terça-feira, 9 de julho de 2013

The Queen needs you, Andy

Fonte: The Times

A leitura da vitória de Andy Murray em Wimbledon pode ir muito além da (re)conquista dos britânicos de seu "próprio território", digamos assim. É muito significativo que, após 77 anos aplaudindo outros jogadores erguendo o troféu mais tradicional do tênis, os ingleses tenham voltado a bater palmas para alguém "de casa", como já havia sido nas Olimpíadas do ano passado. 

E a primeira observação é sobre essas aspas quando digo "de casa", pois tanto as Olimpíadas quanto Wimbledon foram/são disputados em Londres, e Murray é escocês. Há, em todas os debates - e nas próprias entrevistas do jogador - a brincadeira de que 'ele é britânico quando ganha e escocês quando perde'. Minha experiência etílica-socio-cultural de dois meses em solo da Rainha, com londrinos e escoceses, me passa uma credibilidade mínima para afirmar que o fundo de verdade é maior do que a brincadeira nesse caso. 

Se fosse o contrário - Murray fosse inglês e os títulos fossem na Escócia -, não acho que haveria grandes problemas. Mas Londres (isso não se aplica a Inglaterra como um todo, de maneira alguma) é "The Heart", o coração do Império Britânico, é sério, educado, polido, espetacular. Ninguém diz, mas a Escócia é meio "primo farofeiro" (nos padrões londrinos, claro); o sotaque é estranho, soa meio caipira, eles gostam muito de festa, enchem a cara de uísque até não poder mais, dançam de saia na rua, enfim, fazem uma arruaça não muito britânica. Sinceramente, não conheço bem o Murray. Pelo que já observei, imagino até que ele seja um escocês mais inglês que a maioria, mas isso não muda muita coisa. As manchetes dos jornais, os outdoors, a conversa nos pubs, tudo exalta Andy Murray como herói , ídolo britânico. Não que esse seja o sentimento, mas é uma necessidade.

Uma necessidade de um povo com uma sina que resultou num complexo curioso: o de possuir a patente de inúmeros esportes e terminar, quase sempre, superado pelos outros (e, ainda pior, suas ex-colônias). Eles inventam, criam regras, apaixonam-se por aquilo e...perdem. Perdem para o Paquistão e para a Índia no críquete, perdem para a Nova Zelândia e para a África do Sul no rúgbi, perdem para os Estados Unidos no golfe e no beisebol, e para quase todo mundo no tênis e, pior, no esporte mais popular do planeta, o futebol. Ainda que o Campeonato Inglês seja o mais importante, que seus times sejam podres de ricos, organizados, que Londres seja a cidade com mais clubes e estádios de futebol, o fantasma está lá e incomoda muito: a Inglaterra, mãe do futebol, só ganhou uma Copa do Mundo em sua história, a de 66, jogando em casa e derrotando a Alemanha com um gol que é discutidíssimo até hoje.

Os britânicos e, sobretudo, os ingleses, sentem-se lesados. "A gente cria o esporte, leva até lá, ensina eles a jogarem e depois apanha?". É muito frustrante. Acrescente-se a isso a falta de grandes nomes, de heróis que ajudem a dimensionar, a significar uma geração, uma era no esporte. Como foi Pelé, Michael Jordan, Schumacher, o próprio Tiger Woods. Apostou-se muito em Hamilton, mas a Fórmula I está longe de arrancar suspiros tão apaixonados e, mesmo que assim fosse, Hamilton não é esse cara. 

Sobrou para Andy Murray, o pobre escocês eternamente semifinalista que não conseguia ultrapassar a linha do bom para o vencedor, do muito bom para o campeão. Mas Murray rompeu essa barreira - muito mais psicológica do que técnica - e fez isso justamente em Londres, duas vezes. Nada menos que em uma Olimpíada e em Wimbledon, o Grand Slam mais tradicional do mundo. O talentoso tenista escocês virou ídolo do esporte britânico. O jovem agora é Sir.

The Queen needs you, Andy.



Por Beto Passeri.








segunda-feira, 8 de julho de 2013

O Brasileirão está de volta. E o caminho dos cariocas não será florido...


Crônica sobre a sexta rodada do Campeonato Brasileiro de 2013. 


A Copa das Confederações foi legal, até muito mais do que eu esperava. Alguns bons jogos, times jogando à vera, torcida enchendo estádios e o impulso para os protestos renderam um saldo positivo à competição FIFA. Mas estamos de volta.  Acabou a fantasia e estamos de volta para o que realmente importa. A alucinação do verdadeiro boleiro não é a Sapucaí das estrelas internacionais da FIFA, mas suportar o dia-a-dia e delirar com coisas reais.

Reais não como o Madrid e os milhões e milhões em moeda brasileira investidos pelo Barcelona para levar o que de melhor tínhamos até antes de junho. Real como ter Nei ostentando a braçadeira e cabeceando contra o patrimônio, real como ter Wallace e González tentando cobrir um Leonardo Moura a cada dia mais pachorrento, real como o talento de Seedorf. Real.

A sexta rodada do Campeonato Brasileiro foi apenas a sexta rodada da competição, mas não só. Foi a primeira depois de longa paralisação e a penúltima antes do fechamento da famigerada janela de transferências, que pode reordenar o painel do campeonato. Times que capengam podem se acertar com uma ou duas boas contratações – o nível entre os concorrentes é equilibrado assim – e concorrer ao que antes não cogitavam; times bem estruturados podem ver o barco fazer água com petrodólares de toda parte do globo carregando seus principais jogadores. O campeonato muda de figura nessa época.

O Botafogo, líder incontestável,  apresenta o futebol mais consistente até aqui, mas vive um dilema. Perdeu alguns jogadores, um deles especialmente importante (Fellype Gabriel rumou para o Sharjah FC, dos E.A.U.), mas nada que comprometa o desempenho de maneira definitiva. Por enquanto. Pior seria perder Lodeiro, Jefferson, Dória ou o próprio Seedorf, que são efetivamente a base de sustentação do (bom) time montado por Oswaldo de Oliveira. O dilema do Botafogo é saber se torce para acertar mais vendas, oxigenar os cofres do clube e manter salários em dia, ou se torce para que ninguém apareça com a valise cheia de dólares para desfigurar seu time como aconteceu em 2012. Enquanto o lobo não vem, o time segue a toada de vitórias e desponta como candidato ao título até segunda ordem. Uma vitória sobre o Fluminense tem um peso muito grande nesse campeonato, em que pese a desastrada organização do evento em Pernambuco, que atraiu meia dúzia de gatos pingados e rendeu três mariolas num jogo entre dois dos melhores times do campeonato valendo a liderança. Como disse o próprio Oswaldo após o jogo, “não é todo mundo que vai ganhar do Fluminense nesse campeonato”. Não é mesmo. O Fluminense é menos time do que foi, por exemplo, em 2010 e 2012, mas ainda leva poucos gols, defende com muita firmeza, tem jogadores decisivos na frente e dificilmente perde. Se o vento da janela de transferências não sacudir a laranjeira, segue candidato ao título.

Flamengo e Vasco jogam a lanterna dos afogados no clássico do próximo domingo em Brasília depois de mais um final de semana preocupante. O Flamengo parece ter encontrado um mínimo padrão de jogo, a bola deixou de ser inimiga número 1 do time, que já consegue trocar alguns passes e construir algumas situações de perigo. Isso já é muito mais do que aconteceu nas primeiras quatro rodadas. Mas a limitação técnica, emocional e, em alguns casos, física da maioria de seus jogadores restringe drasticamente o campo de ações durante as partidas. O Coritiba, nos pés de um maestro fantástico como Alex, tão infinitamente superior à maioria dos colegas em ação no campeonato, precisou de dez minutos para empatar um jogo que nem parecia fazer questão de ganhar. Empatou e ficou com a vice-liderança. A ver quando dura o fôlego do capitão coxa-branca. Se Alex conseguir manter esse rendimento por pelo menos 28 ou 30 rodadas, dificilmente o Coritiba não permanecerá na primeira metade da tabela.
Em Caxias do Sul, o Vasco não levou o chocolate que o 5 x 3 aplicado pelo Inter anuncia. Uma bisonha cabeçada de Nei contra o patrimônio esfriou ainda mais o gelado ânimo da nau vascaína no começo do jogo. Depois, o Inter não foi brilhante. Aliás, o Inter não é brilhante. Muitas vezes, nem é tão competitivo. Tem muitos jogadores com síndrome de vaga-lume. Ontem, apesar do frio e da chuva, D’Alessandro e Forlán estavam inspirados. E, logo cedo, colocaram o fraquíssimo time do Vasco em seu lugar. Apesar de jamais ter vislumbrado a possibilidade do empate durante o jogo, o Vasco foi encontrando brechas frequentes no preguiçoso sistema defensivo colorado. A ponto de conseguir, com suas enormes limitações, enfiar três no molhado barbante do Estádio Centenário.
A expectativa do Flamengo é ganhar o clássico, encaixar duas, três ou até quatro contratações consistentes (Leandro Castán e Sheik, que estão na pauta, são bons investimentos), ganhar a queda de braço com o Consórcio Maracanã e esperar dias melhores. Com salários em dia, com o Maracanã, com três jogadores de bom nível, em forma e com espírito competitivo, o Flamengo já pode concorrer a um G4, por exemplo. A expectativa do Vasco é menor. Espera convencer Paulo Autori de que um pouco mais de sua inacreditável paciência valerá a pena, espera fechar acordos com seus maiores credores para desafogar o fluxo de caixa, pagar salários em dia e fechar contratos de patrocínio, espera também ganhar o clássico para motivar seu elenco, contratar uma ou duas peças razoáveis (sua capacidade de investimento, por ora, é menor do que a do arquirrival) e se manter sem maiores sobressaltos no meio da tabela até o final do campeonato. Para ambos os times, o mais importante é planejamento para 2014. Mas existe 2013, e é preciso passar por ele antes sem grandes sustos.

O campeonato mais encruado do mundo está de volta. Longo, árduo, imperfeito. Necessário.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Galos, Noites e Quintais


Belchior não poderia saber que Galo e Newell's duelariam hoje pelas semifinais da Libertadores.

"É briga de cachorro grande com supositório de pimenta", diria Washington "Apolinho" Rodrigues, lendário radialista carioca. Hoje, 03 de julho de 2013, às 21h50m, horário de Brasília, Atlético e Newell's Old Boys, da Argentina, abrem o duelo pela principal semifinal da edição deste ano. Será um Coloso del Parque lotado com 42 mil "leprosos" empurrando.

Ya se van abriendo las puertas
Nos encontramos otra vez
Mi corazón latiendo cada vez más fuerte
Un día más para alentar, para estar con vos
Llegan los pibes, las banderas
Todos los barrios estarán
Vuelvo a ver la cancha llena
La fiesta ya va a empezar
En la platea y en la popular
Todos los trapos colgados están
Cómo no sentirme así
Te llevo adentro del corazón
Vivo solo para vos
Si muero que sea de lepra
Si muero que sea de lepra
Cuando los once van saliendo
Ya no cabe la explicación
Bombo y tambor
El humo rojinegro y la mejor canción
Querido Newell’s la banda ya llegó
Todos los trapos colgados están
Cómo no sentirme así
Te llevo adentro del corazón
Vivo solo para vos
Si muero que sea de lepra
Si muero que sea de lepra

Semana que vem, provavelmente, as coisas se invertem e aí são os leprosos que vão sentir o bafo no cangote da massa atleticana no Horto, onde caiu, está morto. Dizem alguns que estes são os dois jogos mais importantes da história do Atlético. Não sei. No passado, um título brasileiro e mesmo um mineiro eram muito importantes para o torcedor, e o Galo o conquistou com brilho. Mas faz muito tempo, e muitos dos atleticanos que inventaram o inferno do Independência nem eram nascidos, então faz sentido a dimensão do jogo de agora.

O jogo em si, a gente sabe mais ou menos como vai ser. Vai ter pilha, bateria, rádio, chinelo, laser, papel higiênico em rolo e picado dentro de campo. Vai ter fumaça, bumbo, bandeira, faixa - entre elas aquela que diz "Si muero, que sea de lepra" e fica bem estendida no meio da arquibancada, de frente para o plano principal enquadrado pela TV. Arquibancada de cimento, pão com linguiça, cerveja e cigarro na plateia. 
Padrão FIFA não vai ter. Vai ter dedo na cara, mão na bunda, chute no tornozelo, eventualmente cusparada, falhas de arbitragem e milonga.

Libertadores é pornô.

Vai ter comentarista dizendo que o time brasileiro não pode cair na provocação. Vai ter outro dizendo que o futebol atleticano é moderno. Ninguém vai dizer que o Galo é retrô. Ninguém vai lembrar que era mais ou menos assim que o futebol brasileiro jogava, salvo a disparidade física, quando não havia torcedores do São Caetano rico, o Chelsea, entre os meninos brasileiros de 15 anos. Um jogo agudo, para dentro do gol, com bola rolando veloz no meio-campo (tiki-taka é coisa de outra gente, aqui nunca foi assim), ponteiros incisivos dos dois lados, um 10 à vera (que Ronaldinho sempre pode vir a ser) e um centroavante de referência.

O Newell’s joga bola, tem um time raçudo e experiente, identificado com as cores da camisa e um atacante com o selo do futebol argentino clássico, o enjoado Ignacio “Zlatan” Scocco (ele é a cara do Ibrahimovic), um pentelho que cai pelos dois lados do campo, parte para cima do marcador, cansa o beque, inferniza a defesa e sabe chutar.

O jogo de hoje tem tudo para ser anacrônico. Quem nunca viu seu time ganhar a Libertadores pode até dizer que é um torneio ultrapassado, que precisa ser revisto pelas normas internacionais, etc.. Mas reza baixinho embaixo do cobertor toda quarta à noite: “não permita, Deus, que eu morra, sem ter visto meu capitão levantar essa taça”.

Eu rezo para que nunca se uefachampionsleague-se a Libertadores. Eu quero ganhá-la de novo do jeito que ela é. O Mundial nem me importa.

“Eu era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais.
Como um galo quando havia, quando havia galos, noites e quintais”

Belchior, chorando suas saudades, não poderia imaginar que hoje teria rinha à moda antiga. Hoje tem.



Por Bruno Passeri.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

Em progresso


Com dois de Fred e um de Neymar, Brasil massacra a Espanha no Maracanã, conquista o título da Copa das Confederações 2013 e faz pensar.

Do discurso, é preciso saber quem enuncia, o que enuncia e, sobretudo, de onde enuncia. Identificar essas posições é vital para entrever as relações de poder que o compõem.

No futebol, a paixão clubística é de uma natureza totalmente diversa daquela que se nutre pelo selecionado nacional. A paixão pelo clube é deliberada porque cada um decide para que time torce, embora essa escolha não seja desembaraçada de mediações. Na minha família, por exemplo, uma escolha por não ser Flamengo representaria uma tomada de posição radical contra a tradição. "Eu sou Flamengo", portanto, é o discurso que eu enuncio a partir de minha posição social e formação familiar. Há diversas relações, inclusive de poder, implícitas nesse discurso. Mas esse é assunto para outra prosa.

Por ora, nos contentemos em apontar a diferença de natureza entre esta paixão pelo clube e aquela pela seleção nacional de futebol. A nação não é uma escolha. O homem pode estar mais ou menos afastado de suas origens, mas resta uma bandeira, um hino, uma História e, acima de tudo, uma língua - logo, uma estruturação cognitiva, uma forma particular e nomear e entender o mundo - compartilhada com outros tantos seres humanos, elementos que estampam sobre estes homens uma espécie de marca indelével. Discutir a formação histórica das nações e a questão da identidade nacional também é assunto para outras prosas.

No Brasil, o futebol é uma dimensão definitiva da vida pública. Entre outras coisas, somos o que jogamos. E a função histórica da Seleção Brasileira não pode ser desprezada. Não sei como a coisa se dá em outras praças, não conheço a fundo outros países para dizer e não pretendo estabelecer, por isso mesmo, qualquer tipo de comparação. Basta saber que é assim no Brasil.

De onde enuncio estas palavras agora, um estado de embriaguez pelo acontecido ontem, 30 de junho de 2013, no Maracanã, o raciocínio parece fazer sentido. 

Os cinco títulos mundiais da Seleção, referendação suprema de sua vocação futebolística, pontuaram momentos históricos cruciais da história moderna do país. O bi-campeonato 58-62, quando se instituiu um novo paradigma de jogo, pautado pela possibilidade do drible e do improviso, o avassalador triunfo de 70, em que se acrescentou à maturação daquele novo paradigma o advento do alto rendimento físico, o chorado tetracampeonato de 94, quando houve Romário, e o alegre penta em 2002, todos esses títulos encontraram ressonância em movimentos que se davam no âmago da sociedade brasileira.

Aqui, é preciso fazer uma digressão. 

Pensemos que um time de futebol é composto, basicamente, por jovens. Nos parâmetros do esporte de alto rendimento, o declínio fisico de um atleta de futebol se dá, em geral, a partir dos 30 anos de idade e mais acentuadamente a partir dos 35. Demograficamente pensando, porém, um sujeito de 30 anos é um jovem. A Seleção Brasileira que ofereceu o baile da noite passada tinha como jogador mais velho o goleiro Júlio César, com 33 anos de idade. A média de idade da equipe é de aproximadamente 26 anos. Jovens, portanto. Em 1958 e 1962, essas médias eram de mais ou menos 25 e 27 anos, respectivamente. Em 1970, a média era de pouco mais de 24 anos, enquanto em 94 e 2002, curiosamente, as médias foram idênticas: 26,2 anos de idade. Ou seja, no sentido do termo apropriado pela demografia, e não pela ciência esportiva, foram equipes formadas por jovens.

Como são jovens que compõem a maioria dos imensos cordões que ocupam as ruas e os espaços públicos há pelo menos três semanas no país. Toda seleção nacional, dessa forma, é uma pequeníssima amostra da juventude de um país. Salvo nosso grande goleiro atual, todos os demais jogadores do time que arrebentou a corda da viola na final da Copa das Confederações 2013 nasceram nas décadas de 80 e 90. Nesse sentido, é possível afirmar que jogadores da Seleção atual e jovens que atiçam o panorama político nacional fazem parte de um mesmo conjunto, foram criados no mesmo momento, sob condições históricas similares e sob o mesmo zeitgeist, ou espírito da época: são da mesma geração.

Como Pelé, Garrincha, Didi, Zagallo e seus companheiros nos dois primeiros títulos mundiais do Brasil, em 1958 e 1962, foram da mesma geração daqueles que cantavam, à base de frases de jazz e samba, goles de uísque e cachaça, roncos de motor automotivo e britadeiras e betoneiras, à sombra das curvas de arquitetos modernistas, um Brasil que vislumbrava uma candidatura ao desenvolvimento e ao progresso prometido lá pela metade do século XX. 

Como um amadurecido Pelé, Tostão, Jair, Rivelino, Gérson e outros foram da mesma geração que se entricheirava sob os porões, ou atrás das armas, ou dos palanques, ou na subserviência, ou atrás de seus salários, ou de Deus, ou da família, ou da tradição, ou da propriedade ou de um hologramático milagre econômico, gemendo, entre altos e baixos, um "Pra frente, Brasil" que se fundia com a harmonia do escrete amarelo. 

Como estavam condenados, pelo mesmo tribunal histórico, os filhos dos porões a perderem as lindas batalhas que insinuaram nas ruas e no gramado no início da década de 80. 

Como respiraram depois de três décadas de asfixia econômica, poítica, ideológica, social e de títulos mundiais no futebol de seleções, os nascidos nos 60 (salvo Gilmar, nascido em 59, e Cafu, que veio ao mundo em 70), através de um trabalho pragmático realizado dentro dos campos e nos escritórios e nas salas de estar de cada família. Era preciso ser assim, dizia o senso comum sobre a vida e sobre a Seleção: a dureza dos tempos recentemente passados nos ensinara dessa forma e o destino daquela geração estava marcado. Havia Romário e a taça veio, dura como vieram as notícias das décadas anteriores. Quebrando o protocolo FIFA, Dunga ergueu-a proferindo: "É nossa, caralho!". 

Depois, na torrente do discurso do progresso e da modernidade foram levados patrimônios nacionais, vendidos tesouros inestimáveis, a bandeira puiu, mercantilizaram-se Brasil e brasileiros nascidos na década de 70, cegados pela luz do ouro e, convulsionadas ao ritmo marcial de La Marsellaise, hino nacional francês, seleção e sociedade assistiram ao espetáculo de Zidane.

Em 2002, havia algo no ar. Qualquer coisa no espírito daquela época anunciava novos ventos. Um pouco da enxurrada de alguns anos antes estancara, poucas partículas se cristalizaram no fluxo da globalização, ou sei lá o quê. Tínhamos, então, alguma coisa a oferecer ao mundo, além de nossa própria resiliência a toda lama histórica? Do outro lado do mundo, chegavam imagens e sons de um grupo de jovens nascidos nas décadas de 70-80, capitaneados pelo líder brabo e carismático que era o Felipão, pagodeando entre japoneses e coreanos. Cafu ergueu a taça com um sorriso que, por si só, é um discurso complexo, e disse: "Regina, eu te amo". Poucos meses depois, com 52.793.364 votos, a maior marca da história da República, Luís Inácio da Silva, o Lula, pôs a faixa no peito.

Em 2006, coincidentemente de volta ao território europeu, metrópole e totem de nossa construção (inclusive no futebol, claro), fomos arrogantes. Estávamos ricos, pela primeira vez participávamos do mundo do consumo para valer. Comprávamos muito, vendíamos muito, o país estava em ebulição, subíamos a cada dia no ranking das maiores economias mundiais, tínhamos os maiores do mundo portando cordões de ouro em terras espanholas de fazer inveja aos portados pelos astros do basquete em terras ianques. "Iate em Botafogo, apartamento em Ipanema, uma vida de bacana, se eu entro assim pro esquema". Ou: "Desempregado, falido, andava pela rua largado e fodido. Achou na rua uma carteira recheada de dólar. Acabou-se a miséria, foi-se o tempo da esmola". Assim cantavam Marcelo D2 e Chorão, respectivamente, em "À procura da batida perfeita" e "Rubão", no começo do século XXI. Éramos todos assim, todos um Rubão à sua própria maneira. E nossos rubões, na Alemanha, pagaram caro para ver Zidane, de novo.

A ressaca estava braba em 2010. Tínhamos um repertório de brados na gaveta, tínhamos um capitão do "É nossa, caralho!" no comando da equipe, tínhamos uma ex-guerrilheira disputando o poder. Estávamos buscando as referências, revisitando o passado em busca de pistas sobre o que fazer dali em diante. Mas o time não encaixava, as referências não davam liga e, cheios de energia mas sem o ímpeto natural, demos murros nas pontas das facas e voltamos da África do Sul mais cedo do que gostaríamos, depois de fazer o máximo que era possível com o que estava disponível.

Agora temos milhões nas ruas e uma taça das Confederações na estante da CBF. Temos um time que deu liga, atropelou a quem de direito e reafirmou a hierarquia óbvia e quase esquecida da história do futebol. Temos uma torcida que reaprende a torcer em casa por uma seleção que volta para casa depois de muito tempo. Reaprende a ponto de formar, com quase oitenta mil corpos, um desfibrilador gigante capaz de reanimar o sagrado Maracanã, onde talvez nem a força da grana destrua as coisas belas e nem o peso do concreto novo soterre os velhos espíritos que o fazem ser a máquina potente que sempre foi. Nós também voltamos para casa depois de muito tempo. Houve uma diáspora. Estivemos na luta e na farra, estivemos fisica ou espiritualmente fora por um tempo. Aos poucos, estamos voltando. É só o começo. O processo é moroso. Há defasagem entre as pressões das ruas e os movimentos institucionais que atendem a essas pressões. Mas eles acontecem. 

A Seleção Brasileira não representa o povo e o povo não representa a Seleção. A Seleção não empurra o povo e nem o povo empurra a Seleção. Os dois se imbricam profunda e mutuamente num processo complexo e contínuo. São os mesmos jovens que compõem os dois, afinal. 

David Luiz nasceu em Diadema, São Paulo, em 1987. É zagueiro, atua no Chelsea, da Inglaterra. Com 26 anos, está no centro da média de idade da Seleção atual. É um jovem brasileiro que andou fora por um tempo e voltou a jogar em casa. Ao final da partida, na zona mista onde, segundo o padrão FIFA, os jogadores devem dar seus depoimentos aos jornalistas credenciados, seu discurso não foi polêmico, não foi vingativo, não foi de desabafo, não foi ideológico. Foi determinado: 

"(...) desde o começo, a gente entendeu o que tinha na mão, e entendeu que poderia demonstrar isso, mas somente unidos. A gente se uniu, tem um grupo muito consciente, a gente ainda não ganhou nada. Ganhou hoje um título importante que é especial, mas ainda estamos numa caminhada muito grande."

Marilena Chauí nasceu em Pindorama, São Paulo, em 1941. Tem 71 anos, é professora de filosofia da Universidade de São Paulo e um dos maiores nomes do estudo da história da filosofia no país. No eclodir da mobilização pelas ruas das cidades brasileiras, declarou:

“Não é momento histórico, é um instante politicamente importantíssimo, no qual a sociedade vem às ruas e manifesta sua vontade e sua opinião. Mas a ação política é efêmera, não tem força organizativa do ponto de vista social e política, não tem uma força de permanência, caráter dos movimentos sociais organizados, de presença organizada em todos os setores da vida democrática.”

Há algo em comum entre os dois discursos. Nada está ganho e, apesar dos efeitos expressivos do sacode no bicho-papão - em campo e nas ruas - muito trabalho ainda há pela frente. Muita determinação é necessária ainda para construir um momento histórico que garanta o hexacampeonato mundial. Ou será o contrário?



Por Bruno Passeri.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Me desculpem, companheiros

Foto: Fábio Motta, do Estadão.

Me desculpem, companheiros, mas eu nunca acreditei na gente. Me desculpem, mas nasci acreditando estar à sombra da vitória de uma geração sobre a Ditadura e também sobre Collor. Nasci quando milhões, enfim, respiraram aliviados; aprendi a andar, falar e pensar enquanto todos, enfim, puderam fechar os olhos para descansar depois de anos de sofrimento. Nasci quando Ayrton Senna, Romário e Guga expurgavam nossos fantasmas pela TV. Acho que larguei as fraldas no dia em que o grito galvanesco de "É TETRA!" nos libertava de uma inflação pavorosa. Acreditei, então, que a engrenagem já estivesse girando e que o Brasil fosse ser Brasil sozinho. 

Me desculpem, companheiros, mas não soube o que fazer com a minha rebeldia natural da adolescência. Lia revolução, e ouvia miscigenação num tom feliz nas aulas água com açúcar do colégio; lia teorias sociais e manifestos, e via futebol nos comerciais de todos os produtos; queria pensar, mas só me vinha samba e bunda na cabeça. Achei, e assumo a culpa, que a História não fizesse parte do meu mundo, e que as mudanças deviam ser feitas muito longe daqui, talvez em Cuba, talvez em Paris, não sei. Mesmo tendo lido o contrário, fizeram-me comprar que o povo brasileiro não tinha uma trajetória de lutas magníficas e que estava fadado à mediocridade. 

Caminhando comigo, minha geração começou a beber, e beber o que nenhuma outra deve ter bebido. Um hedonismo quase sem explicação. A angústia, a falta de respostas? Há séculos todos aturaram e superaram isso. A descrença, a ausência de perspectiva, a total resignação, isso sim nos deixava mal. Estar entre um passado esculpido em ouro pelos avós – as brincadeiras na rua, a inocência das crianças, a vida vivida – e um futuro caótico – o Grande Irmão, a tecnologia como alma, o fim do mundo; isso sim nos afundou e nos colocou, ainda que inconscientes, numa busca infinita e melancólica pelo prazer.

Quando tive maturidade e mais esclarecimento para perceber que o trem estava muito fora dos trilhos, me desculpem, companheiros, mas não tive forças para mover um dedo, mesmo apaixonado pelas grandes mudanças dos Romances e dos livros de História. Na real, é diferente. O egocentrismo dos líderes de movimentos estudantis me impôs distância. O preconceito com uma intelectualização desses movimentos me impôs distância. A visão de que as redes sociais tornam textos/correntes/ideais mais "moda" do que qualquer outra coisa me impôs distância. Virei as costas para a geração que compartilhava das mesmas angústias que eu. Não nos entendemos em nenhum ponto. 

Os protestos já haviam começado há dias e, como sempre, conquistaram a minha simpatia distanciada. Muito discreta, quase introspectiva. Ontem de manhã, no entanto, senti alguma coisa diferente quando comecei a acompanhar mais de perto as redes sociais, blogs e o frisson em alguns cantos da cidade. Estava com cheiro de coisa muito grande no ar. 

Eu havia bebido demais no domingo para, mais uma vez, esquecer minha dose de culpa no mundo, e acordei com uma ressaca infernal. Mesmo vacilante e com um certo nó na garganta, fiquei em casa. Acompanhei, de quatro horas da tarde às duas da manhã, todos os canais possíveis que cobriam e comentavam os movimentos pelo país - trancado no meu quarto, como aquele mais fanático dos torcedores que se esconde fingindo que nem se importa mais. E, por mais de uma vez, chorei. Não acreditei no que estava vendo, porque nunca acreditei em vocês. Um mar de gente (certamente muito mais que os 100 mil estimados) no Centro do Rio que eu jamais pensei que veria me fez chorar. A simbólica tomada do Congresso Nacional me fez chorar. As fotos espalhadas nas capas dos principais jornais do planeta me fez chorar. O entendimento, a sincronicidade e a força do movimento me fizeram chorar. Não sabia e nem saberei dizer se era orgulho por vocês, vergonha por mim, ou felicidade por nós. Acho que já não mais importa. Só me desculpem, companheiros, e deixem eu me unir a vocês. Chegou a hora.



Por Beto Passeri.








quinta-feira, 6 de junho de 2013

Uma carta entre dois velhos amigos



Maracanã, meu velho, amigo,

Tenho acompanhado o noticiário desde o início e, portanto, não faz muito sentido perguntar como tem passado. Lamentei desde o primeiro momento, mas não poderia imaginar que as coisas chegariam a esse ponto. Eu bem sei o quanto me toma por arrogante, mas dessa vez mesmo você deve me dar razão. Se não sou ainda centenário como meu nome, estou chegando lá e então me sinto à vontade para fazer agora o papel do senhor de idade que se põe a aconselhar os mais jovens.

Outro dia vi uma foto sua e não pude reconhecê-lo. O que fizeram de ti? Muitos dos nossos já passaram antes por processos de “modernização” (com o perdão da palavra), mas nenhum parece ter sofrido tanto. Não se tratou apenas de um rejuvenescimento, não foi só a ofensa de te colocarem essas desnecessárias cadeiras coloridas, foi bem mais do que um simples encolhimento. Não se contentaram em mudar sua aparência externa; mexeram por dentro, no âmago, no que te faz distinto de todos os demais – e te tornaram igual a outros tantos. O que fizeram contigo foi o que de pior pode acontecer a um estádio: tomaram sua alma.

Alma, meu caro amigo, é o que distingue poucos de nós em meio aos milhares de estádios que há por aí. E temos (ou tínhamos), você e eu, muito mais em comum além da alma. Foi aqui, em 1930, que, recém-nascido, vi a Celeste Olímpica vencer a primeira Copa do Mundo. E foi aí, 20 anos e uma Guerra Mundial depois e com você também recém-nascido, que El Negro Jefe, Schiaffino e Ghiggia foram buscar o outro Mundial de que se orgulha o Uruguay. Você pode até não gostar, pois te carimbaram esse tal Maracanazo para todo o sempre, mas isso nos tornava um tanto mais próximos. Tanto quanto o fato de sermos os palcos sagrados do futebol nas Américas – quem haverá de nos desmentir?

A verdade, velho Maraca (se me permite a intimidade), é que estou para te escrever há tempos e venho adiando a tarefa, mas não deu para resistir aos acontecimentos mais recentes.

Não sei se você sabe, mas estou em uma semana das mais agitadas, com jogos decisivos do campeonato nacional e um duelo do nosso selecionado contra a França. Nesses jogos todos, a rotina é a mesma de sempre: o povo se fez presente, cada torcedor fica (em pé ou sentado) no lugar que bem entende, bandeiras se agitam, faixas são penduradas, camisas tradicionais sobem para o gramado, ouve-se o alento das hinchadas de lado a lado, ofensas são proferidas sem muito critério, papéis picados se fazem atirar, vende-se café, choripans, churros e hamburguesas, Montevideo vive o futebol que nós dois tão bem conhecemos.

Gente de todo tipo dá as caras por aqui. Minhas velhas, históricas e desgastadas tribunas recebem o povo semana após semana.

POVO. Você ainda se lembra do significado dessa palavra?

Novamente fazendo uso da prerrogativa de um idoso de 83 anos que aconselha um ex-senhor de 63, te digo que é algo bem distinto dessa gente que te tomou de assalto de uns anos para cá. A verdade, meu bom amigo, é que te dilaceraram por completo apenas para que burocratas falassem em seu nome e pudessem cobrar os impropérios de agora (vi e me assustei com os preços dos ingressos). Não contentes com a extorsão praticada, ainda querem domesticar o público, submetendo quem te visita a absurdas cadeirinhas numeradas e querendo impor o jeito como se torce. Aliás, me recuso a chamar de “torcer” o que se tem feito por aí nesses tempos tão sombrios.

Por aqui, eu admito, as velhas arquibancadas que viram a primeira Copa andam precisando de reparos, as cicatrizes já se fazem notar além do aceitável e há evidentes sinais de cansaço. Não vou negar que alguns cuidados seriam bem-vindos, mas não pode ser nada como o que fizeram contigo. Porque, em que pesem todos os problemas que vêm com o tempo, ainda se vive a história do futebol nessa zona central da velha Montevideo. E minhas tribunas ainda se chamam Olimpica, Amsterdam, Colombes e Américas, bem ao contrário das suas, que agora atendem por letras e números que nada dizem.

O povo ainda pode, semana após semana, olhar para esta velha cancha e relembrar os grandes esquadrões que por aqui passaram. E minha estrutura não é feita apenas de cimento – que os oportunistas e deslumbrados que te mataram certamente chamariam de ultrapassado –, mas é composta de uma Copa do Mundo, centenas de títulos, incontáveis clássicos e muitas, inesquecíveis e dramáticas noites de Libertadores. Por aqui passaram – e continuarão passando – todos os grandes clubes do continente.

Meu conterrâneo Eduardo Galeano, que tanto te respeita, escreveu certa vez que eu “suspirava de nostalgia pelas glórias do futebol uruguayo” e que você “continuava chorando pela derrota de 1950”. Pois a primeira parte continua verdadeira – o saudosismo me precede –, mas te fizeram esquecer à força as memórias (boas e ruins) das últimas seis décadas. Não apenas te tomaram essas lembranças todas, mas afastaram de ti a gente que o fazia ser o mundialmente famoso Maracanã.

(Outro dia, velho amigo, escutei que se cogita uma candidatura do Uruguay para sede da Copa de 2030. Pois eu desejo que isso nunca aconteça. Não quero ter o mesmo destino que impuseram a ti.)

E sim, fiquei sabendo do vexame que você passou com o quase cancelamento do jogo entre o país que inventou o futebol e o que se diz “o país do futebol”. Sabe, meu velho, você vai me perdoar, mas isso até que viria a calhar. Porque um vendeu a alma faz tempo, afastando o povo das canchas, e o outro tem seguido pelo mesmo caminho, mas de um jeito muito mais vergonhoso. E eu sinceramente prefiro guardar de ti a imagem que adorna o Museo del Fútbol, aqui no meu interior: um Maracanã grandioso, repleto, popular, liberal ao extremo, sem imposições, malandramente carioca e com o espírito aberto para receber o povo…

O futebol, você vai me perdoar uma vez mais, continua a viver mesmo aqui no Uruguay – e, que eles não saibam disso, lá do outro lado do Río de La Plata…

Saludos,

Centenario de Montevideo


Por Beto Passeri

domingo, 2 de junho de 2013

Colunas do Partenon

Fred fez o primeiro gol na partida contra a Inglaterra que terminou em 2 a 2. (Ministério dos Esportes/Divulgação)

Como é obscuro ver heróis morrerem de overdose. Ídolos, que ocuparam um espaço áureo da memória, desmoronam, tornam-se vis. Normais. Claro que todo eldorado construído no passado não se esvai de um dia para outro. O fanatismo e a idolatria se transformam em uma opaca reverência protocolar, a mesma que os ateus prestam para com as igrejas ou que os cidadãos de uma democracia inoperante prestam para com seus membros do legislativo. 

Triste é ver um símbolo de redenção pretérito definhar em plena tarde de domingo, na estreia do ex-maior estádio do planeta. Atrás dos vidros transparentes dos estúdios de imprensa de uma arena que ocupa o lugar do antigo palco do povo, um antigo atleta e atual cartola e empresário debutava na tarefa de comentarista. Tendo como companheiros o também ex-jogador Casagrande e o quase ex-locutor Galvão Bueno, Ronaldo observaria e faria apontamentos sobre o Brasil e Inglaterra, que terminou empatado em 2 a 2. 

O atacante que ocupa o imaginário do Brasil com gols e jogadas de explosão agora concentra as atividades de empresário da Nin9  empresa de marketing esportivo que gerencia a carreira de alguns boleiros brasileiros , membro diretor do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo (COL) e, nas horas vagas, ainda é garoto propaganda de algumas das marcas que patrocinam a Seleção Brasileira. Não é para se esperar nada além de uma atitude neutra e imparcial nos seus comentários, como a rede Globo já devia saber.

Entre elogios exagerados a Neymar (que, por coincidência, é um dos agenciados pela Nin9), exaltação das cores da bandeira nacional e ufanismo, e, é claro, adoração aos "padrões Fifa" que puseram abaixo o velho Maraca, deixaram orfãos os atletas que treinavam no estádio Célio de Barros e no parque Aquático Julio de Lamare, bem como os estudantes da escola Friedenreich e os torcedores que tinham como paixão torcer junto ao seu time no templo do futebol carioca, o Fenômeno se mostrou fraco. Portador de uma característica baixa, pouco condizente com um ídolo: Ronaldo foi mesquinho. Abraçou a Copa e os interesses comerciais em detrimento da ética.

Para completar a náusea do momento, a transmissão ainda exibiu no intervalo imagens de um craque exuberante, amado pelos populares, símbolo de obstinação e abnegação... Em suma, fonte de saudade para todos que, envergonhados, viam aquela aparição descabida que teve ainda outros  pontos altos, como a declaração de que a seleção ia se dar bem na partida com um campo grande como o Maracanã (o estádio teve suas extensões reduzidas por determinação da Fifa e o cartola do COL não ficou sabendo?) e uma coincidência risível: enquanto, mais uma vez, ele falava das benesses das mudanças estruturais, Rooney arrancava com a bola e dava um chute no ângulo de Julio César e fazia o segundo gol inglês.

Olhar para Ronaldo hoje é como admirar as colunas do Partenon. Corroídas pelas chuva ácida destes anos sem deuses, pensadores ou batalhas homéricas, as vigas apenas lembram, de longe, o passado clássico de uma Grécia que não existe mais. Grécia esta que reflete um provável Brasil futuro que, tendo a oportunidade de sediar um grande evento esportivo, delegou à personalidades escusas o trabalho de organizar a festa e hoje agoniza em crise política, desemprego e profunda pobreza.



Por Helcio Herbert Neto