresentarem é fruto de condições ímpares: a perícia de seus atletas, o espírito do tempo ao qual esse grupo se insere, e outras arestas que condicionaram o brilhantismo espanhol. Ver no método dos vencedores da Eurocopa 2012 a tônica para um novo futebol nos próximos anos é um ato de leviandade. Há sim, um outro processo em percurso, mais silencioso e pulsante, que caminha na ponta dos pés para não atentar os torcedores do esporte mais praticado do planeta.

Os segundo-atacantes foram à bancarrota. O processo, que teve estopim na formação do império do sistema 4-2-3-1 na Copa da África, parece estar consolidado. O fato de acrescentarem mais um dígito no 'nome' do sistema de jogo (que, antigamente, era composto por apenas três números, referentes à linha defensiva, média e ofensiva) indica uma mudança substancial. A fusão entre a frente de meias e de atacantes que aconteceu em decorrência do desenvolvimento da condição física do esporte foi aplaudida por muitos no último mundial. 'A volta dos três atacantes', alguns sentenciaram. Não. A transformação do segundo-atacante em meio-campo seria uma frase mais apropriada.

Di Maria, Sturriedge, Robinho... todos já encarregados de impedir o avanço dos laterais nos clubes. A Euro só oficializou a jornada dupla dos atletas da posição. Solitários, os atacantes agora raramente aparecem acompanhados antes da chegada dos meias. O rechaço final à alegação de que vivemos uma 'onda ofensiva' é a constatação de que Ramires, volante de origem, ocupa o mesmo posto no Chelsea que Lucas, o ofensivo jovem, exerce no São Paulo. Quando um cabeça-de-área e um meio-atacante podem exercer a mesma função, ocupar a mesma faixa de campo, há alguma mudança no modelo ortodoxa.

A Itália, a surpreendente vice-campeã, também lança mão do 4-2-3-1, exigindo de Cassano uma colocação mais lateral e preocupada com o avanço do time adversário. Aliás, fica marcado o fascículo da redenção do time azul dentro de campo nessa competição, embora que ainda maculado pela recente aparição de casos de manipulação de resultado. Pirlo, Buffon e Balotelli (que possui somente UM ano a mais que Neymar) assumiram a responsabilidade de restabelecer o time tetracampeão no cenário da bola. E conseguiram majestosamente.

Por Helcio Herbert Neto.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Feliz 'Dia dos Apaixonados'


Seria muita pretensão minha falar em 'previsão', mas há exatos nove meses, quando soube que Andriy Shevchenko se aposentaria depois da Eurocopa realizada na Ucrânia, resolvi dedicar uma crônica da Série Marginalizados a ele. Conforme fui destrinchando e (re)montando a história de Shev, pude sentir realmente que havia algo especial guardado para o camisa 7 no futuro próximo.

Esse futuro chegou, teve início a Euro 2012, que divide suas partidas entre Polônia e Ucrânia. A primeira, longe de ser uma potência do futebol ou de ter algo interessante para narrar, estreou com um empate medíocre com a Grécia. Todas as outras seleções jogaram: a Holanda decepcionou ao ser derrotada pela Dinamarca, a Fúria Espanhola contou vantagem antes da hora e amargou um empate contra a já nem tão gloriosa Itália. A Alemanha venceu Portugal, e França e Inglaterra ficaram no 1 a 1. Todos os gigantes europeus haviam dado o ar da graça, o início da Euro estava completo, não faltava mais nada. Aí é que todos se enganaram. Ucrânia e Suécia fechariam o Grupo D, por mais que para muitos fosse figuração para a uma classificação encaminhada de França e Inglaterra.

Jogo chato, fraco tecnicamente. Como era de se esperar, o único brilho veio de Ibrahimovic, que abriu o placar já no segundo tempo. Frustração para os ucranianos, que não alimentavam grandes esperanças, mas que faziam a festa no estádio lotado em Kiev. Blokhin, maior artilheiro da União Soviética e técnico da Ucrânia, olha para as quatro linhas e para seu banco de reservas. Não tinha a menor soluç...vem cruzamento para a área sueca, uma cabeça esperta entra na frente do zagueiro e coloca a bola para o fundo das redes. Shevchenko. Simplesmente havia esquecido dele. Trinta e cinco anos, futebol decadente, a um passo do fim. Mas ainda sabia fazer gol; honroso, marcara e evitara a derrota da anfitriã na estreia.

Nem dez minutos se passaram, e o cruzamento dessa vez veio da esquerda, mas novamente uma cabeça se meteu na frente da marcação e empurrou a bola para dentro. Virada da Ucrânia, explosão de euforia no Estádio Olímpico, e um vulto correndo alucinado puxa a camisa, bate no peito e está à beira das lágrimas. Era Shevchenko. De novo ele. Ficou mais uns minutos em campo, alegou cansaço e foi substituído. Mais de 50 mil vozes gritando o seu nome; 100 mil mãos agitadas em sonoras palmas para Shev. O camisa 7 acenou, tímido, atônito. Escapara da morte por pouco quando pequeno, tornara-se um fenômeno do futebol em seu país, referência internacional, ídolo, mas aquilo certamente nunca havia lhe passado pela cabeça. Uma das cenas mais comoventes do futebol nos últimos tempos em um jogo que não se esperava nada além de muitas botinadas para cima. A campanha da Ucrânia poderia terminar por aí mesmo, desenhada sob o gran finale de Shevchenko

Um parabéns, ou melhor, um brinde, não aos namorados (tá, também a eles), ao seu amor estável ou seus bichos de pelúcia; um brinde aos apaixonados, essas pessoas desequilibradas capazes de amar qualquer coisa, adeptas da experiência visceralmente vivida, que morrem e renascem no espaço de tempo de uma fantasia e que esquecem os planos imaculados para viver na linha tênue da passionalidade. 





Por Beto Passeri.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Finalmente Greve



Talvez você não saiba, mas há 26 dias uma greve nacional está em curso. O fato tem sido pouco abordado nos veículos de comunicação de grande alcance, o que distancia a comoção popular da maioria dos espectadores. Segundo o Sindicato Nacional dos Docentes de Ensino Superior, um total de 51 instituições de terceiro grau já haviam paralizado seus trabalhos. Os médicos federais também aderiram ao movimento e dão mais importância ainda à causa. E o que você com certeza não sabe é que, a partir da quarta-feira, as reivindicações tomarão um vulto maior ainda: os servidores federais da educação básica, profissional e tecnológica também prometem se juntar ao coro dos descontentes. Tudo isso muito obscuro, escondido da população em geral. E eis que brilha o futebol na tentativa de difundir uma causa coerente.

Lá pelas 6 e meia da tarde do chuvoso e gélido sábado do feriado prolongado, o Flamengo entra em campo. Abatido pelo caos interno e pela escassez de vitórias nos últimos sessenta dias, o time inspira poucos aplausos. Ao subir o túnel, além dos pequenos fanáticos que sempre se interessam pelos seus ídolos independentemente das circusntâncias, os jogadores rubro-negros trouxeram uma faixa branca com letras vermelhas. Suspeito de que muitos dos presentes no Enegnhão, entre jogadores, torcedores e funcionários, ignoraram a mensagem contida naquela lona plástica. Mas era o time do Flamengo que a trazia, apesar de tudo ainda é a maior torcida do país, o mais vitorioso time carioca, o maior campeão brasileiro... devia ser importante.

É bem verdade que o time da Gávea é o oposto do ideal de civismo. Sua presidente é uma vereadora que, como muitos políticos, tenta tirar proveito da paixão das massas para alcançar o sucesso em sua carreira política. Seu diretor de futebol nada tem a ver com futebol e que anda em êxtase com a posição que exerce (vide o caso da declaração de Cascão sobre Ronaldinho antes da saída do ex-jogador que foi parar no youtube). Isso para não falar do presidente do conselho deliberativo do clube que carrega o título de Capitão Léo por ser o inventor das divisões em pelotão de uma das mais violentas torcidas do Brasil. Contudo, nada disso é capaz de macular o gesto que motivou essa postagem.

Foi  naquele que parecia ser um começo tradicional de partida que muitos tomaram conhecimento da causa defendida por médicos e professores. Algumas arbitrariedades do Governo Federal, como a MP 568/2012, que altera o modelo de gratificação para a atividade médica, e o reajuste de 2% no salários dos professores universitários, valor bem abaixo da inflação, vieram à tona naquele princípio de noite para os presentes. E não só para eles. A imagem foi transmitida ao vivo para os assinantes do Pay-Per-View e também foi assistida por aqueles que, na impossibilidade de frequentar o estádio devido aos preços abusivos dos ingressos, transformaram em hábito a presença nos bares em hora de jogo. O futebol foi capaz de comover uma parte considerável da população que seguia alienada aos fatos.

O jogo foi 3 a 1 e o Coritiba foi derrotado. Muito bem. Os portais da internet devem dar destaque ao ato cívico protagonizado, não pelo time Vermelho e Preto, mas pelo futebol, certo? Não. Nenhum dos grandes sites deram ênfase à faixa. Pior, nem mesmo veicularam uma foto da entrada do time. Também por isso o blog não traz a imagem da entrada ao campo do time do pressionado Joel Santana. Pouco importa.  Acredito também que a fotografia da manifestação dos estudantes da Unifesp é mais criativa e impactante. E se preparem, porque, à revelia da negligência da mídia, a greve promete ainda muito mais impacto.

Por Helcio Herbert Neto.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Boca sem Dente



Para ler ao som de um clássico do Samba na voz do Grupo Revelação:
Boca sem dente - Grupo Revelação

A ingratidão é, talvez, o mais cruel dos sentimentos. Diferentemente de outros também odiáveis, como a temida raiva, aquele que é recebido pela ingratidão é colocado em posição menor, passiva. Obviamente, ao proteger em redomas pessoas sem análise prévia do histórico de tais, o benevolente abre uma brecha para que floresça a venenosa traição. Na hora, entretanto, pouco importa: vale a pena, por que não arriscar? Viver do retilíneo do calendário não parece um projeto excitante. Encontrar em algo o Oásis, a Redenção, é a posição mais otimista, que mais entusiasma o homem a pôr-se de pé ao soar o despertador. Sem a busca pelas paixões, tudo é vazio, sem sentido.

Isso explica a sede da Gávea lotada no começo de 2011 para a chegada do Ronaldo Gaúcho. Após o ano mais duro da história do centenário Rubro-Negro, que contou com a eliminação da Libertadores, briga contra o rebaixamento, 'apedrejamento' público do maior ídolo do Flamengo, agressões contra mulher na favela, sequestro e assassinato, entrar na parada por Ronaldinho parecia ser a resposta para todas as dores da imensa população que veste vermelho e preto em dia de jogo. Como um beijo úmido dado a um boêmio faz imaginar a regeneração, a chegada do melhor jogador do mundo em 2005 e 2006 trazia a esperança pra aquela gente que, não satisfeita com o martírio duro de seus cotidianos, ainda tinha no Flamengo mais uma fonte imaginação.

E em meio a sorrisos e bandeiras tremulantes, deu-se a recepção do último romântico do futebol (nome dado por Romário ao Camisa 10 da Seleção em 2006). Digo aqui dos verdadeiros flamenguistas, da massa passional que é rubro-negra sem pedir recompensa que não alegria. Nada disso diz respeito aos dirigentes de interesses escusos e promíscuos. Pelo contrário, esses manipularam o bloco popular ao contratar Ronaldo em busca de popularidade (Patrícia Amorim é política, em 2012 tem eleição...), aqueles não pensavam nisso: só na magia de um homem aplaudido de pé pelo Santiago Bernabéu ao entrar em comunhão com o pesado pedaço de pano que, em dias de glória, foi de Zico.

Encheram de vida o azul pálido do Engenhão, botaram sangue no estádio que até então nunca havia pulsado. Em um mosaico de som e cor, estenderam os braços àquele que fracassara nas últimas temporadas no Barcelona e na passagem pela Itália de Berlusconi. Aqui será diferente, 'Flamengo é Flamengo'. As bocas abertas vibravam. Depois da tempestade, um horizonte claro se abria.  Era hora de se agarrar a única chance de voltar a sorrir. Embora o começo tenha sido de pouco entusiasmo, 'o cara merece uma chance, olha as bolas que ele passa'. Devia ser a falta de entrosamento, de ritmo.

Veio o fim do campeonato carioca e Ronaldinho trouxe alegria aos torcedores, mesmo sem jogar tudo o que se esperava dele. O que eles queriam mais? Um título conquistado e os dentes à mostra já estavam lá. Foi esquecida a dor do passado, o sonho se tornava realidade. Mais ainda quando começou o campeonato brasileiro, dois meses de astro com direito a calar o Santos do Neymar campeão da Libertadores na Vila Belmiro. Uma noite à caminhar de mão dadas com o bêbado e a certeza de uma longa história romântica. Ali estavam as bocas a aclamar.

Os pagamentos cessaram, o relacionamento com o técnico azedou, a imprensa perseguiu as noites do Camisa 10. A torcida não; perseguiu na procura pelo grande Gaúcho do Gol de David Seaman quando ele  mal conseguia ser o batedor oficial do seu time, lutando contra os figurões Renato Abreu e Dario Botinelli. O bêbado marca encontro e aguarda no bar, ela merece esse crédito, não? Trata-se de um gigante que alcançou novamente a titularidade na Seleção Brasileira. As bocas calaram, aguardaram. Se os adversários questionavam é por inveja, sentimento baixo.

Tudo indicava um fim próximo, transparente para os embriagados apaixonados pela farsa que era a presença de uma sombra daquele que um dia brilhara no Camp Nou. Transparente sim, invisível não. Estava na cara, era a trajetória que havia sido trilhada no Grêmio, no Milan, no Barcelona e no PSG. Casos, acasos e ocasos, tudo indicando uma saída. Restava aguardar a regeneração. 'Ele ainda tem lampejos'. As bocas vaiaram e deram origem a um mal-estar evidente. Mas o som não era dos mal-intencionados, eles, ainda apaixonados, só cobravam do único que era capaz de dar magia ao time .

A eliminação da Libertadores foi preponderante para o fim da paciência dos fãs. A espera era vã, as noites nunca culminariam no futuro prometido. Vieram o problema de saúde com a mãe, a ausência no amistoso com o selecionado do Piauí, a aparição do processo trabalhista contra o Flamengo e a chegada ao Atlético Mineiro. Consolidou-se o último movimento da punhalada pelas costas tramada há meses. No momento em que o Vermelho e Preto se tornou hostil, o palco ruiu e o gaúcho procurou outras ares. As bocas agora ironizam, com o jeito típico de quem teme que o sucesso reapareça em Belo Horizonte.

Por mais que haja comemoração, a ingratidão de Ronaldinho Gaúcho para com todo o ambiente criado dói em cada um dos flamenguistas que proporcionaram a festa de chegada, o otimismo nas jogadas e a consideração nas trapalhadas. O cotidiano se mostra frio a todos eles, sem um álibi para acreditar em tempos dourados em um curto espaço de tempo. As bocas suspiram e se dão conta de quão artificiais eram os dentes que passaram por elas. Não foi obra da fatalidade e há, sinceramente, a vontade de vê-lo sofrer.

Duro, mas passou.


Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Clic


O olhar perdido no sofá acompanha a vontade imperante de não se levantar. O 'emprego dos sonhos' já nem parece tão fabuloso assim considerando as toneladas que pesam sobre as costas. Um gole insípido d'água, mil pensamentos amargos na cabeça. O espelho não disfarça a expressão abatida e o desânimo de quem já não sabe mais o que fazer. As conquistas honrosas, as batalhas Aflitas, as derrotas de outrora não parecem ajudar em absolutamente nada. Talvez as experiências só servissem mesmo para livros de auto ajuda.

Um ideal, um lema, uma missão. Renovação, arte e vitória, era isso que queriam. Possível era, sabia; um tanto complexo, imaginava. Mas não era para ser tão custoso, sentia na pele. Onde havia falhado? Deveria mesmo estar ali? Em diversas ocasiões era mais importante que o próprio presidente, afinal trabalhava com paixões. Sempre trabalhou, mas agora um país inteiro estava em suas mãos, em suas ideias e atitudes, como num quadrinho de super-heróis. O Mundial que serviria para espantar um fantasma de mais de 60 anos dependia disso.

A dúvida sobre o futebol brasileiro pairava o planeta, mas a culpa não era sua. Ou era? Uma safra ruim, inaproveitável, ou um erro de medida? Qual era a medida? Não queriam os melhores? Ou eram os que tinham um longo futuro pela frente? A experiência, não precisávamos dela para fazer um certo contraponto? Não havia resposta em canto algum de sua sala, em voz alguma de sua agenda telefônica e, cá entre nós, em lugar nenhum do país. Azar o seu, que era o representante daquele fracasso. Símbolo de uma tentativa frustrada de recomeço, digna de dó. Talvez perdesse o emprego antes do ato final, o que nem sabia dizer se era melhor ou pior. Adormeceu.

Dois anos depois, o sorriso está estampado no rosto antes mesmo de o despertador tocar. Ainda deitado num quarto de hotel no coração dos Estados Unidos, não conseguia acreditar em como as coisas podem mudar em uma velocidade assombrosa. Sabia que tinha muita coisa importante pela frente, mas não era possível conter a felicidade diante dos fatos. Agora estava do outro lado, talvez houvesse, sim, uma saída feliz. Recebera elogios na noite anterior, coisa que não acontecia desde, sei lá, não se lembrava.

Lavava o rosto lentamente, mais para remover alguma coisa da pele do que propriamente para despertar. Queria tirar aquela ilusão da face, mas não sabia como. Mergulhara nela e agora iria fundo até onde conseguisse. Como era bom sonhar de novo, como era bom acertar. Já podia se ver segurando uma medalha que nenhum outro segurara, concedendo entrevistas atrás de entrevistas e explicando a fórmula do sucesso. De repente, voltou seu olhar para a própria imagem no espelho. Mudou a fisionomia. E o que diria? Qual era a fórmula do sucesso? Minha nossa, qual era o seu mérito, onde entrara seu dedo? Tentou fazer uma cronologia mental de seus passos laborais, mas não conseguiu.

Sem mais nem menos, começou a chorar. As incertezas voltaram. Não sabia se estava feliz ou triste, aliviado ou aflito. Não sabia se era seu trabalho ou sorte por trás daquele sucesso. Se era um ou o outro, também o foi no momento mais difícil. Incompetência ou azar? Uma mistura dos dois? Queria ser menos democrático e mais direto com relação a isso, mas não podia. O que fizera, o que fizera? Seus pensamentos acelerados atropelavam a linha de raciocínio que tentava construir. Não dá. Talvez fosse melhor se contentar com o fato de que algumas coisas simplesmente não têm resposta, afinal já estava faminto. Clic. Apagou a luz, fechou a porta e desceu para tomar o café da manhã.



Por Beto Passeri.

























domingo, 27 de maio de 2012

O Fim das Nações


Sexta-feira. Os relógios marcam cinco horas da tarde. Um exército invade a capital espanhola por duas frentes. Ávidos por uma revanche esperada por séculos, chegam obstinados ao front. O oponente não está presente: deu-se por vencido em batalhas passadas. Não foi capaz de fazer frente ao ímpeto dos oprimidos que encontraram na fragilidade atual do inimigo hegemônico secular uma oportunidade de vencer. A chance de derrubar limites impostos e desmentir inverdades que durante anos foram usadas como agente alienante da verdadeira condição popular. Não, eles não eram iguais. Não, eles não pertenciam ao  dominante. E quando os dois exércitos aliados se encontraram no plano campo verde, finalmente tomaram consciência de sua liberdade.

À beira do rio Manzanares, o contingente catalão e basco estende a bandeira da independência. O cenário mostra uma revolta sem o romantismo de outrora, com um simples suspiro de alívio. O estádio Vicente Calderón, no coração de Madrid, foi escolhido para ser a sede  do desfecho da batalha, sob a máscara de final da Copa do Rei. Representados por Barcelona e Athletic Bilbao respectivamente, os dois povos encontram no futebol a mais barulhenta maneira de se manifestarem contra a centralização espanhola e, por conseguinte, contra o ideal falido de Nação que ainda vigora no planeta.

Não há um discurso contra a ideia de pátria nem nas vozes vindas da Catalunha nem nas oriundas do País Basco. Por mais que sejam usadas, muitas vezes, como sinônimos, vale ressaltar a diferença entre as palavras Pátria e Nação. A primeira é um conceito concreto, delimitado por elementos topográficos, climáticos e linguísticos, por exemplo. A própria palavra tem como radical o mesmo que deu origem a palavra 'pai', demonstrando seu lado afável, sentimental. Por outro lado há a Nação, conceito artificial criado pelo Iluminismo, que tenta encontrar identidade em questões subjetivas e que serviu e continua servindo de motivação para o ódio e para a guerra ao redor do Planeta.

A prova maior de que os bascos não querem o fim da pátria é que o ETA, o grupo terrorista mais famoso que tenta pela força conseguir a independência, tem em sua sigla algo como 'Pátria Basca e Liberdade'. Por meio do terror, o grupo extremista nunca conseguiria tanta projeção quanto o clube de Bilbao alcançou em sua causa. Com um futebol envolvente que levou o  Athletic até a final também na Liga Europa, o elenco treinado por Marcelo Bielsa pôs em debate as questões que afligem o povo basco há séculos. E, quando observado o adversário do time Alvirrubro na final da Copa do Rei, a questão do nacionalismo espanhol é atingida de maneira mais voraz ainda.

O Barcelona, o time mais encantador do futebol atual, é o outro candidato ao título que esteve em campo em Madrid na sexta-feira. O catalão Barcelona, também envolvido por um espírito de identidade local, engrandece mais ainda a luta pela a revisão das fronteiras e a incandesce uma batalha mais abrangente: a extinção da visão nacionalista anacrônica na Era dos Arquivos MP3, na qual é cada vez mais fácil o fluxo de capital, de ideias e de pessoas. O sentimento de pertencimento é cada vez mais individual, menos subjugado à interesses alheios à vontade comunitária. O controle das massas se torna cada vez mais complicado.

Somados o anacronismo de uma monarquia e o enfraquecimento da economia europeia, é finalizada a obra-prima que foi o último episódio da temporada europeia de futebol. Um quadro real, mais iconoclasta do que todos os pintados por De La Corix. Ali, durante aqueles noventa minutos, celebrou-se o primeiro passo rumo a uma revisão de conceitos vazios, de ideias ocas. A final da Copa do Rei era tão representativa que gerou uma disputa política na confederação espanhola de futebol. Os finalistas sabiam o quão pulsante era aquele instante para a cultura basca e catalã e usaram de todos os seus poderes para jogar na capital da Espanha.

Obviamente o Barcelona não possui pouca influência no Planeta Bola. Maior campeão dos últimos anos, time festeja um novo estilo do jogo baseado no toque de bola, equipe que tem o melhor jogador da atualidade... todos predicados do maior clube do princípio do Século XXI. Foi por isso que o último jogo da competição eliminatória mais importante do reino de Juan Carlos lá aconteceu. Contudo, houve muita resistência para tal. O Real Madrid, eliminado pelo Barça antes de chegar à decisão, não aceitou que seu estádio fosse sede da cerimônia de libertação que aquela partida representava. Entretanto, nenhuma das pressões políticas foi capaz de silenciar a tomada da capital. Não dessa vez.

O jogo? 3 a 0 para o Barcelona, em uma apresentação invisível de Messi e grandiosa de Xavi e Iniesta. Pouco importa. O esporte foi veículo para a difusão de um brado estrangulado. Sem sangue, sem morte, a exposição das ideias só feriu àqueles presos ao velho Mapa Mundi. Na comunhão entre jogadores e torcedores que aconteceu no fim do jogo, foi registrado na História o marco inicial de novos tempos; quando fronteiras não impedirão o pensamento, quando governos não mais serão sinônimos de opressão lá estará também o futebol, para continuar sublimando e apaixonando seus fãs indecorosos.

Por Helcio Herbert Neto.