domingo, 20 de novembro de 2011

Aos Iluminados


Andamos por aí cometendo erros a toda hora. Os especialistas analisam de fora, sentenciam a imoralidade de nossos atos e determinam o fracasso de nossas jornadas. Como reflexo desse julgamento externo sucumbimos, sentimos o peso das palavras alheias. Contudo, o tempo passa. O caminho tortuoso mostra-se com destino certo, e a vitória vem. Na manhã seguinte, um mar de sorrisos hipócritas inunda a vizinhança, os que alardeavam o fim próximo aplaudem efusivamente a auto-determinação do vencedor.

Assim também é o percurso de Adriano. Diferentemente da carreira de Ronaldo, o Imperador não teve em limitações físicas suas barreiras. O atual Camisa 10 do Corinthians sempre padeceu de seu comportamento nada ortodoxo, por suas escolhas. Isso põe ele mais ainda sob os julgamentos dos especialistas na vida humana que comentam o futebol como profissão. Apesar de ter vivido inúmeros problemas em sua vida pessoal e ter passado por duas lesões consecutivas em um período pouco maior que um ano, vinham as críticas. Gordo, irresponsável, bandido.

E lá continuava Adriano. Unido aos seus companheiros, treinando, ouvindo. Parecia que finalmente, nesse momento, as profecias da moral iam se legitimar e o Imperador ia sucumbir, cair de joelhos. O Corinthians conseguia se manter na briga pelo título pela raça, pela vontade. Entretanto, faltava alguma coisa. Uma coisa que os Flamenguistas viveram em 2009 e que anda escassa por esses dias. Um sentimento que parte de uma figura única, que contraria as convenções e permanece humana apesar do mercado que abraça o futebol hoje em dia.

Errou quem pensou que essa luz capaz de sacramentar o Corinthians como campeão Brasileiro de 2011 viria da habilidade da mais cara contratação do futebol paulista nesse ano. Todavia, esse erro é comum. Os dirigentes do Flamengo também acreditavam que com a habilidade de um dos melhores jogadores da década conseguiriam montar um elenco campeão. Ledo engano. Pensar que o esporte das multidões é movido somente pela técnica é uma ignorância sem tamanho. O feixe luminoso capaz de iluminar o precário e instável universo corintiano vem das ações dos que erram e tem a dignidade de reescrever a história, dos que tem a bravura de não se abater; vem da personalidade de Adriano.

Ele que sempre esteve lá, que fez parte dos bastidores da tensa temporada no Parque São Jorge, que foi o mártir daquele grupo. Agora faltam dois jogos, duas batalhas, para abater o forte time do Vasco que ainda permanece na luta. Talvez a mais estável, essa equipe de São Januário foi a responsável por expurgar as trevas que pairavam por São Cristóvão há dez anos. Fácil? Não. E quem disse que o caminho fácil é o mais encantador?

Adriano, hoje, foi todos nós. Todos que insistem em viver, em errar e, por exaustão, acabam por vencer.


Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Quem leva o "caneco" ?



Corinthians, Vasco, Fluminense, Botafogo, Flamengo e até o Figueirense. Esses seis times chegam na reta final do campeonato com chances de conquistar o título.

O Corinthians, com um time bem montado por Tite, está na ponta, mas vem querendo a cada rodada entregar a liderança. Considerado por muitos um time sem estrelas, mas com elenco forte, o "Timão" depende muito do coletivo para triunfar.

O Vasco vem logo atrás; com um time experiente e com muita força no campeonato, o time de São Januário busca um título em homenagem ao treinador Ricardo Gomes (que sofreu um AVC) e para o
ex-massagista do clube, Pai Santana, que faleceu recentemente.

O atual campeão brasileiro parece que resolveu acordar para o campeonato e manter a taça em Laranjeiras. Com a melhor campanha do segundo turno e muito embalado, o tricolor carioca vem forte nessa disputa.

O Botafogo, dentre os postulantes ao título, parece o menos confiante, eu diria. O treinador não agrada a torcida, que volta e meia o chama de burro e pede sua saída. Mas com o, que eu considero, melhor meio campo do Brasil, liderado por Renato, que voltou para o Brasil esbanjando categoria, ainda tem chances.

O Flamengo começou bem o campeonato, seguiu invicto até quase o final do primeiro turno, depois passou dez jogos sem vencer. Em qualquer outro campeonato do mundo, o Flamengo não estaria brigando pelo título, mas como esse campeonato é tão parelho, o time de Ronaldinho Gaúcho ainda sonha com o Hepta.

Voltemos ao começo do campeonato, onde comentaristas e torcedores davam seus pitacos sobre o possível campeão. Nem o mais otimista dos torcedores do Figueirense apostava no título, o mais audacioso cogitava libertadores. E está aí. O Figueirense, comandado brilhantemente por
Jorginho, e jogando da mesma forma dentro e fora de casa, está sim na briga.

E em um campeonato em que o lanterna de vez em quando apronta pra cima dos líderes e um time que era citado como favorito ao título está brigando pra não cair (Cruzeiro), não seria nenhuma surpresa se o "caneco" acabasse na sala de troféus do Orlando Scarpelli.


Por Felipe Exaltação.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

Dividir para Conquistar


Nada mais propício para a criação de um ambiente amigável para a recepção de grandes espetáculos do esporte do que a fragmentação. Pelo menos é isso que demonstram as articulações de políticos e autoridades responsáveis por federações esportivas internacionais em relação ao cenário Brasileiro para a realização da Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Em uma guerra de vaidades entre governantes, FIFA, COI e cartões-postais, os Estados da União acabam por dificultar a realização de eventos capazes de distribuir de maneira mais equânime possível as benesses trazidas nessa empreitada. E o pior é que a população assimila esse roteiro de intrigas e já o toma como seu.

É bem verdade que, historicamente, o processo de intensificação do federalismo é marcado por sístoles e diástoles. Geralmente os momentos mais tensos têm como estopim a saída de um líder carismático e o surgimento de um hiato no imaginário do povo. Basta recordar da efervescência das aristocracias após a saída de Dom Pedro I, exigindo a posse de um Imperador pré-adolescente, que recém saído das fraldas, haveria de tomar conta de um império tropical. Ou mesmo após a saída do Segundo Pedro, a implementação de uma República e a sucessão entre São Paulo e Minas Gerais na Presidência, que trouxeram insatisfação a vários outros estados do país. A Solução veio do Rio Grande do Sul e culminou no Populismo Varguista.

Após uma linhagem de presidentes populares, vem o Golpe e a vontade de calar reclamações. Um federalismo sem-graça, que mais partia de uma precaução Militar do que de uma vontade regional, já que nessa época eram escassas as vontades que ainda estavam, literalmente, vivas. Depois vieram a Anistia, a Reabertura, as eleições. O discurso de representação regional ficou de lado, esquecido quando observado o panorama político. Entretanto, nas relações do dia-a-dia, as rivalidades permaneceram latentes, mesmo que pequenas brincadeiras.

O bravo Rio Grande do Sul, seu platinismo e o distanciamento do resto do país; As rixas entre os estados nordestinos; A cisão do Pará; Os arquirivais Rio e São Paulo. Temas recorrentes nas ruas, bares, escolas e jornaleiros que, muitas vezes, entram até no cenário futebolístico. O bairrismo clubístico é um exemplo disso. E é desse discurso que os organizadores das Olimpíadas e da Copa do Mundo se apóiam para deixar de lado os anseios populares e dominar essa organização. Como no Imperialismo Europeu na Ásia e África no século XIX: dividir para conquistar.

É evidente a euforia no Rio de Janeiro, basta notar a especulação imobiliária. A Cidade-sede da Olimpíada de 2016 gera inveja dos governantes dos outros estados ao sorrir como nos tempos da Velha Guanabara, apesar de seu Maracanã deflorado e de sua gente varrida como poeira pelas remoções. Também é notório o afastamento de Dilma em relação a Teixeira e à FIFA. Contudo, dissociar o Maior Palco Popular do Mundo da Seleção Verde e Amarela é um pecado imperdoável, tal qual repartir a África como Pizza e saborear seus diamantes na sobremesa.

Aproveitando-se da conjuntura, a CBF distribui os jogos para estados de Tucanos, rivais do PT, como resposta a falta de carinho da Presidenta. Assim, incentivou mais o choque entre os moradores de localidades diferentes do Brasil. Fazem parte da mesma estratégia o leilão pela partida de abertura e pelo centro de imprensa, e a criação de estádios que mais parecem discos voadores alienígenas em áreas com pouca expressão no cenário da bola. Juntam-se ao Circo as bajulações de prefeitos e governadores e uma suposta vitória no embate com a FIFA na questão da meia-entrada na Copa. Tudo politicagem barata que fomenta um amor cego ao estado esquecido há anos.

Quilometricamente distante dessas discussões está a luta pela chegada do desenvolvimento ao povo brasileiro por meio desses eventos esportivos que o país receberá. Longe do noticiário, abandonadas nos cantos de páginas, a varredura das favelas para a Zona Oeste, o esquecimento do esporte educacional e a manutenção do controle dos transportes nas mãos de um pequeno e ganancioso grupo de empresários que pouco se importa com a eficiência do serviço prestado parecem não ter importância. O necessário é saber quanto o rival do estado ao lado perdeu na distribuição de migalhas na porta da Igreja da FIFA: enquanto começa nossa briga tribal, enchem-se os bolsos do Comando Delta.


Por Helcio Herbert Neto.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Futebopatia: 24 horas



13 horas. Mal os olhos se abrem e a confirmação de que o domingo nasceu vem da mesma forma como em quase todas as outras vezes até onde sua memória alcança. A cabeça girando estática no travesseiro, a saliva – escassa- com o gosto putrefato de anteontem, e o sol perfurando a cortina para torrar a pele besuntada em óleo do semimorto em questão caracterizam uma ressaca que o faz lembrar que está bem vivo.

Se já não fosse uma espécie de hábito dominical, teria permanecido ali, imóvel, horas e horas, até morrer desidratado. Mas levantou rápido, esquivando-se das lambidas do cão incompreendido que não compreende as cicatrizes do álcool. Meteu a mão na maior garrafa de água que viu na geladeira e quase a terminou em uma talagada só enquanto se dirigia ao banheiro.

Ali era onde ocorria uma espécie de milagre da ressurreição: terminava sua água – quase benta -, ingeria um daqueles comprimidos salvadores, escovava duas ou três vezes os dentes e se enfiava numa ducha de água gelada que lhe lavava o fígado, ou melhor, a alma.

14 horas. Está novo de novo, vivo e mais faminto do que nunca. Esquenta rapidamente o almoço no micro-ondas e abre o jornal que tanto critica para criticar. O caderno de esportes fica como uma espécie de bandeja embaixo do prato, e a refeição segue vagarosamente sob ponderações e ressalvas às matérias e colunas impressas em papel velho.

15 horas. Ainda falta para o evento principal do dia, então ele liga o computador e vai caçar futebol aonde realmente gosta. Desbrava os portais de cima a baixo, revê o igual do jornal impresso, lê e comenta os blogs que segue, e quando se sente satisfeito de conteúdo esportivo, a comida está fazendo efeito, sua última ponta de dor de cabeça se esvai e já é hora de encontrar os amigos.

17 horas. Sob o álibi da ressaca e da distância, eles trocam o calor do Engenho de Dentro pelo conforto do bar perto de casa para assistir Flamengo e Cruzeiro. Opiniões divergentes na mesa temperam a discussão suculenta que vai sendo beliscada junto com a cerveja estúpida enquanto o Urubu engole a Raposa por 5 a 1.

19 horas. Já havia começado Fluminense e Inter quando o garçom, sob ordens, mudou o canal. Tudo fica mais fácil. A concentração na TV diminui, os goles e a conversa se intensificam, e o jogo, apesar de bom, pode terminar porque o empate é o melhor resultado.

21 horas. Do bar para a pelada sagrada de todo domingo. Ali os homens despem-se de suas profissões para se vestirem e se sentirem como jogadores que sempre sonharam ser. E enquanto os times são escolhidos, abandonam os bordões de suas respectivas carreiras para falarem uma só língua ao discutirem os resultados da rodada do Brasileirão.

23 horas. O banho não ameniza a adrenalina do futebol, e o sono, então, se torna difícil. Saturado de ouvir os comentaristas e sem saco para filmes ou seriados, ele liga o videogame e joga uma meia dúzia de partidas de futebol virtual antes de se render à cama.

00 às 9 horas. Sonha com o chutaço disparado na pelada, que bateu na trave, entrando, mas na comemoração a arquibancada fica enorme, torcedores gritam o seu nome e ele abraça companheiros com a camisa da seleção brasileira. Entre uma imagem e outra, palavras picadas que não fazem sentido algum, mas que serão úteis no dia seguinte.

13 horas. E foram. 24 horas de futebol, como em todos os domingos.



Por Beto Passeri.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Série Marginalizados: Fruto dos Rios de Euforia

Para ler ao som de: O Rappa - Papo de Surdo e Mudo

Sempre que cai a alvorada no bairro cumprem-se os dogmas do velho ritual pagão. Quando o Sol ousa repousar na encosta verde da Floresta da Tijuca, os bares recebem a gente da área, que, antes do último feixe luminoso, já inunda as ruas com bancos, cadeiras e alegrias. Dispostos a superar os problemas e a celebrar mais um dia que se vai, o povo encontra abrigo entre serras e rios, nessa terra onde paira o cheiro da madrugada.

Aldeia Campista. Interseção entre Vila Isabel, a Tijuca e o Andaraí, a região recebeu de braços abertos a família Dos Santos na chegada à Capital Federal. Vindos do interior do Maranhão, Dona Rosa e sua prole seguiram o fluxo dos nordestinos brasileiros. A fuga da seca, da fome e da sede traz os filhos do chão rachado ao Rio de Janeiro. Entretanto, um dos filhos dessa sofrida e batalhadora mulher teria o dom de brilhar nos gramados e espantar a dura miséria semi-árida nacional.

Era fim da década de Vinte e a Zona Norte não conseguia imaginar o fim de seu sofrimento. O filho de Dona Rosa via isso diariamente no trajeto que fazia até Bangu, onde jogava bola. O negro alto e forte não se destacava somente por seu porte. Uma habilidade incomum chamava atenção de quem assistia qualquer 5 minutos de seu futebol. Por mérito, chegou ao primeiro time do Bangu. Era adorado por seus companheiros de time, já que distribuía entre seus colegas os mais fáceis gols da história do Futebol Amador. Rapidamente, seu nome virou sinônimo de celebração.

Celebração no esporte, quando matava a bola no peito e a torcida vibrava com a iminência de uma bela jogada. Celebração na vida, quando erguia o copo e comemorava cada gol na noite carioca. Famoso freqüentador das abafadas e atraentes madrugadas do Rio, o nome de Fausto já era notável; tinha destaque nas manchetes dos periódicos esportivos e emanava das aguardentes nas esquinas do Subúrbio.

Com as longas e boêmias noites, Bangu ficava cada vez mais distante. A longa viagem começava a ser o álibi de atrasos e faltas. Largar a madrugada e dedicar-se plenamente a vida de atleta? Nunca. Buscar um clube que fosse mais próximo das redondezas do Rio Maracanã parecia uma alternativa mais plausível.

A camisa negra e a Cruz de Malta receberiam o meia que abandonara o clube alvi-rubro. Muito mais próximo da casa de Fausto, o Vasco seria sua nova residência futebolística. Sob a égide do nome do desbravador português, vieram títulos e a consagração popular. O filho do Maranhão caiu nos braços da torcida. Deleitou-se com a fama. Banhado pela euforia dos cruzmaltinos e pelo doce sabor da cevada, Fausto chegou à Seleção Brasileira.

Pouco tempo depois, chegava o primeiro Mundial de Futebol. O planeta suspirava só de pensar em ver todos os grandes jogadores da Terra se confrontando para decidir quem seria o Maior. Tendo como plano de fundo o misterioso e desconhecido universo das Copas do Mundo, a seleção brasileira desembarcava no Uruguai. E coube a Fausto ser o destaque do Brasil na Primeira Copa.

Um time desorganizado e inconseqüente. Uma equipe de homens que sentiram a pressão e que tremeu perante os adversários. Nada disso foi capaz de ofuscar as grandes apresentações de Fausto dos Santos. As atuações individuais do craque vascaíno fizeram com que a torcida e a crítica passassem a chamá-lo de ‘Maravilha Negra’. Apesar das grandes exibições do Meia, o time brasileiro sucumbiu frente aos gélidos iugoslavos. Somente o maravilhoso negro maranhense foi absolvido pelo povo.

Ao voltar para os bares da Aldeia Campista, um sentimento estranho tomou a vida do filho de Dona Rosa. Ser o único respeitado em toda uma lista de selecionados causou um sentimento de Solidão. Para celebrar o clamor popular por seu nome, entornava mais um copo. Para esquecer a eliminação e o desempenho pífio do seu time, tragava mais uma dose. O ritmo de Fausto se tornava cada vez mais alucinante.

Alucinante e estafante. Uma gripe interminável assustava Dona Rosa. Onde já se viu vida assim? Atleta deve esbanjar saúde, ter hábitos disciplinados. Mas Fausto era exatamente o avesso dessa imagem. Mais magro, pálido e festeiro, a Maravilha Negra andava abatida. Fugia de médicos com a mesma eficiência com que escapava dos marcadores. Ouvir um homem de branco era ter a confirmação de uma verdade que era muito menos dolorosa sob a forma de suposição.

As tosses e febres tiraram-no do Mundial de 34. Como que prevendo uma despedida derradeira, foi à Europa para varrer a miséria da vida de sua família. Chegou ao Barcelona com status de astro. E, realmente, emanou luz. Levou o time Azul-Grená a um Campeonato Catalão e apresentou às espanholas o valor da gente da terra do samba.

Encontrou muito nas noites européias. Mulheres, bebidas, glamour. Não obstante, a saudade foi mais forte do que todas as benesses da vida de jogador profissional. Sua família, seu bairro, seus amores e amigos. Tudo estava no Brasil. Após uma rápida passagem no futebol e na noite da Suíça, voltou aos incandescentes paralelepípedos do Norte da Guanabara.

No retorno, o habilidoso meio-campo encontrou portas fechadas no Vasco da Gama. Sem oportunidades no clube em que mais brilhou, teve de encontrar o afago no time Rubro-Negro da Zona Sul. Contudo, ele já não era o mesmo. Incapaz de jogar uma partida completa, os torcedores desconfiavam da abnegação de Fausto. Entretanto, a culpa não era de sua dedicação. A boa e velha gripe se intensificou, privando-lhe até mesmo das suas confidentes madrugadas. As cinzas das horas marcavam o futuro da Maravilha Negra.

Tuberculose. Não adiantou driblar por tanto tempo os médicos, o destino é impiedoso. Como golpe final e irremediável, foi levado para um manicômio no interior do Brasil. Terra de ares limpos, puros e sóbrios. Acompanhado por sua mulher, passou seus últimos dias distante do barulho de seu povo e do movimento de seu ambiente predileto: a Aldeia Campista. Em meio a loucos e enfermos, Fausto disse adeus ao futebol e à festa que pôs em prática nessa vida.

A Aldeia Campista desapareceu. Foi engolida pela expansão comercial da Tijuca. Ninguém mais conhece a região pelo antigo nome. Todavia, é só o Astro-Rei demonstrar o cansaço por mais um dia de luz que o povo das redondezas das terras de Fausto repete a centenária procissão. Aquelas esquinas, que recebem jovens e velhos, ricos e pobres, contam a história do homem que espantou o mundo e que um dia foi chamado de Maravilha Negra. Todos que por ali bebem e celebram a oportunidade de estar respirando, altivos, celebram também, inconscientemente, a vida de Fausto; o símbolo do espírito daquele lugar.


Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

A Verdade com palavras fáceis


Morreu hoje pela manhã talvez o último resquício do período clássico do futebol brasileiro. Luiz Mendes, o Comentarista da Palavra Fácil e da mais preciosa memória do esporte, foi vítima, aos 87 anos, de um câncer que já o abatia há tempos. Esse célebre radialista deixa saudades e lembranças preciosas para aqueles que tiveram a oportunidade de conviver com ele. Por uma efêmera manhã, este que vos fala teve a felicidade de estar com esse grande personagem. E, da boca de Luís Mendes, tive a chance única de obter a comprovação de uma verdade preciosa, que esvai-se ao longo do tempo.

Era uma manhã cinza de um sábado. Após uma longa noite fora de casa, em meio à noite da Zona Sul carioca, chego em casa já ao amanhecer. Poucas horas depois, um compromisso bate a porte. Havia me inscrito em um Fórum Jornalístico, como pude me esquecer? Ainda que relutante a abandonar o amável e aconchegante travesseiro, tomo a decisão de me levantar e ir, mesmo que atrasado, para o encontro. O evento contava com diversas figuras imponentes do jornalismo esportivo, dentre eles, Luiz Mendes. É, aquele velhinho, que aparecia de vez em quando na televisão.

Ao chegar no auditório, encontrei apenas um companheiro. Sim, eu havia chegado antes da própria produção das palestras. O prevenido amigo da fileira da frente mal entendeu minha dificuldade de ficar acordado naquela espera que parecia interminável. Aos poucos as outras pessoas iam chegando, acomodando-se nos assentos e comentando sobre as suas expectativas. Para mim, cada pessoa que chegava era como um eficiente despertador digital. Fui sendo acordado assim, com requintes de crueldade, até desistir, definitivamente, de cochilar.

Começa o evento. O apresentador agradece ao público pela presença, cumpre as cerimônias e evoca o primeiro palestrante. Seria exatamente Luiz Mendes o responsável por abrir o evento e manter-me acordado. O assunto foi acontecendo, como uma chuva de fim de tarde em um domingo. Rapidamente, compreendi a razão pela qual aquele homem era conhecido como o Comentarista da Palavra Fácil: a maneira como ele passava o universo de suas experiências era leve, divertido. Não havia mais sono. Apenas uma compenetração de quem tem a convicção de que está vivendo um momento único.

O tempo passou e o bate-papo, infelizmente, acabou. Sempre solicito, Luiz Mendes aguardou fora do auditório àqueles que desejavam tirar uma foto e guardar para posteridade esse momento inesquecível. E lá fui eu, sem câmera, mas com uma caneta, um papel e uma ideia na cabeça. Durante sua participação, ele declamou sua adoração pelo futebol de Garrincha e Zizinho. Foi nesse instante que eu percebi que poderia aproveitar a oportunidade para tirar uma dúvida.

Sempre fui contra essa idolatria maluca que culmina com a denominação de alguém de Rei. Para mim, a Humanidade já exorcizou a monarquia e todos seus poderes absolutos desde a Queda da Bastilha. Pelé era um grande nome do futebol, um personagem único, mas que nada havia feito pelo povo brasileiro para ter tal título de nobreza. Questionar a hegemonia de Pelé no Brasil é uma heresia tão grande quanto cuspir em uma imagem santa ou acreditar que existe alguma alternativa para o sistema econômico e social em que vivemos. Mas seria mesmo Pelé isso tudo?

Após uma sessão inesgotável de fotos, chega minha vez. Sob a desculpa de querer um autógrafo, me aproximei. Já após a assinatura, eu, um tanto exitante, perguntei se Zizinho era melhor que o Pelé. Ele me olhou desconfiado. Contudo, com a mesma calma e reverência que impostava sua voz nas ondas do rádio ele me disse: "Não". De súbito, achei que ele, como toda a nação brasileira, estivesse me reprimindo pela pergunta. Aí, veio a continuação: "Na verdade, cinco jogadores foram os melhores. Domingos da Guia, Leônidas da Silva, Zizinho, Pelé e Garrincha. Todos eles tiveram o mesmo nível. Foram fantásticos. Impossível eleger um"

Pronto. Aí estava o álibi final, tudo o que eu mais precisava para ter certeza que minha opinião não era uma mera iconoclastia vã. Se Luiz Mendes, que havia visto esses cinco fantásticos jogarem bola não era capaz de saber quem era o melhor, como, em todos quatro cantos desse país, o nome de Pelé é proclamado Monarca de um esporte com tantos virtuosos?

Desde então aquela frase ecoa na minha cabeça. Com a simplicidade de quem conversa no café-da-manhã, aquele senhor foi capaz de mudar minha maneira de ver o mundo. Percebi que não se tratava de um olhar adolescente e anarquista da realidade, simplesmente uma tentativa de reinterpretar verdades questionáveis. A partir daquela frase, tento ler por trás das linhas, procurar outros pontos de vista, desconstruir imagens sacras. Uma tarefa inglória, porém necessária. Provavelmente, ele nunca soube da importância daqueles trinta segundos de conversa. Obrigado, Luiz Mendes.

Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Reencontro



O relógio passa em um ritmo incessante. Poucas são as chances que temos de recordar o passado, reviver os grandes momentos que, após longos períodos, tornam-se etéreos. A imaterialidade dessas memórias perdidas fazem com que as situações vividas passem, muitas vezes, despercebidas, como se nunca tivessem acontecido. Pessoas que outrora compartilharam experiências formidáveis tornam-se, com o correr do calendário, meros conhecidos. A mudança no papel exercido pelas personagens da vida real é ainda mais abrupta quando observado o caso de relações mal-resolvidas; aquela que antes fora protagonista passa pela posição de vilã e, após alguns poucos e demorados anos, hoje carrega o amargo papel de coadjuvantes.

Entretanto, algumas vezes ocorre um lapso capaz de romper a inércia. Pode acontecer em uma quarta-feira chuvosa, durante uma carona ou em qualquer fila do pão nas esquinas da vida. De súbito, como em um ato de vidência do passado, um olhar e um sorriso mostram-se familiares. Aquela estranha, que por vezes foi vista no corredor e respondida com um mero aceno, evoca lembranças de bons momentos. Acima de qualquer aspecto, voltam à tona as mais belas nuances de uma doce amizade.

Foi uma experiência semelhante a essa que os espectadores de Santos e Botafogo tiveram o prazer de sentir. Após meia década de brigas conjugais com os bons resultados, a Vila de Pelé recebeu um confronto de Alvinegros exuberantes. Um Santos com o artilheiro do campeonato e a maior promessa do futebol mundial enfrenta o time com o mais vistoso padrão tático e o jogador de mais identificação na realidade brasileira. Além de Neymar e Loco Abreu, o que os torcedores puderam assistir foi um dos mais belos lapsos de memória do futebol nacional: ali estavam presentes, indiretamente, Pelé, Garrincha e a antiguidade áurea da Mitologia Futebolística.

Dois emblemas que andaram por baixo na segunda metade do século passado, assombrados por fantasmas da imponência de seus passados e da incompetência de seus dirigentes. Dois times dispostos a garantir vaga no hall dos maiores da História. O resultado desse embate épico foi um show de habilidade. Com uma pintura do Camisa 11 santista e mais um gol saído dos pés de Borges, o time da Baixada Litorânea Paulista conseguiu arrancar os três pontos.

Embora longe da disputa pelo título brasileiro, o Santos conseguiu recuperar a eficiência e ganhar do Time da Estrela Solitária. A moral do Santos se eleva e aumentam as expectativas para o Mundial de dezembro, quando o inimigo vestirá azul e grená e será muito mais potente. Do outro lado, o Botafogo perde a chance de assumir a liderança a oito rodadas do fim. Não obstante, segue na briga pelo mais disputado título nacional das últimas década

Acaba o jogo. Torcedores retomam suas atividades, como se nada houvesse acontecido. Depois desses instantes mágicos de futurologia histórica restam apenas a dúvida. Existirá no futuro oportunidade de consertar os erros e reviver, de certa forma, os bons momentos do passado? Não se sabe. A única coisa que inquestionável é a relevância do que já foi vivido. Isso sim não poderá ser esquecido nunca.

Por Helcio Herbert Neto.