A temporada do futebol brasileiro chegou ao fim e todas as atenções se voltaram para o Mundial de Clubes, sob o qual se criou tanta expectativa ao longo do ano. O Santos abriu mão do campeonato nacional para se concentrar no maior desafio do clube nos últimos tempos. Vencer o irritantemente perfeito Barcelona e se consagrar campeão do mundo pela terceira vez – a primeira desde Pelé.
Desse cenário, surgem as mais variadas discussões e uma gama de personalidades que nelas se envolvem. E os debates, numa visão mais amplificada, não se apoiam em argumentos táticos ou em números, como os “futebólogos” de plantão gostam; quase sempre partem para um tópico que transcende – e até por isso nele se aplica tanto – o futebol: Nacional x Estrangeiro.
No discurso popular, não há um contraponto, como a antropologia gosta de fazer. Não existe balança. Há sempre uma espécie de consciência coletiva (nem tão consciente assim) que nos faz acreditar que somos sempre piores como sociedade. Nossa rica cultura de miscigenação é recalcada nesse grande cérebro coletivo para dar lugar a idolatraria do produto estrangeiro.
É lá fora que estão as grandes multinacionais, que se fabricam os grandes objetos de desejo, que existem hospitais de primeiro mundo e onde o povo é educado de verdade. E perpetua-se, assim, o discurso de inferioridade generalizado que só diminui o tom quando o assunto é esporte e, obviamente, futebol.
Sempre defendemos o futebol brasileiro com todas as forças, tivemos certeza que os melhores jogadores da história são nossos e batemos no peito para dizer que somos pentacampeões mundiais. Curioso é observar que, com a globalização e os recentes fracassos da seleção, surge um movimento de pessoas que aprecia outro tipo de jogo, que gosta de disciplina tática ou que simplesmente valoriza mais os campeonatos estrangeiros.
Do outro lado, porém, há uma horda de críticos a essa gente e que, cansados do referido discurso de inferioridade, exaltam a superioridade do futebol nacional custe o que custar.
Com Barcelona e Santos em evidência e prestes a fazerem o confronto mais aguardado do ano, surge uma série de argumentos soltos e inconcebíveis que me fazem vir aqui colocar as coisas na balança.
O time catalão é, indiscutivelmente, o melhor time do mundo. Dizer que “queria ver o Barcelona jogar o Brasileirão” não é argumento, pois eu também gostaria de ver o Santos ganhar o Espanhol com 96 pontos e só duas derrotas. Não torço pelo Barcelona, nem pelo Santos e também não acho, como muita gente, que seria um milagre a vitória do time de Neymar.
O meu medo é que essa vitória garanta o rótulo que tantos querem de “melhor futebol do mundo”. E não é. O Santos pode vencer o Barcelona por 3 a 0 no domingo e eu continuarei achando os espanhóis melhores. Essa partida não vale nada em termos críticos, “só” a taça de campeão mundial. Ou tem como dizer que o Inter de 2006 era melhor que o Barcelona?
Não existe essa diferença abissal como muitos colocam, mas há diferença. O time de Guardiola joga o mesmo futebol encantador há muito tempo. Raramente perde, dificilmente faz uma atuação ruim, termina o jogo sempre com mais de 60% de posse e ganha títulos atrás de títulos.
Não dá para dizer que, porque o Santos tem o futebol moleque de Neymar e Ganso, é superior. Não dá.
Futebol é futebol e um lance individual dos dois pode colocar o mundo aos pés dos meninos da Vila, mas vamos repensar essa história de melhor futebol do mundo. Nós revelamos muitos craques, mas podíamos revelar mais. Nós somos superiores em mundiais, mas poderíamos ser mais. Somos o maior país a ter o futebol como esporte número um, então somos “obrigados” a ser melhores nisso.
Ficamos tão traumatizados com o tal discurso coletivo de inferioridade que enchemos o nosso ego no mundo da bola como válvula de escape, até não poder mais. É preciso pensar. O que é o “melhor futebol”? E também, claro, o que é uma sociedade mais desenvolvida?
Por Beto Passeri.







