segunda-feira, 5 de setembro de 2011
É hora de ser diferente
Praticamente o que estava na minha cabeça pra ser escrito hoje, Rica Perrone passou para o seu blog oito horas antes. Logo, pego uma caroninha pela manhã enquanto preparo um novo post...
"Campeão de tudo, melhor técnico brasileiro para muitos, odiado por parte da imprensa e perseguido por qualquer coisa que diga ou faça, Luxemburgo tende a ser o para-raios rubro-negro, pra variar.
Sem muita grife, ainda provando que pode ser um dos tops, Tite é o alvo preferido e mais vulnerável dos alvi-negros. Qualquer clube olharia torto pra ambos neste momento. O que olhar diferente, talvez, faça a diferença que mereça o título.
Tite tentou fazer o que todos queriam e colocar Alex no time. Não funcionou.
Voltou. Não funcionou de novo.
Perdeu peças, o time desandou. Colocou o que tinha e, entre um erro ou outro, viu a queda brutal de rendimento coletivo e individual do líder do campeonato.
Ainda líder, é cobrado como se fosse um dos últimos.
Tite sofre com a fiel torcida, que é desconfiada e cobra o título como cobra uma obrigação.
Luxemburgo sofre com a imprensa, que toda oportunidade que tem joga nas costas dele todos os problemas do planeta terra.
Ele montou, sem defesa, um time competitivo.
Na principal competição, arrumou a defesa. Ela desfalca o time há rodadas e, novamente, o Flamengo sofre com os gols bobos.
Diferença brutal é que o ataque parou de resolver. E isso não se deve a uma mudança tática.
Se deve a queda absurda de rendimento de Leo Moura, Thiago Neves, entre alguns outros.
Se deve a falta de sorte com as contusões das únicas peças seguras de sua defesa: Alex Silva e Airton.
Se deve, também, a uma insistência com Deivid até outro dia justificável.
Hoje, não mais.
Deivid não poderia perder a posição pro mediocre Vanderlei.
Pode, talvez, pro esforçado Jael.
Num pacotão simples, Tite e Luxemburgo recebem cobrança de rebaixados quando na verdade fizeram, até aqui, junto com o Botafogo e o Vasco, as únicas campanhas que somam resultado a bom futebol.
São Paulo e Palmeiras enganam com seus resultados. Jogam abaixo, bem abaixo, de onde estão na tabela.
Cobrar do treinador é o natural. Jogar nas costas de quem pouco “inventou”, é burrice.
Tite e Luxemburgo fizeram ótimo trabalho e, sem maiores explicações táticas ou com posicionamentos improvisados, assistem a uma queda acentuada em alguns de seus jogadores.
O básico, mais fácil e menos sério é jogar nas costas deles.
O diferente será aquele que coloca o peso da queda em quem realmente caiu.
Luxemburgo não gritou menos. Nem mudou seus treinamentos. Tite não virou burro, nem faltou aos jogos do Corinthians.
Talvez seja uma ótima oportunidade de começarmos a mudar a mentalidade que tem criado mimados jogadores e deixado o futebol cada vez mais carente de craques de fato.
A queda é deles. A cobrança maior tem que ser neles.
Times de massa são cobrados por massas.
Massas não pensam.
Luxemburgo e Tite não são responsáveis por mudanças significativas em seus times que jusfiquem a queda brutal de rendimento de alguns jogadores.
Quando alguém aponta o céu, alguns olham a lua, outros olham o dedo.
Decida.
abs,
RicaPerrone "
Por Beto Passeri.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Bola na rede é o que interessa
Fonte: Blog "Futebol em Números", do Portal iG.
Não me considero nem um pouco estatístico. Sei que muitos jornalistas gostam de analisar números, percentuais, probabilidades e se valem disso para construir seus argumentos. Há alguns que exageram, tornando sua fala demasiadamente racional, portanto chata (estamos falando de futebol, não de álgebra). Porém, num certo equilíbrio, considero interessante o recurso - e confesso: venho tentando enxergar mais a matemática da bola para me aprimorar no que amo discutir.
É esse o motivo de um post um tanto quanto inusitado. Deparei-me com essa tabela no blog "Futebol em Números" do iG e fiquei realmente impressionado. Ao meu conhecimento só havia chegado a informação de que o Paulo Baier era o maior artilheiro da era dos pontos corridos (o que, apesar do seu número de participações, já me chocava). Então, começo a analisar o resto e me deparo com nomes como Obina, Souza, Tuta, dentre outros contestadíssimos. No mínimo curioso.
Não vou analisar nome por nome, isso daria muito trabalho (que ninguém iria ler) e entraria num critério de avaliação muito pessoal. A tabela também não representa muita coisa, afinal uns jogadores participaram de duas, três edições, enquanto outros participaram de sete, oito. Logo vocês começam a perceber que até quando sou matemático deixo os números um pouco de lado. É mais uma observação do que uma análise; uma curiosidade do que um fato.
Este texto complementa a tabela, não o contrário. Aqui sou coadjuvante, intermediário. Vocês extrairão o que lhes parecer razoável. A única coisa que não resisto a comentar e que é, no mínimo, cômica, é que atacantes bem contestados que atuam neste Brasileirão 2011, como André Lima, Deivid, Rafael Moura e Alecsandro figuram na lista. Faço uma breve reflexão...Será que atacante é uma profissão tão ingrata quanto a de goleiro? Matam na canela, furam bola na pequena área, perdem gols incríveis e raramente são os craques do time. Mas na maioria das vezes são os que mexem no placar, é o que diz a tabela. Nada como um futebol bem jogado, mas - cá entre nós - no nosso time, bola na rede é o que interessa, não?
Por Beto Passeri.
domingo, 28 de agosto de 2011
Da Luta ao lucro: o Fenômeno do UFC
O Rio de Janeiro recebeu o espetáculo esportivo que mais cresce no mundo neste sábado. O UFC Rio trouxe toda a atmosfera gladiadora de uma luta que alia o glamour dos boxers à ação do jiu-jitsu. O esporte que arrebata fãs em todo o planeta mobilizou durante um longo período de tempo toda a opinião pública carioca. A sociedade civil e a imprensa repercutiram a intensidade do impacto desse novo fenômeno.
A maior virtude dessa prática esportiva é já surgir inserida na dinâmica econômica de seu contexto histórico. Diferentemente do Futebol, cheio de organizações burocráticas e relações feudais, o Ultimate Fighting Championship já nasce uma empresa. O lucro é o último objetivo. A credibilidade que essa corporação transmite a patrocinadores é muito maior do que as confederações de políticas mesquinhas podem oferecer. Uma cadeia que surge do topo, invertendo o processo usual que tem como ponto de partida a prática popular.
Por meio de engenharias que se utilizam de todo o conhecimento de marketing, essa organização comercial produz novos conceitos, estilos e ídolos. Anderson Silva, o brasileiro que destrói oponentes com uma facilidade estarrecedora, já se tornou ídolo nacional. O empreendedorismo dos gerenciadores do espetáculo gera uma facilidade gigantesca em atribuir valor à símbolos, exalando um aroma ao mesmo tempo moderno e rústico, ordeiro e brutal nas arenas que recebem o UFC.
O MMA traz consigo muito do pós-moderno. Já vimos tudo: choro, comemoração, superação, festa. Cada vez fica mais complicado inspirar no espectador a surpresa, o susto, a sensação de estar vivenciando o inusitado. Como remédio para a mesmice, o UFC fagocita nuances bem-sucedidas do mundo dos esportes. Desse liquidificado surge uma barbárie incondizente com a moral vigente nas ruas. A dor vivenciada pelos competidores no Octógono gera uma sensação de náusea. Pronto. Foi alcançado o objetivo. O espetáculo prende a atenção daquele que acompanha a luta.
Trata-se de um novo modelo. Ser categórico e profetizar que o que vemos é a ascensão do maior esporte do futuro é pura leviandade. Dizer que é inadmissível lotar um estádio ou parar suas tarefas rotineiras para assistir à lutas banhadas de vermelho é incoerência. O esporte é passional. A tentativa de traçar relações entre a racionalidade e a paixão é o maior erro do Homem. Afinal, que razão há em observar atentamente durante noventa minutos vinte e dois homens carregando uma bola nos pés?
por Helcio Herbert Neto.
sexta-feira, 19 de agosto de 2011
Férias forçadas
Olá, caros leitores (se é que temos tantos assim)! Não, nós não estávamos de férias, e tampouco encerramos o blog. O que aconteceu foi uma pequena confusão no registro da nossa conta, que o Google - ó veneradíssima entidade - entendeu como um "golpe".
Quando criamos uma conta especificamente para o Futebologia Brasil, não tínhamos uma idade exata para três pessoas, então decidimos colocar a data de fundação do blog, o que gerou toda a confusão, uma vez que (segundo o Google) menores de 13 anos não podem ter um email. Nem um blogzinho.
A missão era mandar um fax para um endereço nos EUA com 68 documentos diferentes e a última conta de luz da bisavó, OU uma carta - é, o GOOGLE não usa email - com os mesmos documentos (mas se fosse carta não precisava da última conta de luz da bisavó). Escolhi a carta - até porque ninguém me garantiu que o fax chegaria - e rezei para que alguns dias depois, em Manhattan, alguma alma caridosa se solidarizasse com aquele apelo. Os dias se passavam e nada! O site dos correios já dava a carta como entregue, mas o nosso email só fazia uma contagem regressiva (Faltam 12 dias para o seu blog explodir e você perder todo o seu conteúdo postado).
Quando nos parecia impossível que uma carta poderia resolver nossa vida e já pensávamos em criar um novo blog, alguém muito entediado comendo seu cheeseburger decidiu passar o tempo conferindo nossos 67 documentos (é, eu só não consegui o certificado oficial do jardim de infância) e legalizou novamente a conta. Acordei hoje já sabendo que "faltavam 4 dias", completamente desacreditado e tentando entrar no email por mero desencargo de consciência. Entrou!
Está tudo normal outra vez e agora temos ainda mais vontade de dar continuidade a este projeto pelo qual nos apaixonamos com o tempo. É disso que gostamos, é isso que queremos fazer e esperamos que esse pequeno imbróglio não tenha afetado a nossa credibilidade. Se gostam, comentem aqui e com os amigos. Se não gostam, critiquem aqui também e vamos refletir sobre cada post.
Mais uma vez agradecemos e nos desculpamos pelas férias forçadas.
Por Beto Passeri, em nome da Equipe Futebologia Brasil.
quinta-feira, 28 de julho de 2011
Meia-Noite em Santos
Esta crônica não tem muito a ver com o novo filme de Woody Allen, mas é preciso dizer que ontem meia-noite, quando soou o apito final entre Santos e Flamengo, eu tive a nítida sensação que regredi no tempo num mesmo local. Não vi as glamorosas ruas da Cidade Luz dos anos 20 como no filme. Eu vi o gramado que virava palco na Vila Belmiro dos anos 70. Não vi o jardim de Monet; vi futebol de Pelé e não acreditei.
Estava eu mergulhado numa partida absolutamente atemporal, típica de uma época onde jogo que saía menos de cinco gols era considerado amarrado. Onde o goleiro não tem reação, onde o zagueiro é isento de qualquer culpa, e o técnico “só” tem o mérito de não atrapalhar. Tudo está voltado para eles. Exclusivamente eles. Os gênios. Fica a impressão de que o camisa 1 não espalma porque não quer estragar uma pintura e de que o camisa 3 tira o pé porque está achando aquilo tudo divertido.
A mídia adora extrair confrontos pessoais de jogos importantes, como Adriano x Ronaldo, Cristiano Ronaldo x Messi e por aí vai. Só que nem sempre (leia-se raramente) eles vingam. Seja porque a expectativa foi tanta que não havia futebol que bastasse, seja porque só um deles se saiu bem, ou a retranca estragou a festa. Ontem não. Havia um estádio lotado e havia um campo com 22 jogadores, mas a realidade era um palco apagado com dois focos de luz em cima de dois atores magistrais que dialogavam o tempo inteiro proporcionando um espetáculo poucas vezes visto.
É verdade, tiveram gols de Borges, Deivid, Thiago Neves e pênalti perdido pelo Elano. Sem dúvida isso foi fundamental no desenho e no placar final da partida, mas deixo para os jornais. A mim só convém os dois. Neymar em noite de Pelé e Ronaldinho em noite de... Ronaldinho. É difícil dizer “a melhor partida da carreira do Neymar” – talvez seja -, mas é fácil afirmar que foi a melhor partida de Ronaldinho com a camisa do Flamengo.
Aos mais saudosistas que nunca consideraram a 10 de Zico bem entregue, que resistiram ao talento de Felipe e até mesmo à categoria de Pet, não dá mais. Mesmo que o Gaúcho não volte a fazer uma atuação como essa, a memória dessa partida estará tatuada em cada um que apreciou seu show ontem, digno dos áureos tempos de Barcelona que muitos julgavam não poder voltar.
A vitória foi um mero detalhe, assim como ser um Flamengo e Santos também o foi. Tinha vascaíno batendo palma de pé no bar para a superação do rival e, mais ainda, para a partida orgástica que acabara de assistir. Assim como imagino que tenha santista hoje desfilando com a camisa 11 hoje pelas ruas - meio receoso talvez sobre as consequências futuras de uma derrota em casa, mas convicto sobre a existência (talvez resistência) do futebol arte. Parabéns para os quatro. Flamengo e Santos, Ronaldinho e Neymar. Nós, amantes do bom futebol, agradecemos e ficamos com a certeza que vimos História. Obrigado!
Por Beto Passeri.
terça-feira, 19 de julho de 2011
As Três Paradas no Limbo

Eis que surgem sinais do mal da instantaneidade: os craques que fizemos se mostram longe das expectativas; os vilões, demonizados por suas incompetências, já não são tão ruins assim. É assim no espetáculo da sociedade, é assim no espetáculo do futebol. A proposta de renovação integral se mostra inviável, incondizente ao sonho do hexacampeonato mundial. Chega a hora de aprofundar-se no solo das críticas, visitar os humanos heróis do Limbo.
A Copa América expôs a infantilidade da Seleção de Mano Menezes. Foi breve o sonho de um Neymar com faculdades de Pelé, capaz de superar frustrações de gerações passadas e levar sua equipe ao topo do mundo. Na primeira competição oficial pela seleção nacional, ele e seus promissores companheiros de ataque evidenciaram uma ansiedade adolescente e padeceram perante o Paraguai. Inviável creditar uma Copa do Mundo aos meninos do Santos e ao novo astro popstar Alexandre Pato.
Na Era do Marketing esportivo, das redes sociais, dos vídeos simultâneos, os grandes jogadores tornam-se deuses e os erros são como penas de morte. Modernizou-se tudo: a comunicação com a imprensa, os uniformes, a bola, os palcos. Somente os jogadores permaneceram humanos. Demasiado Humanos. O espetáculo criado em torno desses homens destrói a estabilidade psicológica. Cria zumbis; aqueles que seriam e nunca foram.
E, a partir de agora, o que veremos será a busca por esses degradados jogadores. Procura-se um homem que seja capaz de assumir a responsabilidade de ser o grande nome da Copa de 2014. Uma espécie de herói nacional, com a autoridade de recolocar o futebol nas prioridades nacionais, apesar de toda a negligência de Havelanges e Teixeiras. O técnico Mano Menezes vai visitar os grandes jogadores brasileiros da última década; todos em estado coma para o esporte.
A primeira parada, na Cidade Maravilhosa, prevê sorrisos e glamour. Ronaldinho Gaúcho, detentor do melhor futebol do novo milênio, anda deslumbrado com sua posição fora de campo. Mesmo longe da melhor forma, ele voltou a ser útil ao Flamengo neste primeiro quarto de campeonato brasileiro. As recorrentes reclamações das condições com as quais o Camisa Dez tem se apresentado para os treinamentos são o álibi do pensamento de Ronaldo. Os campos passam longe de ser a prioridade.
Outra parada será no coração econômico brasileiro. Na capital paulista, o técnico vai encontrar dores e incertezas. Adriano, entre polêmicas com a equipe médica do Corinthians e aparições públicas inesperadas, vai se recuperando da cirurgia no tendão. O Imperador é, de longe, o caso psicológico mais imprevisível. Também capaz de suprir a necessidade do ataque, Luís Fabiano segue em uma espera interminável para superar os problemas no joelho e estrear no São Paulo.
A última estação do Expresso Desespero encontra o maior prejuízo da história do futebol em Madrid. Kaká, a segunda maior contratação do time Branco da Espanha, ainda não foi capaz de apresentar um décimo de sua capacidade. A situação atual é tão complicada que deixa por terra a fortaleza da fé do Camisa 8 do Real. As contusões consecutivas desgastam a relação com a torcida do mais vencedor clube da Europa.
A prática da visita aos marginalizados não é incomum na cronologia dos times vencedores. Basta recordar: em 94, Parreira teve de recorrer ao desafeto Romário. Em 2002, Ronaldo e Rivaldo passavam por contusões e descrédito quando foram convocados. Os três foram imprescindíveis nas vitórias na Era pós-Pelé. O tetra e o penta vieram de jogadas oriundas dos pés de flagelados.
Os esquecidos e habilidosos Kaká, Ronaldinho, Adriano e Luís Fabiano voltarão a vestir a Camisa Verde e Amarela. Cercados pelo sentimento de ‘Saudade de tudo que ainda não vi’, os craques ainda têm muito que mostrar. Torçamos para que eles voltem e ressurjam das cinzas. Todos eles. Afinal, são esses casos geram idolatria. São nessas adversidades, nessas exceções que nos identificamos, que abraçamos as seleções nacionais. Daqueles que fizemos vilões, surgem ídolos. Mitos que contradizem o instantâneo de nosso tempo e se eternizam.
Por Helcio Herbert Neto.
terça-feira, 5 de julho de 2011
Série Marginalizados: Uma Alma a vagar

Para ouvir ao som de: The Doors - The end.
Passos na sala. Já há tempos que tudo aconteceu, mas toda vez que entra a madrugada as lembranças voltam e eles se materializam ao seu lado. Quando de dia, consegue levar a vida, relembrar os momentos de sucesso, receber o afago daqueles que o viram exibir o seu futebol. Contudo, as vidas que se foram continuam tatuadas em sua pele.
No monótono engarrafamento da Ponte Rio-Niterói, um garoto afiava sua raiva. Morador de Niterói, o pequeno Edmundo fazia a travessia para se unir a outros tantos que tinham um sonho igual ao dele. Em São Cristóvão, no Campo do Vasco, o jovem atacante se misturava com a massa anômala de jovens que queriam viver de futebol.
Entretanto, nenhum deles tinha a ferocidade daquele rapaz vindo do outro lado da Baía de Guanabara. Por mais vontade que os outros meninos possuíssem, ninguém conseguiria se igualar ao atacante em campo. Enquanto todos corriam atrás da bola por prazer, Edmundo a perseguia por simples orgulho. Obviamente não demorou muito para que Edmundo se tornasse um jogador profissional.
Na chegada ao time principal, muitos tremeriam. Edmundo não. Ele simplesmente teve raiva. Uma tensão pistônica, quase irremediável, fez do escudo Vasco da Gama, de Queixadas e Dinamites, um símbolo provisório, quase invisível. Antes mesmo de se tornar um grande jogador, ele sumiu do Clube Cruzmaltino. O temperamento difícil e a habilidade inquestionável o levaram à buscar outra casa; começava uma peregrinação ansiosa e inquieta que nunca teria fim.
O velho sentimento provinciano que envolve o choque entre Rio e São Paulo era o estopim da insegurança. “Carioca, com uma lista de indisciplinas, quem é esse tal de Edmundo?”. Certo seria que a desconfiança seria a tônica do princípio da passagem do carioca pelo Palmeiras. E ninguém mais que o jogador saberia qual o antídoto para solucionar a descrença dos torcedores.
Ódio. Era essa a chave para levar o Palmeiras aos momentos de Glórias perdidas da década de setenta. Entre dúvidas e divididas, crises e polêmicas, o abstrato virou palpável: da promessa de jogador surge um indomável, incomparável e faminto animal silvestre. Em campo, tornou-se imprescindível para o antigo Palestra Itália de São Paulo. Foi o artífice dos campeonatos brasileiros de 1993 e 1994; com ele o verde da colônia italiana chegou ao topo.
Todavia, com tanta raiva, a vida se torna angustiante. Toda busca é vã, toda conquista é inglória. Novamente procurou por novas verdades em outros ares. Não obstante, não é sempre que a sorte sorri para aqueles que fogem dela. A inconseqüência e a falta de maturidade fizeram com que as noites do Animal nunca mais fossem as mesmas.
Veio ao maior rival do time que lhe abriu as portas; no centenário do Flamengo, Edmundo seria um dos astros. Ao lado de Romário e Sávio, era promessa de que os festejos do aniversário poderiam começar antes da hora. Contudo, entre choques de vaidade, noites movimentadas e discussões, aquele time pereceu. E o descontrole emocional daquele niteroiense foi um dos grandes motivos do fracasso.
Confuso e acuado, o Animal costumava percorrer os mais famosos pontos da noite carioca. Em busca de redenção e alívio, ele encontrava na madrugada uma companheira para seu bravio jeito de ser. Belos carros, mulheres e bebidas faziam com que ele esquecesse das responsabilidades e tarefas rotineiras dos mortais.
Foi quando em um desses lapsos de leviandade que sua vida mudou. Na noite glamurosa da Zona Sul, no dia dois de Dezembro, em um dos mais belos cenários cariocas, o atacante foi o protagonista de uma tragédia que envolveu seis pessoas. Após mais uma madrugada em seu universo próprio, de automóveis, dinheiro e amores, deu-se o fato: Edmundo bateu de carro na Lagoa Rodrigo de Freitas.
Atônito, não conseguia entender. Percebeu onde toda aquela raiva havia desaguado. Naqueles destroços e ferragens, via um pouco de si. Entretanto, sem dúvidas, o pior ainda estava por vir. Seu mundo caiu quando descobriu que três vidas haviam sido partidas por sua falta de discernimento. O acidente matou três pessoas e destruiu Edmundo.
Continuou a percorrer gramados do mundo, seguindo sua peregrinação. Foi grande, retribuiu o carinho dos vascaínos dando espetáculo no campeonato brasileiro de 1997 e levando a taça para São Januário. Contudo, de súbito, a torcida adversária costumava iniciar um coro para atordoar o craque. Vinha a alcunha que estigmatizava Edmundo: Assassino. E então, ele sucumbia, desaparecia em campo. A velha raiva incontrolável minguava e o animal virava dócil. Com a objetividade de um gato doméstico, ele perdia por completo sua eficiência.
E, cada vez mais, aquelas almas pesavam em suas costas. Correr com o peso de tantos desejos perdidos, tantas esperanças esvaídas era desumano. Toda vez que punha a cabeça no travesseiro, seja depois de um dia de treino, de jogo, ou de badalação, as lembranças retornavam. Toda vez que acordava estava mais fraco para combater o peso de enfrentar mais um dia.
Foi convocado sem ressalvas para a Copa de 98, embora emocionalmente abalado pelos anos anteriores. Durante a competição, foi apenas mais um. Compondo uma boa seleção, contentava-se em abrigar-se embaixo da cobertura do banco de reservas. Comemorava vitórias, aquecia a musculatura, treinava com os colegas. Mas tudo aquilo era pouco. Quem havia tido a oportunidade de ver aquele animal raivoso no princípio da carreira sabia que aquele era um simples vulto de tudo o que ele poderia ser.
Porém, mais uma oportunidade bateria-lhe a porta. Antes da final, a epilepsia de Ronaldo abrira uma vaga no time. Finalmente havia chegado sua vez? Tudo pronto para ser o maior, espantar fantasmas e angústias? Não. Subitamente, o técnico Zagallo escolhe pôr o camisa 9, apesar de seus problemas de saúde, no posto de titular. Como por interferência das vítimas do dia dois de dezembro, Edmundo foi mantido na reserva. Resignou-se com pouco tempo de jogo, um vice-campeonato mundial e a companhia etetrna daqueles que, por culpa dele, haviam partido.
Desde então desapareceu. Em mais dez anos de carreira, lutou para se manter erguido, combatendo. Vitórias, derrotas, dias e noites, o tempo passou e a distante maturidade chegou. No entanto, as lembranças nunca vão o deixar em paz. Será sempre uma sombra, uma alma a vagar. Naquele dia dois de dezembro, policias, médico e bombeiros erraram a conta. Na verdade, foram quatro as vítimas. Edmundo também partiu.
Por Helcio Herbert Neto.
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