quinta-feira, 28 de julho de 2011

Meia-Noite em Santos


Esta crônica não tem muito a ver com o novo filme de Woody Allen, mas é preciso dizer que ontem meia-noite, quando soou o apito final entre Santos e Flamengo, eu tive a nítida sensação que regredi no tempo num mesmo local. Não vi as glamorosas ruas da Cidade Luz dos anos 20 como no filme. Eu vi o gramado que virava palco na Vila Belmiro dos anos 70. Não vi o jardim de Monet; vi futebol de Pelé e não acreditei.

Estava eu mergulhado numa partida absolutamente atemporal, típica de uma época onde jogo que saía menos de cinco gols era considerado amarrado. Onde o goleiro não tem reação, onde o zagueiro é isento de qualquer culpa, e o técnico “só” tem o mérito de não atrapalhar. Tudo está voltado para eles. Exclusivamente eles. Os gênios. Fica a impressão de que o camisa 1 não espalma porque não quer estragar uma pintura e de que o camisa 3 tira o pé porque está achando aquilo tudo divertido.

A mídia adora extrair confrontos pessoais de jogos importantes, como Adriano x Ronaldo, Cristiano Ronaldo x Messi e por aí vai. Só que nem sempre (leia-se raramente) eles vingam. Seja porque a expectativa foi tanta que não havia futebol que bastasse, seja porque só um deles se saiu bem, ou a retranca estragou a festa. Ontem não. Havia um estádio lotado e havia um campo com 22 jogadores, mas a realidade era um palco apagado com dois focos de luz em cima de dois atores magistrais que dialogavam o tempo inteiro proporcionando um espetáculo poucas vezes visto.

É verdade, tiveram gols de Borges, Deivid, Thiago Neves e pênalti perdido pelo Elano. Sem dúvida isso foi fundamental no desenho e no placar final da partida, mas deixo para os jornais. A mim só convém os dois. Neymar em noite de Pelé e Ronaldinho em noite de... Ronaldinho. É difícil dizer “a melhor partida da carreira do Neymar” – talvez seja -, mas é fácil afirmar que foi a melhor partida de Ronaldinho com a camisa do Flamengo.

Aos mais saudosistas que nunca consideraram a 10 de Zico bem entregue, que resistiram ao talento de Felipe e até mesmo à categoria de Pet, não dá mais. Mesmo que o Gaúcho não volte a fazer uma atuação como essa, a memória dessa partida estará tatuada em cada um que apreciou seu show ontem, digno dos áureos tempos de Barcelona que muitos julgavam não poder voltar.

A vitória foi um mero detalhe, assim como ser um Flamengo e Santos também o foi. Tinha vascaíno batendo palma de pé no bar para a superação do rival e, mais ainda, para a partida orgástica que acabara de assistir. Assim como imagino que tenha santista hoje desfilando com a camisa 11 hoje pelas ruas - meio receoso talvez sobre as consequências futuras de uma derrota em casa, mas convicto sobre a existência (talvez resistência) do futebol arte. Parabéns para os quatro. Flamengo e Santos, Ronaldinho e Neymar. Nós, amantes do bom futebol, agradecemos e ficamos com a certeza que vimos História. Obrigado!


Por Beto Passeri.

terça-feira, 19 de julho de 2011

As Três Paradas no Limbo



Eis que surgem sinais do mal da instantaneidade: os craques que fizemos se mostram longe das expectativas; os vilões, demonizados por suas incompetências, já não são tão ruins assim. É assim no espetáculo da sociedade, é assim no espetáculo do futebol. A proposta de renovação integral se mostra inviável, incondizente ao sonho do hexacampeonato mundial. Chega a hora de aprofundar-se no solo das críticas, visitar os humanos heróis do Limbo.

A Copa América expôs a infantilidade da Seleção de Mano Menezes. Foi breve o sonho de um Neymar com faculdades de Pelé, capaz de superar frustrações de gerações passadas e levar sua equipe ao topo do mundo. Na primeira competição oficial pela seleção nacional, ele e seus promissores companheiros de ataque evidenciaram uma ansiedade adolescente e padeceram perante o Paraguai. Inviável creditar uma Copa do Mundo aos meninos do Santos e ao novo astro popstar Alexandre Pato.

Na Era do Marketing esportivo, das redes sociais, dos vídeos simultâneos, os grandes jogadores tornam-se deuses e os erros são como penas de morte. Modernizou-se tudo: a comunicação com a imprensa, os uniformes, a bola, os palcos. Somente os jogadores permaneceram humanos. Demasiado Humanos. O espetáculo criado em torno desses homens destrói a estabilidade psicológica. Cria zumbis; aqueles que seriam e nunca foram.

E, a partir de agora, o que veremos será a busca por esses degradados jogadores. Procura-se um homem que seja capaz de assumir a responsabilidade de ser o grande nome da Copa de 2014. Uma espécie de herói nacional, com a autoridade de recolocar o futebol nas prioridades nacionais, apesar de toda a negligência de Havelanges e Teixeiras. O técnico Mano Menezes vai visitar os grandes jogadores brasileiros da última década; todos em estado coma para o esporte.

A primeira parada, na Cidade Maravilhosa, prevê sorrisos e glamour. Ronaldinho Gaúcho, detentor do melhor futebol do novo milênio, anda deslumbrado com sua posição fora de campo. Mesmo longe da melhor forma, ele voltou a ser útil ao Flamengo neste primeiro quarto de campeonato brasileiro. As recorrentes reclamações das condições com as quais o Camisa Dez tem se apresentado para os treinamentos são o álibi do pensamento de Ronaldo. Os campos passam longe de ser a prioridade.

Outra parada será no coração econômico brasileiro. Na capital paulista, o técnico vai encontrar dores e incertezas. Adriano, entre polêmicas com a equipe médica do Corinthians e aparições públicas inesperadas, vai se recuperando da cirurgia no tendão. O Imperador é, de longe, o caso psicológico mais imprevisível. Também capaz de suprir a necessidade do ataque, Luís Fabiano segue em uma espera interminável para superar os problemas no joelho e estrear no São Paulo.

A última estação do Expresso Desespero encontra o maior prejuízo da história do futebol em Madrid. Kaká, a segunda maior contratação do time Branco da Espanha, ainda não foi capaz de apresentar um décimo de sua capacidade. A situação atual é tão complicada que deixa por terra a fortaleza da fé do Camisa 8 do Real. As contusões consecutivas desgastam a relação com a torcida do mais vencedor clube da Europa.

A prática da visita aos marginalizados não é incomum na cronologia dos times vencedores. Basta recordar: em 94, Parreira teve de recorrer ao desafeto Romário. Em 2002, Ronaldo e Rivaldo passavam por contusões e descrédito quando foram convocados. Os três foram imprescindíveis nas vitórias na Era pós-Pelé. O tetra e o penta vieram de jogadas oriundas dos pés de flagelados.

Os esquecidos e habilidosos Kaká, Ronaldinho, Adriano e Luís Fabiano voltarão a vestir a Camisa Verde e Amarela. Cercados pelo sentimento de ‘Saudade de tudo que ainda não vi’, os craques ainda têm muito que mostrar. Torçamos para que eles voltem e ressurjam das cinzas. Todos eles. Afinal, são esses casos geram idolatria. São nessas adversidades, nessas exceções que nos identificamos, que abraçamos as seleções nacionais. Daqueles que fizemos vilões, surgem ídolos. Mitos que contradizem o instantâneo de nosso tempo e se eternizam.


Por Helcio Herbert Neto.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Série Marginalizados: Uma Alma a vagar


Para ouvir ao som de: The Doors - The end.

Passos na sala. Já há tempos que tudo aconteceu, mas toda vez que entra a madrugada as lembranças voltam e eles se materializam ao seu lado. Quando de dia, consegue levar a vida, relembrar os momentos de sucesso, receber o afago daqueles que o viram exibir o seu futebol. Contudo, as vidas que se foram continuam tatuadas em sua pele.

No monótono engarrafamento da Ponte Rio-Niterói, um garoto afiava sua raiva. Morador de Niterói, o pequeno Edmundo fazia a travessia para se unir a outros tantos que tinham um sonho igual ao dele. Em São Cristóvão, no Campo do Vasco, o jovem atacante se misturava com a massa anômala de jovens que queriam viver de futebol.

Entretanto, nenhum deles tinha a ferocidade daquele rapaz vindo do outro lado da Baía de Guanabara. Por mais vontade que os outros meninos possuíssem, ninguém conseguiria se igualar ao atacante em campo. Enquanto todos corriam atrás da bola por prazer, Edmundo a perseguia por simples orgulho. Obviamente não demorou muito para que Edmundo se tornasse um jogador profissional.

Na chegada ao time principal, muitos tremeriam. Edmundo não. Ele simplesmente teve raiva. Uma tensão pistônica, quase irremediável, fez do escudo Vasco da Gama, de Queixadas e Dinamites, um símbolo provisório, quase invisível. Antes mesmo de se tornar um grande jogador, ele sumiu do Clube Cruzmaltino. O temperamento difícil e a habilidade inquestionável o levaram à buscar outra casa; começava uma peregrinação ansiosa e inquieta que nunca teria fim.

O velho sentimento provinciano que envolve o choque entre Rio e São Paulo era o estopim da insegurança. “Carioca, com uma lista de indisciplinas, quem é esse tal de Edmundo?”. Certo seria que a desconfiança seria a tônica do princípio da passagem do carioca pelo Palmeiras. E ninguém mais que o jogador saberia qual o antídoto para solucionar a descrença dos torcedores.

Ódio. Era essa a chave para levar o Palmeiras aos momentos de Glórias perdidas da década de setenta. Entre dúvidas e divididas, crises e polêmicas, o abstrato virou palpável: da promessa de jogador surge um indomável, incomparável e faminto animal silvestre. Em campo, tornou-se imprescindível para o antigo Palestra Itália de São Paulo. Foi o artífice dos campeonatos brasileiros de 1993 e 1994; com ele o verde da colônia italiana chegou ao topo.

Todavia, com tanta raiva, a vida se torna angustiante. Toda busca é vã, toda conquista é inglória. Novamente procurou por novas verdades em outros ares. Não obstante, não é sempre que a sorte sorri para aqueles que fogem dela. A inconseqüência e a falta de maturidade fizeram com que as noites do Animal nunca mais fossem as mesmas.

Veio ao maior rival do time que lhe abriu as portas; no centenário do Flamengo, Edmundo seria um dos astros. Ao lado de Romário e Sávio, era promessa de que os festejos do aniversário poderiam começar antes da hora. Contudo, entre choques de vaidade, noites movimentadas e discussões, aquele time pereceu. E o descontrole emocional daquele niteroiense foi um dos grandes motivos do fracasso.

Confuso e acuado, o Animal costumava percorrer os mais famosos pontos da noite carioca. Em busca de redenção e alívio, ele encontrava na madrugada uma companheira para seu bravio jeito de ser. Belos carros, mulheres e bebidas faziam com que ele esquecesse das responsabilidades e tarefas rotineiras dos mortais.

Foi quando em um desses lapsos de leviandade que sua vida mudou. Na noite glamurosa da Zona Sul, no dia dois de Dezembro, em um dos mais belos cenários cariocas, o atacante foi o protagonista de uma tragédia que envolveu seis pessoas. Após mais uma madrugada em seu universo próprio, de automóveis, dinheiro e amores, deu-se o fato: Edmundo bateu de carro na Lagoa Rodrigo de Freitas.

Atônito, não conseguia entender. Percebeu onde toda aquela raiva havia desaguado. Naqueles destroços e ferragens, via um pouco de si. Entretanto, sem dúvidas, o pior ainda estava por vir. Seu mundo caiu quando descobriu que três vidas haviam sido partidas por sua falta de discernimento. O acidente matou três pessoas e destruiu Edmundo.

Continuou a percorrer gramados do mundo, seguindo sua peregrinação. Foi grande, retribuiu o carinho dos vascaínos dando espetáculo no campeonato brasileiro de 1997 e levando a taça para São Januário. Contudo, de súbito, a torcida adversária costumava iniciar um coro para atordoar o craque. Vinha a alcunha que estigmatizava Edmundo: Assassino. E então, ele sucumbia, desaparecia em campo. A velha raiva incontrolável minguava e o animal virava dócil. Com a objetividade de um gato doméstico, ele perdia por completo sua eficiência.

E, cada vez mais, aquelas almas pesavam em suas costas. Correr com o peso de tantos desejos perdidos, tantas esperanças esvaídas era desumano. Toda vez que punha a cabeça no travesseiro, seja depois de um dia de treino, de jogo, ou de badalação, as lembranças retornavam. Toda vez que acordava estava mais fraco para combater o peso de enfrentar mais um dia.

Foi convocado sem ressalvas para a Copa de 98, embora emocionalmente abalado pelos anos anteriores. Durante a competição, foi apenas mais um. Compondo uma boa seleção, contentava-se em abrigar-se embaixo da cobertura do banco de reservas. Comemorava vitórias, aquecia a musculatura, treinava com os colegas. Mas tudo aquilo era pouco. Quem havia tido a oportunidade de ver aquele animal raivoso no princípio da carreira sabia que aquele era um simples vulto de tudo o que ele poderia ser.

Porém, mais uma oportunidade bateria-lhe a porta. Antes da final, a epilepsia de Ronaldo abrira uma vaga no time. Finalmente havia chegado sua vez? Tudo pronto para ser o maior, espantar fantasmas e angústias? Não. Subitamente, o técnico Zagallo escolhe pôr o camisa 9, apesar de seus problemas de saúde, no posto de titular. Como por interferência das vítimas do dia dois de dezembro, Edmundo foi mantido na reserva. Resignou-se com pouco tempo de jogo, um vice-campeonato mundial e a companhia etetrna daqueles que, por culpa dele, haviam partido.

Desde então desapareceu. Em mais dez anos de carreira, lutou para se manter erguido, combatendo. Vitórias, derrotas, dias e noites, o tempo passou e a distante maturidade chegou. No entanto, as lembranças nunca vão o deixar em paz. Será sempre uma sombra, uma alma a vagar. Naquele dia dois de dezembro, policias, médico e bombeiros erraram a conta. Na verdade, foram quatro as vítimas. Edmundo também partiu.

Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Ele não usa Black Tie


Joel Santana tem uma capacidade única de ser questionado. Apesar de seus números, de sua boa relação com os jogadores, ele sempre é envolvido por desconfiança e ceticismo. Quando chegou no Cruzeiro, há poucas semanas, ele foi recebido como um atestado de decadência do Time Azul de Belo Horizonte. " Joel Santana só dá certo em território carioca", diziam os defensores dos técnicos tipo Passeio-Completo.

Mas o bom velhinho já está acostumado com a imprensa dos trajes de gala. Sabia que a resposta, o antídoto para essa epidemia de descrença era trabalhar. Pé no chão e prancheta na mão. E aí está. O 'Efeito Joel' transformou um time marcado por uma eliminação´fatídica na Libertadores e por uma cotovelada cínica de seu antigo técnico.

Um bom jogo em São Januário e mais uma vitória consolidam o esperançoso futuro do novo time de Papai Joel. Um três a zero, com direito a ressurgimento da dupla Montillo e Roger, elucida as boas perspectivas do time que, no princípio do ano, era considerado o melhor do continente. O Vasco, atordoado, saiu cabisbaixo. Já conhecia a capacidade desse veterano técnico.

Não sou capaz de dizer se Joel será campeão nacional com o antigo Palestra Itália de Minas Gerais. Nem mesmo digo que ele conseguirá classificar o Cruzeiro para a próxima edição da Taça Libertadores da América. Acredito somente que ele pertence ao seleto grupo dos bons técnicos brasileiros. E a reação da mídia com o carioca é fruto somente de seus pouco ortodoxos métodos de tratar as pessoas.

Joel Santana não é professor. Não faz questão de ser tratado tal qual um catedrático, um Todo-Poderoso dos gramados. Isso já é algo para se espantar. Como um homem que alcança tantas vitórias na carreira, que possui tantos títulos no currículo, trata à todos com tanta simplicidade? Incompreensível para esses jornalistas que vêem no discurso de empresário a certeza de bons resultados.

As piadas, a descontração do ambiente de choque entre imprensa e comissão técnica, o liguajar popular e as roupas simples. Tudo contribui para a formação da imagem de um 'cafajeste'. Um típico cafajeste Rodriguiano, imprescindível para a existência desse esporte que nos apaixona a cada gol. E a imprensa continua contestando. E Joel continua vencendo.

É a típica dicotomia entre forma e conteúdo. Enquanto a preferência dos jornais, revistas, sites e mesas-redondas recai em cima dos meanagers com acordos maquiavélicos com o mercado de jogadores, de ternos e óculos importados e fala pomposa, Joel Santana segue com sua irreverência. O tênis surrado e a prancheta folclórica: a fórmula mágica de uma das maiores figuras do futebol atual.

Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Narcisismo


Me incomoda profundamente o discurso patriótico adotado pela imprensa esportiva (aqui estou toscamente generalizando) de que o futebol brasileiro é sempre melhor. Essa fala foi perpetuada ao longo dos anos, de cinco Copas do Mundo e de 14 títulos de Libertadores. Tudo bem, concordo que o Brasil é a maior potência do futebol mundial, o maior celeiro de craques e, como tal, merece todo respeito. Mas também há falhas no nosso futebol, sobretudo quando se trata de Libertadores, e isto ninguém quer apontar.

Isso é jornalisticamente condenável; para que estudos acerca do futebol se, no fim das contas, vamos todos “Galvanizar” e dizer que só o Brasil merece a vitória sempre? Eu nunca fui da turma que defende total imparcialidade, pois acho que isso sequer existe, mas há um limite – até para poder haver uma análise distanciada do que está acontecendo.

Eu já não sei se tal fenômeno é consequência da “preguiça” de se dizer outra coisa ou se é um apego (talvez até uma alienação) pelo mito do “futebol arte”. O fato é que já cheguei a ouvir até que “falta mais brasileiro no Barcelona para ser perfeito”. Que espécie de argumento é esse? Um dos maiores times da história do futebol, que joga o verdadeiro “futebol arte” e falta mais brasileiro por quê?

Ontem foi a vez do Peñarol ser colocado de lado: “Esse time do Peñarol só saber dar chutão e conta com uma bola espirrada para ganhar o jogo”. Ninguém chega numa final de Libertadores eliminando Internacional, Universidad Católica e Vélez – todos bons times – contando com bola espirrada; isso é falta de conhecimento. Passar o jogo inteiro dizendo que o Santos é muito superior tecnicamente é pobre, até porque não era o que se via em campo simultaneamente. Se o Santos conta com um Neymar pouco inspirado/bem marcado – como foi ontem – não é essa potência toda que os comentaristas gostam de exaltar.

Eu sou apaixonado pelo futebol brasileiro; acho que temos um jeito de jogar único e jogadores que dançam com a bola nos pés. Mas eu também sou apaixonado pelos outros estilos de jogo e acho que eles devem ser respeitados. Assim como penso que o Barcelona não precisa de mais brasileiro coisíssima nenhuma, também penso que o Peñarol não precisa aprender a pedalar para ser considerado um bom time. É o time com maior número de participações em Libertadores (38), um dos maiores campeões (5 vezes) e nunca jogou muito diferente de ontem. Simplesmente porque esse é o futebol uruguaio: raçudo, marcando forte, embolando o meio-de-campo e se aproveitando de bolas paradas. Isso é feio? É a anti-arte? Eu não vejo desta maneira.

É mais fácil mesmo perpetuar o discurso batido de que o futebol brasileiro é superior e,se perde, é por uma infelicidade. Pode ser que semana que vem, no Pacaembu, o Santos jogue o “futebol moleque” e seja campeão. Mas o que vi ontem foi a pegada do Peñarol dominando o jogo, ganhando todas as divididas (o que falta para o Brasil muitas vezes) e criando as melhores oportunidades. No Uruguai devem estar dizendo que o Santos deu sorte. Perspectivas...


Por Beto Passeri

domingo, 12 de junho de 2011

Série Marginalizados: O Soviete


Ao som de: The Internationale. The International Communist Party.

Cada época, cada período histórico possui uma alma. Chamada de Zeitgeist pelos alemães, ela sintetiza o conjunto de idéias que move pessoas a agirem, que explicam os movimentos dos homens que vivem nesse momento. Idéias que provocam guerras, disputas políticas, mas que, principalmente, mantém os homens vivos, lutando por seus anseios.

Poucos personagens possibilitam a compreensão do espírito de um tempo com tanta eficiência quanto Lev Ivanovich Yashin. Conhecido na Europa como Pantera Negra pela velocidade de seus reflexos e pela cor de seu uniforme, esse jogador tem capacidade ímpar de sintetizar História, Política e futebol.

Nascido na Rússia pouco mais de duas décadas após a ascensão dos bolcheviques, o garoto Yashin viveu o clima de esperança que a Europa Oriental. A queda da dinastia dos Czares era, para aquele povo, um sonho realizado. O Poder na mão da sofrida classe proletária era o combustível daquela gente para encarar a realidade dura daquele tempo, que contava com miséria, fome e uma violenta guerra civil.

Em 1939, esse combustível resultou na maior batalha que o Planeta já viu. Contra Hitler e seu nazi-fascismo, a União Soviética saiu como a grande vitoriosa da Segunda Grande Guerra. Milhões de pessoas foram mortas, cidades destruídas, vidas destroçadas. Apesar de tudo, a União de Repúblicas Frias ascendeu ao posto de potência mundial. O desespero com o sucesso soviético fez com que os Norte-americanos, coadjuvantes na Segunda Grande Guerra, atirassem a inovação atômica no Japão. Vidas transformadas em fótons por pura demonstração de poder.

Nesse contexto começa a vida esportiva do menino Lev. Trabalhador de uma fábrica ferramentas em plena Guerra Mundial, ele encontrou no esporte um oásis de alegria para um cotidiano gélido e difícil. Logo fez sua primeira defesa: agarrou a oportunidade de ser goleiro de hóquei de gelo. O frio era propício ao esporte e suas habilidades proporcionavam destaque em sua posição.

Um elogio que não pode deixar de ser feito aos países socialistas facilitou o desenvolvimento do jovem Yashin: a URSS aproximava o esporte do povo. Vislumbrando uma futura propaganda em espetáculos esportivos e a melhoria na qualidade de vida da população, o investimento era maciço na prática atlética. Inclusive no futebol, aquela que se consagraria, na segunda metade do Século XX, como a mais praticada ao redor do Globo.

Com isso, Yashin escapou um pouco do gelo e foi para a grama. Isso por apenas alguns meses, quando o rigoroso inverno russo não transformava os estádio de futebol em arenas de hóquei. Seu destino foi o clube Dínamo da Capital Comunista, onde residia o Chefe de Estado Josef Vissarionovich Stálin. Mas o sucesso não foi simultâneo.

Foram anos de reserva, de trabalho sem consagração, de esforço sem retribuição. Não obstante, o goleiro não se abateu. Como grande parte de sua população, encontrou no Marxismo-Stalinista um afago para o trabalho exaustivo, para a estafa cotidiana, para o vazio existencial. E foi assim que ele entrou para política, que lhe consagraria futuramente, diretor do partido comunista.

Entretanto, com o tempo seu talento foi valorizado e seu povo percebeu a jóia que possuía. Yashin começou a brilhar com a camisa de seu time e chegou a titularidade da meta da nação que polarizava o Mundo. Nessa altura, meio mundo era vermelho e a outra metade era capitalista. Era o estopim para o maior confronto geopolítico já visto.

Como a bomba nuclear já anunciara, os Estados Unidos não estavam dispostos a ficar para trás. Mas devido ao avanço das tecnologias, uma guerra direta esquentaria o planeta até sua explosão. Logo, deu-se uma Guerra Fria. Sem armamento bélico, a estratégia para a derrubar o adversário era a propaganda, e uma das armas mais poderosas eram personagens como Yashin.

E que propaganda. Yashin levava o nome de seu modelo político até as estrelas. Estampado na camisa negra do arqueiro, o emblema da URSS alcançou a admiração dos povos. Com ele, a seleção soviética de futebol foi campeã olímpica em Melbourne em 1956 e chegou a duas finais consecutivas do campeonato europeu de futebol, tendo conquistado o título de 1960. Era o modelo político igualitário do Aranha Negra, alcunha pela qual ficou famoso na América do Sul, no topo do Mundo.

Foram 22 anos de carreira e muitas glórias. Essas mais de duas décadas o consagraram como o maior goleiro do século XX. Contudo, ao pendurar as luvas, esse grande mito não abandonou seu ideal. Continuou na prática esportiva, utilizando-se de sua posição de ídolo para mobilizar novos jovens a praticar o esporte. Formado em Educação Física, continuou vivenciando, a cada dia, sua convicção.

A História, pela qual esse personagem passou tão marcantemente, foi grata ao Eterno Dono da Camisa Um dos Sovietes. Ele não viu a sua tão amada URRS desfalecer perante a globalização e ao capitalismo. Morreu aos 60 anos, após complicações vasculares que lhe levaram amputar a perna e a um derradeiro acidente vascular. O tempo, como forma de gratidão a tudo que o goleiro fez em vida, foi caridoso para com Lev Yashin. Poupo-lhe de ver sua ideologia perecer perante ao capitalismo e a globalização. Fim justo, uma vez que não há nada mais cruel que arrancar o ideal de um homem.

Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ronaldinho Gaúcho; 'Sim' e 'Não'


É notório que o Mundo é movido pelo 'Sim'. O que move o planeta,o que faz todas as pessoas lutarem pelos seu objetivos é a esperança de, em algum dia, em algum momento, receber uma resposta positiva. Contudo, não há nada mais afrodisíaco, mais estimulante do que um carregado 'Não'.

Parace contraditório. Entretanto, quanto mais frequente são as respostas negativas, mais preciosas são as afirmativas. Poucas são as pessoas que notam o quão valioso é ter uma negativa, o quanto ela dignifica e sublima uma eventual aprovação. Acredito que, no Mundo, as mulheres são aquelas que mais entendem esse significado.

Meus caros, nada é capaz de deixar uma mulher mais atraente do que um sonoro e contundente 'Não'. Somente quem já teve uma negativa feminina tem idéia do quanto pode ser excitante um rechaço. Aumenta as espectativas, gera mais transpiração para o alcance do objetivo. Ter no veto um degrau é uma virtude e um prazer.

Ronaldinho Gaúcho soube encontrar no féu de um nítido e sonoro 'Não', um futuro esperançoso, que pode resultar no mel do 'Sim'. Após a saída ao som de vaias da Copa do Brasil, o Camisa Dez e o Time da Gávea pareciam em cinzas. Mais um segundo semestre de preguiça, diziam os críticos. Assim como no Brasileiro de 2010, o time parecia longe da disputa. Entretanto o sinal vermelho tornou-se verde para o time do Homem de Dois Milhões de Reais.

Além da saída da competição nacional, outra frustração apareceu na vida do Ex-Melhor do Mundo. A Seleção de Mano Menezes para a Copa América saiu e o gaúcho não estava nela. Por mais que as atuações não inspirassem confiança, restava uma luz no fim do túnel. A luz era uma quimera; Ronaldinho não vestirá a Camisa Amarela tão cedo.

E foi quando prazer da superação se pôs aos pés do R10. O nada glamuroso palco de Macaé, uma noite fria, a primeira rodada do Brasileiro. Tudo para ser um daqueles jogos monótonos que a televisão insiste em transmitir. Entretanto, o Ronaldo das Cercanias da Velha República Juliana estava a fim de jogo, pronto para superar a fase ruim. Ronaldinho Brilhou, participou dos qautro gols da goleda do Flamengo.

Anos de distância do brilhantismo do Barcelona, quando foi o melhor jogador de uma década. Anos de negativa, caros leitores. E agora ele ameaça um retorno. Sob a dor dos tempos sombrios, Ronaldinho Gaúcho parece ir em busca da definitiva e efusiva resposta 'Sim' para o bom futebol. Seria o retorno do velho romance entre o Ex-Melhor do Mundo e o Futebol Arte?


Por Helcio Herbert Neto.