sexta-feira, 25 de abril de 2014

A morte do século XX


A morte de Gabriel García Márquez representa mais que uma perda inestimável para a literatura, mais que a tristeza dos que se apaixonaram pela sua narrativa única, e representa mais também que esse momento de reflexão global sobre a qualidade e a relevância de sua obra. A morte de Gabo é, para mim, o último e derradeiro golpe sobre o século XX. É a morte desses cem anos, não de solidão, mas de ‘utopia e barbárie’.

Treze anos e quatro meses se passaram desde essa simbólica, porém necessária virada de página. Muita coisa aconteceu, uma nova História está em curso, mas o século XX seguia esticando seus tentáculos sobre o XXI – e é perfeitamente normal que acontecesse. O imaginário do século XX - suas tragédias e glórias, seus protagonistas e, acima de tudo, sua narrativa – está entranhado em nós, mesmo nos que, como eu, já nasceram nos acréscimos.

A ideia de passado como agente implacável do presente e do futuro nos remete, de imediato, ao próprio século XX. Ainda que de forma um pouco equivocada, tendemos a interpretar que a humanidade caminhava num determinado ritmo até o fim do século XIX e que, a partir do século XX, esse ritmo se intensificou exponencialmente. É como se o mundo, tal como conhecemos hoje, tivesse sido construído praticamente todo no último século.

E é compreensível que se enxergue assim. Rádio, TV, Cinema, celulares, times de futebol, Rock, Samba, carros e Internet são, basicamente, filhos do século XX. Assim como as duas Guerras Mundiais, o Holocausto, o Socialismo, o American Dream, o homem na Lua, a luta pelos negros, a luta pelas mulheres, a luta pelos gays e um monte de outras lutas.

Para todos fica muito mais fácil compreender o impacto do fim da União Soviética do que o da Revolução Francesa; da Ditadura do que o da Colonização. E, uns mais outros menos, os personagens estavam aí, quase para serem tocados. Alguns entre nossos vivos viram Hitler, Stalin, Luther King, uma bomba atômica sumir com uma cidade e também Woodstock. Muitos deles acompanharam as sanguinolentas ditaduras na América Latina, a angústia de um mundo dividido no meio pela Guerra Fria, e também os Beatles. E todos nós presenciamos, num intervalo de menos de três anos, Osama Bin Laden, Hugo Chávez e Nelson Mandela deixarem de ser de carne e osso para existirem somente na memória coletiva, nas páginas dos livros e nas efemérides do Jornalismo com o passar dos anos. Fidel Castro está frágil, já não governa e nem aparece em público. É significativo demais para ser ignorado, ainda que seja natural.

Como o próprio García Márquez gostava de dizer, “as histórias nunca são como elas realmente aconteceram, e sim como elas são lembradas e contadas depois”. E foram muitas histórias magistralmente contadas durante e sobre o século XX. Basicamente todos esses – cada um a seu modo – que eternizaram o Zeitgeist desses 100 anos em páginas, nos deixaram. A Geração Beat, Lorca, Cortázar, Hesse, Kafka, Faulkner, Hemingway, Borges, Drummond, Agatha Christie, Neruda, Fitzgerald, Nelson Rodrigues, Orwell, Joyce, Fante, Bukowski, há pouco Saramago e agora García Márquez (que me perdoem os demais).

Acredito que não existe morte na Literatura, pois as palavras escritas e lidas se tornam eternas. Dois dos melhores romances da história – Cem Anos de Solidão e O Amor nos Tempos do Cólera – são imortais. Mas Gabo era humano. Assim como todos os heróis e vilões, que não foram poucos nesses cem anos que mais parecem mil.



Por Beto Passeri.




domingo, 20 de abril de 2014

Dois camaradas e uma bola improvisada

      Uma tarde na Marina Hemingway que mudaria a história.  (Reprodução/site do Governo Cubano)

Quando cocei os olhos, já era fim de tarde. Ambos estavam ali, na minha frente, alcoolizados – embora as doutrinas que nortearam as vidas dos dois não dessem espaço para essas idiossincrasias. Do lado esquerdo da mesa, como deveria ser, os garotos da Ação Libertadora Nacional se divertiam com o encontro inusitado. No canto oposto, os homens da Mesquita Muçulmana do Harlem espreitavam o movimento convulsivo das ruas, típico dos trópicos. Só para garantir, todos já empunhavam suas armas. Disfarçadamente.

A Operação Bandeirantes falhou. Enquanto estuprava mais uma militante política, o Delegado Fleury teve uma parada cardíaca. Talvez estafado pela impotência sexual. Talvez pelas infindáveis trincheiras de cocaína que passavam pelo seu nariz. Com o contratempo, o ex-Deputado Federal Carlos Marighella teve tempo para sair do país e articular a resistência. Aceitou a proposta da pequena ilha que mudou o continente em um certo dia 8 de outubro.

Não era só nas veias abertas da América Latina que o vermelho começava a pulsar mais forte. O preconceito e a desigualdade despertaram um movimento de indignação sob as sombras da Estátua da Liberdade. Malcolm X entendia. Incorporou os suplícios dos guetos ao seu credo na redenção do homem negro, e a “Mensagem às Bases” é a representação disso. Introito fortuito ao Movimento Black Power, que seria desencadeado pouco depois.

O Hotel Theresa, no Harlem, abrigou a comitiva cubana durante uma convenção em Nova Iorque, em 1960. Era o começo de um relacionamento entre os líderes do bairro pobre e os companheiros de Havana. A parceria culminou na presença do líder religioso em Cuba, após um convite de Fidel Castro. Desde quando os ataques contra Malcolm ficaram mais intensos, ele decidiu viajar pelo mundo para fomentar o projeto terceiro-mundista.

A independência dos subdesenvolvidos era sua meta, bem como a difusão do Islamismo pelo planeta. Apesar de estar mais inclinado para o pacifismo, Malcolm reconhecia a força que aquele país representava para o fim da desigualdade. Ignorou a Guerra Fria e os confrontos com o calor que ia viver e ali estava, rodeado de políticos cubanos e de um mulato que experimentava os charutos e runs locais.

A tonalidade da pele talvez fosse a principal semelhança entre eles. Malcolm mais escuro, Marighella mais claro. De resto, só a política os aproximava. Mas foi uma tarde inteira de debate (mentira, um terço de debate e os outros dois de pronunciamento do comandante barbudo). Não havia mais o que falar sobre a geopolítica da desigualdade, dos ventos de mudança e do imperialismo extrativista. Daí a dificuldade que o baiano do antigo PCB enfrentava para se aproximar dos norte-americanos insurgentes.

Pensou em música, mas não conhecia tanto de jazz. Tampouco o muçulmano devia conhecer marchinhas. Não sabia até onde seria desrespeitoso tratar de mulheres, já que o Islã prevê ortodoxia na convivência entre os sexos. Uma pena, porque as mulheres brasileiras, cubanas e norte-americanas tinham em comum a beleza miscigenada do Novo Continente. Foi quando pensou no fervor das massas e na alegria da vitória. Não teria erro.

 – Você gosta de futebol? (em inglês arranhado, ainda que com a ajuda de um dos universitários que compunham o grupo da ALN).

A pergunta gerou o interesse do negro calejado pelo racismo. Gostava sim, muito. Do futebol americano. Estávamos no fim dos anos 1960, portanto uns cinco anos antes da chegada de Pelé aos EUA, para jogar no Cosmos. Ninguém sabia do nosso jogo por lá.

Malcolm respondeu que sim, citou meia dúzia de nomes de times e mais uma dezena de jogadores do esporte. Nesse momento, o desinteressado era Marighella, que não decodificava nada que saia da boca de seu interlocutor. Fingiu entender, para não cortar o papo. Foi quando o islâmico falou de passar e fez um gesto com o braço, como a reposição de um goleiro. Não, aquilo não era o que Gérson fazia com maestria, já nos tempos de Flamengo. O baiano era rubro-negro e corintiano. Amava o calor do povo, por isso as escolhas. Toda essa confusão pouco importava para mim. De longe, eu estava me divertindo muito com tudo aquilo.

 – Não, não é assim – cortou Marighella, ríspido.

Levantou, roubou a tampa de uma das garrafas de rum da mesa e a pôs no chão. Insistiu, fez com que Malcolm levantasse. Chutou a bola improvisada e pediu para que o desengonçado camarada fizesse o mesmo. Eram companheiros de luta, também deveriam ser assim em campo. No restaurante, neste caso específico.

O movimento tirou a sisudez do negro barbado, que também lembrou de qualquer coisa da infância e fez o movimento com a perna. Enfim soube, por instantes, o que era a paixão daquela gente sofrida do sul, que vivia uma guerra injusta, também. Todos riram com a cena. Inclusive eu, no quarto, com a luz apagada. Ao virar de lado, vi as biografias de ambos na estante. Lamentei o encontro que o ocidente não foi digno de ver. Voltei a dormir, dessa vez sem sonhar.

Por Helcio Herbert Neto.                                                                          

quarta-feira, 26 de março de 2014

Legado?

(Ricardo Moraes/Reuters)

Copa do Mundo e Jogos Olímpicos de 2016 chegando e muito se fala a respeito das obras para as competições. Expressões como "legado", "entorno", "obras de mobilidade urbana" e etc., são repetidas exaustivamente pelos nossos cartolas e políticos que estão a frente dessas.

Mas o que estamos/vamos ver realmente?

Voltemos um pouco no tempo: Pan Americano de 2007. O estádio "olímpico" (mas para que possa ser utilizado nas olimpíadas precisaria de uma reforma) João Havelange foi construído às pressas, troca de engenheiro, muito dinheiro gasto e ,durante um bom tempo, estádio principal dos grandes clubes do rio, mas nunca aceito pelas torcidas. Pouco mais seis anos depois, interditado por risco de desabamento da cobertura. Resultado: Botafogo sem casa, estádio sem previsão de reabertura e população e comerciantes da região do ENTORNO prejudicados.
E o Engenhão não é o único caso de uma instalação do Pan que não será aproveitado: o velódromo, Maria Lenk, Deodoro e o próprio Maracanã, que passou por obras para o Pan, novamente agora para a Copa e pode ser que tenham que ser feitas novas melhorias para os Jogos Olímpicos.

E as promessas para a Copa? Cadê?
- "Não haverá um centavo de dinheiro público na construção dos estádios."
- "Construção de um trem bala RJ-SP."
(...)

Estou longe de ser uma das pessoas mais pessimistas que existe, mas está difícil acreditar que a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos deixarão frutos concretos para a cidade do Rio e para as outras que sediarão jogos da Copa, tendo esses casos em um passado recente. A farra dos políticos e seus amigos empreiteiros continuará a cada oportunidade de fazer uma reforma e colocar mais e mais dinheiro em suas contas bancárias. E enquanto isso, nós pagamos por isso e depois vemos, como no caso do Maracanã, um patrimônio púlbico, reformado com dinheiro público, cair no colo da empreiteira do amigo do nosso Governador.

E que (não) continue a farra...                                                                                       

Por Felipe Exaltação.                                                                 
                                                                                                         

segunda-feira, 24 de março de 2014

Laís Souza está tetraplégica, alguém tem que pagar por isso, e não é você



Esporte machuca. Alguns matam ou aleijam. É o caso do esqui. Michael Schumacher vegeta em Grenoble. Os defensores do tal "espírito esportivo" não contam isso para os jovens praticantes. Muito pelo contrário: o papo é sempre de superar, ir além dos limites, e todo aquele bla-bla-bla pra vender tênis e energético.

Nossa esquiadora Laís Souza está tetraplégica. Lesionou a terceira vértebra. Não mexe pernas nem braços. Treinava para participar dos jogos olímpicos de inverno quando caiu. O seguro pagou a operação e o tratamento. Mas não vai pagar mais nada. Porque o seguro de vida ou invalidez contratado pelo Comitê Olímpico Brasileiro, e pela Confederação Brasileira de Desportos na Neve, só cobre acidentes que aconteçam durante as competições, e não durante o treinamento.

Muita gente se recusa a aceitar o que aconteceu com Laís. A imprensa dá voltas sem fim para falar do caso. Compreensível. É uma jovem simpática e batalhadora. O pai é metalúrgico, a mãe trabalha em uma loja de sapatos. Mas reportagens falando da "rápida recuperação" de Laís, que ela já tem sensações nesse ou aquele pedaço do corpo, são um desserviço. Li um artigo que começa dizendo que ela já "come sozinha". Dá a impressão que ela leva o garfo à boca. Nada disso. Só quer dizer que ela já se alimenta pela boca, e não via sonda gástrica.

Esse discurso atrapalha Laís mais que ajuda. Pior ainda as pautas sobre tratamentos experimentais milagrosos. A realidade é: Laís não vai ser curada. Jamais voltará a andar ou mexer os braços. Viverá uma vida dificílima e limitadíssima, completamente dependente dos outros. Se daqui a 30 anos um gênio criar um tratamento capaz de reverter sua lesão, ótimo, mas não está no horizonte da ciência.

O que ajudará Laís é dinheiro, muito dinheiro. Agora o Comitê Olímpico Brasileiro  iniciou uma campanha pedindo auxílio financeiro para o futuro de Laís. Famosos apoiam, Luciano Huck, Rubinho etc. (divulgando, não sabemos se doando). O objetivo, explica a nota do COB, é "ajudá-la a se autofinanciar…. desde contratar um professor de inglês, como custear parte de uma bolsa de estudo em uma Universidade no Brasil, conseguir um coaching para prepará-la para dar palestras sobre suas experiências, até criar uma fundação ou instituto para a Laís. Da mesma forma, a campanha visa a compra de equipamentos para a mobilidade e o conforto da Laís, itens não previstos na cobertura dos seguros contratados pelo COB."

Em português claro: não vai ter grana do COB ou do poder público para as cadeiras de roda de Laís. Para as sondas, equipamentos, remédios, enfermeiros e acompanhantes. A previsão é ela continuar no hospital em Miami por mais uns três meses. Depois, se vire. Tem ideia quanto custa ser tetraplégico? Vou chutar baixo uns R$ 15 mil por mês, R$ 180 mil por ano. Laís tem 25 anos. Sua próxima década vai custar uns dois R$ 2 milhões de reais.

O  Comitê Olímpico está transferindo a responsabilidade para nós. O Brasil investe bilhões em estádios para Copa, e outros tantos bilhões para a Olimpíada do Rio em 2016, e deixa uma moça tetraplégica dependendo de vaquinhas na internet…

O COB tem obrigação de assumir Laís. Os patrocinadores do COB, como Bradesco, Nike, Correios, Skol e outros, têm obrigação de assumir Laís.  Os políticos do Brasil, que usam esses megaeventos esportivos para estimular o ufanismo babaca (e pingar uma grana para os empresários amigos), têm obrigação de assumir Laís. Alguém vendeu as maravilhas do esporte para Laís, alguém estimulou seu sonho olímpico. São esses que devem se responsabilizar por sua paralisia. Não você ou eu.


quinta-feira, 13 de março de 2014

Apetite pela destruição





Outro dia eu estava assistindo, como de costume, ao excelente Café Filosófico, que a TV Cultura exibe às 22h de todo domingo – e que tende a encerrar a angústia dominical de forma muito mais digna do que o fantásticos programas de variedade onde quem faz três gols canta.

Ontem o Flamengo não fez três gols. A torcida cantou, mas não só. Vaiou também.

Mas, voltando ao programa de palestras da Cultura, um psiquiatra falava do efeito da massa sobre o ethos. Dizia ele que uma pessoa que em hipótese alguma mataria outra pessoa, às vezes pode fazer isso de forma bárbara quando em grupo. Jovens que individualmente obedeceriam à maioria dos códigos morais que herdaram de suas famílias de repente se transformam em um grupo de sujeitos capazes de estuprar uma mulher ou matar um homossexual de porrada na noite da cidade. Estranho fenômeno.

No empate entre Flamengo e Bolívar, no Maracanã, a insatisfação começou a ser sentida ainda no primeiro tempo. Conheço o Maracanã há muito tempo, quase 25 anos, conheço muito bem a torcida do Flamengo. E, mesmo do sofá da minha sala, percebo quando o clima está tenso. E ontem estava, não sei por quê. Aos 30 da primeira etapa ouvi os primeiros agudos.

Aos trinta e tantos do segundo, quando a torcida já havia escancarado sua intenção de criticar o time com a última vogal em alto e bom som, olhei bem para o rosto do lateral esquerdo João Paulo, em close-up na TV. Ele tinha os olhos arregalados, a musculatura da face contraída. Falta na entrada da área, boa chance para o gol da virada. O repórter diz: “João Paulo tem treinado muito bem, acertado quase todas as faltas que bate no treino”. O cara bateu e isolou bisonhamente a bola. Respirou fundo, abaixou a cabeça e correu para recompor sua posição.

Antes que digam qualquer coisa, já vaiei e xinguei jogadores no. Ainda hoje xingo quando o sangue sobe a cabeça. Mas isso também acontece com pessoas muito próximas a mim e que eu amo muito. Xingar é paixão, faz parte e é perdoável. Mas vaiar, não vaio, nunca mais.  E hoje me sinto mal pelo Maurinho, pelo Cássio, pelo Jean, pelo Andrezinho, e por tantos outros. Pediria desculpas a eles, se pudesse fazer isso.

Comecei a acompanhar futebol de verdade no começo da década de 90 e nunca vi o Flamengo ganhar um título sequer jogando o fino da bola. Nunca. Vi esporádicas apresentações maravilhosas, sendo a mais recente delas os 4 a 0 no Botafogo, nas quartas da Copa do Brasil em 2013. Mas foi uma. Depois, jogou mal contra o Goiás, apesar de ter ganhado e, mesmo na final contra o Atlético, demorou 80 e tantos minutos para abrir o placar.

Foi assim também em 92, quando uma atuação memorável – 3 x 0 sobre o mesmo Botafogo, no jogo de ida da final – sacramentou um título que foi conquistado no suor por um time profundamente limitado (Charles Guerreiro e Piá faziam as laterais). Sempre foi assim: crise, bafo no quengo, futebol meio sofrível, de repente um dia alguém faz um gol incrível ou dá um pique de 70 metros por um desarme e a torcida vira uma chave, empurra o time e o Flamengo leva no vamo-que-vamo. Às vezes, sei lá por que cargas d’água, a torcida fica exigente, acha que é o Flamengo tem que ser a máquina do Zico de novo, ou cria a expectativa falsa de que o Muralha deveria ser o Andrade e assim por diante. Nesses caso, invariavelmente, o Flamengo afunda. Porque, evidentemente, a força que a torcida flamenguista tem para empurrar é quase a mesma que a força que ela emprega para ancorar o time no fundo. Física menos newtoniana do que quântica, mas o fato é que o bicho pega.  

No jogo da noite passada, talvez não houvesse jeito, mas tudo poderia ser diferente se os jogadores não sentissem, aos 30 do primeiro tempo, o bafo da insatisfação resfolegando na arquibancada. Foram 60 minutos jogando sob pressão intensa, o que resultou em falta de maturidade, na ânsia de resolver aquilo logo, o que causou as saídas desesperadas e deu os contra-ataques que o Bolívar aproveitou. O time é ruim? Claro que é. Todos são no futebol sul-americano atual, infelizmente. O time é muito pior que outros na Libertadores? Não, logo pode conquista-la. Mas só se jogar no limite de suas forças e tiver um Maracanã apoiando incondicionalmente ao lado. Só assim a coisa pode acontecer, como aconteceu nos grandes títulos que o clube levantou nas últimas duas décadas e meia.

O que isso tem a ver com o problema do comportamento em grupo que suspende as amarras éticas e morais e pode, no limite,  transformar vários sujeitos pacatos individualmente numa gangue de pusilânimes? Tudo.

Vaiemos o Blatter, a Dilma, o FHC, o Pato, que ganha zilhões para manter o saco de molho em água morna durante os jogos, vaiemos até o Carlos Eduardo, que ganha 550 mil mensais e sempre parece ter acabado de acordar. São pessoas calejadas pelo tamanho da responsabilidade que carregam e muito bem recompensadas por isso – o ônus e o bônus do poder. Vaiem o Real Madrid e o Bayern de Munique, que fizeram sua história recente em cima do aliciamento de jogadores de seus adversários, matando por asfixia os seus campeonatos locais. Vaiem o poderoso, o opressor.

Não vaiemos um jogador limitado de 25 anos de idade que joga o primeiro jogo internacional de sua carreira, e logo pelo Flamengo. Não arrasemos um time que conquistou um título nacional ganhando de todo o G4 do Brasileirão num ano em que pagamento de dívidas e crises de bastidores foram a pauta diária no clube. Não acreditemos no canto da sereia dos noticiários que fizeram alarde pelas contratações. Não nos iludamos: o time continua sendo ruim, mas tanto quanto os outros.  Não oprimir quem também é oprimido e usar a força do conjunto para a coragem e não para a covardia. Talvez seja mais produtivo.

É como tudo na vida. Com apoio, há alguma chance de um sujeito “limitado” se superar, realizar alguma coisa e ajudar a transformar a realidade ao seu redor. Sem apoio, mesmo um cara brilhante pode naufragar no oceano que é um auto-estima em baixa. É uma escolha: queremos destruir as coisas porque estamos muito putos e frustrados com o mundo e porque, estando em grupo, temos poder para isso? Ou preferimos trabalhar em colaboração para construir alguma coisa significante, ainda que isso aparentemente exija um sacrifício um pouco maior do próprio desejo e do ego?

A propósito, isso vale também para times de futebol.




Por Bruno Passeri.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Reze pelo Haiti.



Em 23 de janeiro de 1992, Corinthians e São Paulo faziam uma partida pela Copa São Paulo de Futebol Júnior no estádio do Nacional Atlético Clube, na capital paulista, quando um explosivo caseiro lançando de um lado a outro da arquibancada atingiu Rodrigo de Gasperi. Ele morreu quatro dias depois, vítima de seis traumatismos cranianos e uma lesão cerebral, aos 13 anos de idade. A opinião pública despertava definitivamente para aquilo que parecia um problema grave e crescente: a violência nos estádios de futebol.

Falar de violência nos estádios seria mais ou menos como falar da violência nos botequins e criar grupamentos especiais de polícia para bares. Ou da violência nas zonas de prostituição e criar unidades de polícia pacificadora da luz vermelha. Ou falar da violência nas favelas e criar uma unidade de políc, ops, essa já existe. A extrema violência não é um problema dos estádios, dos bares, das zonas, das favelas, embora tenda a ser mais aguda nesses lugares. Mas isso é só porque, ao contrário das ruas dos bairros nobres, cercadas de cancelas, seguranças particulares, câmeras de vigilância e toda a cordial atenção prestada pelo aparato estatal, são sonegados sistematicamente os mesmos cuidados à periferia e a todo e qualquer lugar frequentado por pobres pretos ou quase brancos quase pretos de tão pobres.

Ainda lembro do tom de espanto que permeava as matérias telejornalísticas no começo dos anos 90 pela violência urbana causada pelos cartéis na Colômbia. Na Colômbia, a coisa tava feia...

No mesmo ano em que Rodrigo de Gasperi morreu num estádio, dezenas de presos foram trucidados pelas tropas de choque do estado de São Paulo na Casa de Detenção do Carandiru. 




No ano seguinte, em junho e agosto de 1993, outras dezenas foram massacrados na Candelária e em Vigário Geral, no Rio de Janeiro.


A ressaca da Guerra Fria, da hiperinflação, das seguidas crises econômicas, do projeto liberal dos anos 70/80, apertou o cinto nas periferias e bateu forte na cabeça do terceiro mundo. E uma das heranças mais macabras dos regimes militares foi o empoderamento dos trogloditas que executavam o plano de repressão no dia-a-dia e dos muitos boçais que lutavam do lado oposto da trincheira. A maioria deles, dos dois lados, está no poder hoje.

São 22 anos entre a morte de Rodrigo de Gasperi e a morte de Márcio Barreto de Toledo, de 34 anos, torcedor do Santos espancado por um grupo de torcedores do São Paulo na Zona Leste depois do clássico do último domingo. “22 anos e a gente ainda não resolveu a questão da violência nos estádios”, ouvi na TV.

Um dia depois da morte do torcedor, a PM carioca matou de porrada um adolescente em Madureira. Ele não estava torcendo para ninguém, estava sem camisa andando de moto com um amigo. Talvez tenham se confundido, queriam matar outro e acabaram pegando o moleque errado.

São pobres também, os PMs que mataram o moleque.

Ontem, deram 50 tiros de fuzil num PM que dirigia um carro na periferia de Niterói. São pobres matando pobres, uma guerra deflagrada há décadas na periferia, e é ótimo que os pobres se matem uns aos outros. Sempre que um pobre acredita que outro pobre é quem o oprime, a alma de um milionário é encomendada ao Céu. Pobres se matando é algo que deve contribuir para reduzir a sensação de medo nas grandes cidades e, ao mesmo tempo, regular a superpopulação. Talvez um dia falte gente para gritar nos estádios, limpar latrinas e fazer a segurança particular das ruas dos bairros nobres. Mas aí sempre existirão bolivianos, angolanos e haitianos. E, quando eles começarem a ser muitos, mais cedo ou mais tarde acabarão se matando nas ruas das periferias. Ou nos estádios de futebol.

Imagina na Copa?

Sempre fui e continuo sendo a favor da Copa e da construção de estádios enormes, modernos e tudo mais. O Brasil é uma das cinco maiores economias mundiais e não acho justo enfiar o povo que mais joga e mais entende de futebol no mundo em galinheiros de concreto. Não é justo conceder financiamento para hotéis de luxo, portos, aeroportos, bancos, fazendas de gado e soja, e negar crédito para que se construa estádios para os brasileiros assistirem decentemente às partidas de futebol. Seria mais uma marca de péssima distribuição de renda. Apesar de que o preço dos ingressos praticado nos novos estádios deixa cada vez mais claro que não foi bem para eles que as reformas foram feitas. Em todo caso, acho difícil que morra sequer um passarinho dentro de um estádio durante a Copa do Mundo. Depois, não sei.






Pelo sim, pelo não, melhor acender uma vela. Pelo Haiti.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

E agora?

Paulo André conquistou cinco títulos pelo Timão
(Daniel Augusto Jr/Ag. Corinthians)

Paulo André foi embora. A ausência em campo será sensível. Era líder do time campeão do mundo em 2012, égide da solidez defensiva que transformou o Corinthians no clube mais regular e temido do país. Mais uma peça que se vai, após um ano de meio de insucessos. A coletividade que sobrepôs a tendência de alicerçar equipes em grandes craques fica no passado, nos pôsteres de Tóquio.

Nos bastidores, a falta que Paulo André fará é inexorável. Um articulador que mobilizou os jogadores de futebol para pedir melhorias para a classe fará muita falta. O curioso é a saída do zagueiro para a China logo após as ameaças de torcedores no CT corintiano e de uma tentativa de greve frustrada depois do episódio de violência.

Os atos liderados pelo Bom Senso chamaram a atenção da opinião pública para os buracos do futebol verde e amarelo (metaforicamente, mas também objetivamente). Foi o mais recente movimento esperançoso no esporte brasileiro de uma série de momentos que despertaram euforia nos torcedores.Sequência essa que começou logo após o anúncio da Fifa sobre o mundial, em 2007.

Tínhamos Forlán, Seedorf, Ronaldo e Neymar. Esperávamos por estádios e pelo mundo, que viria conhecer o Brasil na Copa do Mundo. Técnica, tática e emocionalmente, estávamos próximos do avanço. Houve a proposta de derrubar o monopólio da rede de comunicação que detém os direitos de exibição do futebol brasileiro.

Tudo isso já se foi. Optaram pela comodidade e pela inércia. Até as cotas de televisão do novo acordo com a velha emissora já se esvaíram nas mãos dos cartolas, fato que explica a falta de contratações na janela desse ano e, por conseguinte, a fragilidade dos clubes brasileiros para essa a temporada.

Ficou a incerteza sobre o futuro prometido por políticos e dirigentes esportivos. Quanto ao Bom Senso, o questionamento é ainda mais intenso. Seria a mobilização forte o bastante para prosseguir sem Paulo André?
                                                                                                 

Por Helcio Herbert Neto.