quinta-feira, 16 de junho de 2011

Narcisismo


Me incomoda profundamente o discurso patriótico adotado pela imprensa esportiva (aqui estou toscamente generalizando) de que o futebol brasileiro é sempre melhor. Essa fala foi perpetuada ao longo dos anos, de cinco Copas do Mundo e de 14 títulos de Libertadores. Tudo bem, concordo que o Brasil é a maior potência do futebol mundial, o maior celeiro de craques e, como tal, merece todo respeito. Mas também há falhas no nosso futebol, sobretudo quando se trata de Libertadores, e isto ninguém quer apontar.

Isso é jornalisticamente condenável; para que estudos acerca do futebol se, no fim das contas, vamos todos “Galvanizar” e dizer que só o Brasil merece a vitória sempre? Eu nunca fui da turma que defende total imparcialidade, pois acho que isso sequer existe, mas há um limite – até para poder haver uma análise distanciada do que está acontecendo.

Eu já não sei se tal fenômeno é consequência da “preguiça” de se dizer outra coisa ou se é um apego (talvez até uma alienação) pelo mito do “futebol arte”. O fato é que já cheguei a ouvir até que “falta mais brasileiro no Barcelona para ser perfeito”. Que espécie de argumento é esse? Um dos maiores times da história do futebol, que joga o verdadeiro “futebol arte” e falta mais brasileiro por quê?

Ontem foi a vez do Peñarol ser colocado de lado: “Esse time do Peñarol só saber dar chutão e conta com uma bola espirrada para ganhar o jogo”. Ninguém chega numa final de Libertadores eliminando Internacional, Universidad Católica e Vélez – todos bons times – contando com bola espirrada; isso é falta de conhecimento. Passar o jogo inteiro dizendo que o Santos é muito superior tecnicamente é pobre, até porque não era o que se via em campo simultaneamente. Se o Santos conta com um Neymar pouco inspirado/bem marcado – como foi ontem – não é essa potência toda que os comentaristas gostam de exaltar.

Eu sou apaixonado pelo futebol brasileiro; acho que temos um jeito de jogar único e jogadores que dançam com a bola nos pés. Mas eu também sou apaixonado pelos outros estilos de jogo e acho que eles devem ser respeitados. Assim como penso que o Barcelona não precisa de mais brasileiro coisíssima nenhuma, também penso que o Peñarol não precisa aprender a pedalar para ser considerado um bom time. É o time com maior número de participações em Libertadores (38), um dos maiores campeões (5 vezes) e nunca jogou muito diferente de ontem. Simplesmente porque esse é o futebol uruguaio: raçudo, marcando forte, embolando o meio-de-campo e se aproveitando de bolas paradas. Isso é feio? É a anti-arte? Eu não vejo desta maneira.

É mais fácil mesmo perpetuar o discurso batido de que o futebol brasileiro é superior e,se perde, é por uma infelicidade. Pode ser que semana que vem, no Pacaembu, o Santos jogue o “futebol moleque” e seja campeão. Mas o que vi ontem foi a pegada do Peñarol dominando o jogo, ganhando todas as divididas (o que falta para o Brasil muitas vezes) e criando as melhores oportunidades. No Uruguai devem estar dizendo que o Santos deu sorte. Perspectivas...


Por Beto Passeri

domingo, 12 de junho de 2011

Série Marginalizados: O Soviete


Ao som de: The Internationale. The International Communist Party.

Cada época, cada período histórico possui uma alma. Chamada de Zeitgeist pelos alemães, ela sintetiza o conjunto de idéias que move pessoas a agirem, que explicam os movimentos dos homens que vivem nesse momento. Idéias que provocam guerras, disputas políticas, mas que, principalmente, mantém os homens vivos, lutando por seus anseios.

Poucos personagens possibilitam a compreensão do espírito de um tempo com tanta eficiência quanto Lev Ivanovich Yashin. Conhecido na Europa como Pantera Negra pela velocidade de seus reflexos e pela cor de seu uniforme, esse jogador tem capacidade ímpar de sintetizar História, Política e futebol.

Nascido na Rússia pouco mais de duas décadas após a ascensão dos bolcheviques, o garoto Yashin viveu o clima de esperança que a Europa Oriental. A queda da dinastia dos Czares era, para aquele povo, um sonho realizado. O Poder na mão da sofrida classe proletária era o combustível daquela gente para encarar a realidade dura daquele tempo, que contava com miséria, fome e uma violenta guerra civil.

Em 1939, esse combustível resultou na maior batalha que o Planeta já viu. Contra Hitler e seu nazi-fascismo, a União Soviética saiu como a grande vitoriosa da Segunda Grande Guerra. Milhões de pessoas foram mortas, cidades destruídas, vidas destroçadas. Apesar de tudo, a União de Repúblicas Frias ascendeu ao posto de potência mundial. O desespero com o sucesso soviético fez com que os Norte-americanos, coadjuvantes na Segunda Grande Guerra, atirassem a inovação atômica no Japão. Vidas transformadas em fótons por pura demonstração de poder.

Nesse contexto começa a vida esportiva do menino Lev. Trabalhador de uma fábrica ferramentas em plena Guerra Mundial, ele encontrou no esporte um oásis de alegria para um cotidiano gélido e difícil. Logo fez sua primeira defesa: agarrou a oportunidade de ser goleiro de hóquei de gelo. O frio era propício ao esporte e suas habilidades proporcionavam destaque em sua posição.

Um elogio que não pode deixar de ser feito aos países socialistas facilitou o desenvolvimento do jovem Yashin: a URSS aproximava o esporte do povo. Vislumbrando uma futura propaganda em espetáculos esportivos e a melhoria na qualidade de vida da população, o investimento era maciço na prática atlética. Inclusive no futebol, aquela que se consagraria, na segunda metade do Século XX, como a mais praticada ao redor do Globo.

Com isso, Yashin escapou um pouco do gelo e foi para a grama. Isso por apenas alguns meses, quando o rigoroso inverno russo não transformava os estádio de futebol em arenas de hóquei. Seu destino foi o clube Dínamo da Capital Comunista, onde residia o Chefe de Estado Josef Vissarionovich Stálin. Mas o sucesso não foi simultâneo.

Foram anos de reserva, de trabalho sem consagração, de esforço sem retribuição. Não obstante, o goleiro não se abateu. Como grande parte de sua população, encontrou no Marxismo-Stalinista um afago para o trabalho exaustivo, para a estafa cotidiana, para o vazio existencial. E foi assim que ele entrou para política, que lhe consagraria futuramente, diretor do partido comunista.

Entretanto, com o tempo seu talento foi valorizado e seu povo percebeu a jóia que possuía. Yashin começou a brilhar com a camisa de seu time e chegou a titularidade da meta da nação que polarizava o Mundo. Nessa altura, meio mundo era vermelho e a outra metade era capitalista. Era o estopim para o maior confronto geopolítico já visto.

Como a bomba nuclear já anunciara, os Estados Unidos não estavam dispostos a ficar para trás. Mas devido ao avanço das tecnologias, uma guerra direta esquentaria o planeta até sua explosão. Logo, deu-se uma Guerra Fria. Sem armamento bélico, a estratégia para a derrubar o adversário era a propaganda, e uma das armas mais poderosas eram personagens como Yashin.

E que propaganda. Yashin levava o nome de seu modelo político até as estrelas. Estampado na camisa negra do arqueiro, o emblema da URSS alcançou a admiração dos povos. Com ele, a seleção soviética de futebol foi campeã olímpica em Melbourne em 1956 e chegou a duas finais consecutivas do campeonato europeu de futebol, tendo conquistado o título de 1960. Era o modelo político igualitário do Aranha Negra, alcunha pela qual ficou famoso na América do Sul, no topo do Mundo.

Foram 22 anos de carreira e muitas glórias. Essas mais de duas décadas o consagraram como o maior goleiro do século XX. Contudo, ao pendurar as luvas, esse grande mito não abandonou seu ideal. Continuou na prática esportiva, utilizando-se de sua posição de ídolo para mobilizar novos jovens a praticar o esporte. Formado em Educação Física, continuou vivenciando, a cada dia, sua convicção.

A História, pela qual esse personagem passou tão marcantemente, foi grata ao Eterno Dono da Camisa Um dos Sovietes. Ele não viu a sua tão amada URRS desfalecer perante a globalização e ao capitalismo. Morreu aos 60 anos, após complicações vasculares que lhe levaram amputar a perna e a um derradeiro acidente vascular. O tempo, como forma de gratidão a tudo que o goleiro fez em vida, foi caridoso para com Lev Yashin. Poupo-lhe de ver sua ideologia perecer perante ao capitalismo e a globalização. Fim justo, uma vez que não há nada mais cruel que arrancar o ideal de um homem.

Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ronaldinho Gaúcho; 'Sim' e 'Não'


É notório que o Mundo é movido pelo 'Sim'. O que move o planeta,o que faz todas as pessoas lutarem pelos seu objetivos é a esperança de, em algum dia, em algum momento, receber uma resposta positiva. Contudo, não há nada mais afrodisíaco, mais estimulante do que um carregado 'Não'.

Parace contraditório. Entretanto, quanto mais frequente são as respostas negativas, mais preciosas são as afirmativas. Poucas são as pessoas que notam o quão valioso é ter uma negativa, o quanto ela dignifica e sublima uma eventual aprovação. Acredito que, no Mundo, as mulheres são aquelas que mais entendem esse significado.

Meus caros, nada é capaz de deixar uma mulher mais atraente do que um sonoro e contundente 'Não'. Somente quem já teve uma negativa feminina tem idéia do quanto pode ser excitante um rechaço. Aumenta as espectativas, gera mais transpiração para o alcance do objetivo. Ter no veto um degrau é uma virtude e um prazer.

Ronaldinho Gaúcho soube encontrar no féu de um nítido e sonoro 'Não', um futuro esperançoso, que pode resultar no mel do 'Sim'. Após a saída ao som de vaias da Copa do Brasil, o Camisa Dez e o Time da Gávea pareciam em cinzas. Mais um segundo semestre de preguiça, diziam os críticos. Assim como no Brasileiro de 2010, o time parecia longe da disputa. Entretanto o sinal vermelho tornou-se verde para o time do Homem de Dois Milhões de Reais.

Além da saída da competição nacional, outra frustração apareceu na vida do Ex-Melhor do Mundo. A Seleção de Mano Menezes para a Copa América saiu e o gaúcho não estava nela. Por mais que as atuações não inspirassem confiança, restava uma luz no fim do túnel. A luz era uma quimera; Ronaldinho não vestirá a Camisa Amarela tão cedo.

E foi quando prazer da superação se pôs aos pés do R10. O nada glamuroso palco de Macaé, uma noite fria, a primeira rodada do Brasileiro. Tudo para ser um daqueles jogos monótonos que a televisão insiste em transmitir. Entretanto, o Ronaldo das Cercanias da Velha República Juliana estava a fim de jogo, pronto para superar a fase ruim. Ronaldinho Brilhou, participou dos qautro gols da goleda do Flamengo.

Anos de distância do brilhantismo do Barcelona, quando foi o melhor jogador de uma década. Anos de negativa, caros leitores. E agora ele ameaça um retorno. Sob a dor dos tempos sombrios, Ronaldinho Gaúcho parece ir em busca da definitiva e efusiva resposta 'Sim' para o bom futebol. Seria o retorno do velho romance entre o Ex-Melhor do Mundo e o Futebol Arte?


Por Helcio Herbert Neto.

domingo, 8 de maio de 2011

Homenagem de Dia das Mães




No fim de semana que homenageia as progenitoras, resolvi lembrar daquele que, no último mês, foi a mais generosa "mãe" do futebol. Contudo, o fim de semana da bola no país me fez repensar se esse prêmio é digno. Há um forte concorrente que corre por fora, distribuindo agrados aos adversários constantemente.

Tudo começou em Londres, nas quartas-de-final da Liga dos Campeões. O goleiro brasileiro Gomes, do Tottenham. Na situação, ele exerceu seu extinto matriarcal com o openente madridista Cristiano Ronaldo. O jogo já estava resolvido, a fatura liquidada, mas a situação foi constrangedora.

E não acabou por ai. No clássico londrino contra o Chelsea o terceiro goleiro da Seleção na Copa de 2010 deu mais um presente para os adversários. Lampard se aproveitou da falha e começou a reação dos Azuis . É fato que a bola não passou completamente pela linha, porém a cena que ficou para eternidade foi a bola passando pelo meio de suas pernas.

Entretanto, quando tudo parecia terminado e a homenagem já estava preparada, o goleiro Colorado Renan resolveu destribuir gentilezas para o time da metade Tricolor de Porto Alegre. Na primeira partida da Final do Gauchão, o arqueiro campeão da Libertadores 2010 pôs a cereja no bolo do Dia das Mães. Com duas falhas significativas, ele confirmou a notória incerteza dos trocedores do Internacional com o seu Camisa 1.

Então, para que não haja briga entre os dois, a homenagem vai ser dupla. Torçamos para que esses titulares da posição mais questionada do futebol se recuperem e não desapontem os seus fanáticos torcedores. De resto, ficam os parabéns para as verdadeiras mães, que com força e suor lutam para criar seus filhos.

Por Helcio Herbert Neto.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Apaixonado por "assombração"


Ontem, aproximadamente 14 milhões de pessoas levaram as mãos à cabeça quando chegou ao fim mais uma rodada dessa impiedosa tal de Libertadores. A noite foi terrível para quatro grandes clubes do futebol brasileiro e, vai, para o Brasil, apesar de eu não me sentir comovido por esse tipo de patriotismo (cada um tem o seu time, seja aqui ou na Bolívia). Mas ai de quem disser que foi terrível para o futebol.

Para os verdadeiros amantes do esporte (excetuando-se os magoados torcedores), houve motivos para sorrir na “noite mal assombrada" do Brasil na Libertadores. O improvável fingindo que é por acaso e tirando sarro dos que ainda duvidam do futebol. Não me canso de admirar essa mística que o envolve, essa mania de mudar o destino que parecia certo, essa vontade de assoprar a bola da classificação de um na trave e a de outro, no barbante.

O Guerreiro campeão brasileiro, o Colorado campeão da América, o eterno Imortal e a Máquina Celeste. Desses, uma história épica e um final feliz - mais uma Libertadores para o Brasil que se encontrava novamente em vantagem numérica nas oitavas. Nada. Caíram um a um. Tirando o Grêmio, todos pareciam com meio caminho andado. E esqueceram que no futebol isso não existe. No meio deles o Fluminense, que já havia contrariado a matemática, ignorou a falta de lógica do mundo da bola.

Qualquer esporte está sujeito a esses dramas, claro, mas com que frequência e em que intensidade? Quantas vezes vamos ver o Lakers deixar escapar, em casa, uma classificação nos playoffs para um time de pouca expressão? Quantas vezes o Phelps vai entrar na piscina e chegar metros atrás de um semi-desconhecido nas Olimpíadas? Talvez as comparações nem sejam as melhores, mas são suficientes para transmitir a ideia.

Algumas pessoas estudam economia e mercado para compreender o mundo. Outras, a psiqué e o comportamento humano. Eu escolhi o futebol. Passei bastante tempo me censurando por isso, até que fui procurar alguns argumentos para me iludir e, por fim, acabei convencido de que realmente valia a pena. Para muitos, só um esporte, só um entretenimento incrivelmente popular.

Para mim, a maneira mais fácil de dizer as coisas. Quase ninguém quer ler e discutir sobre o senado, mas a CBF e o Clube dos 13 encontram bastante público. Ruim? Nem tanto se pensarmos que não deixa de ser política. Economia então, nem se fala, dá até arrepios. Mas e o mercado futebolístico brasileiro com poder de compra que não tinha outrora? Quase todos querem entender e dar palpite. Isso não ajuda? Não educa?

O futebol mistura política, paixão, economia, direito, fé, sociologia e o que mais for. Lindo. E talvez a explicação para sua popularidade nem esteja nisso tudo. É o fato de ele ser a própria vida, em quatro linhas. É simplesmente a imprevisibilidade, são aquelas energias estranhas que de vez em quando invadem os gramados. É a vontade de culpar qualquer coisa quando não dá certo. É não ter o controle sobre absolutamente nada e por mais cético que seja, no último pênalti, rezar sem saber para quem. O choro quando a bola entra lá e o choro quando a bola entra aqui. Beber para comemorar e beber para esquecer.

Por mais paradoxal que seja, no fim das contas, não tem vencedor e nem perdedor. Um enorme ciclo de angústias e felicidades, dia após dia, década após década. Uns mais, outros menos, mas todos para o mesmo lugar.


Por Beto Passeri

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Série Marginalizados: Por Ruas e Vielas



Para ouvir ao som de: Cidinho e Doca - Rap da felicidade

Impacientes, fecham suas janelas. Como se não bastasse aguardar pelo retorno do rapaz, após mais uma saída pela Barra da Tijuca, a batida incessante da música da Favela toma conta da madrugada. Na manhã seguinte, além de falar sobre o atraso de seu filho e da imoralidade do baile Funk da noite anterior, a tradicional família de classe média comenta mais uma manchete que tem como tema a vida de Adriano.

Ao som de ritmos como aquele, moradores de comunidades carentes do Rio aproveitam as noites quentes do verão. Ao lado do sagrado futebol, os bailes desse estilo são as únicas opções de entretenimento que essa camada social tem acesso. Alvo de críticas do asfalto, o estilo é acusado de ser machista, vulgar e de fazer apologia ao crime.

Enquanto isso, nos ricos bairros banhados pelo mar, os jovens ouvem a dançante música estrangeira. Apesar das inúmeras opções que suas redondezas e seus bolsos oferecem, eles fazem fila na porta de caras boates. O clima lá dentro é descontraído, muita gente bonita e, claro, um consumo excessivo de álcool e drogas. Dessa maneira, pouca atenção é oferecida a letra das músicas.

Cercada por esses tempos de Big Brother, a música reflete a realidade na qual ela é circunscrita. É impossível analisar o Funk Carioca isoladamente, sem compará-lo com o que é produzido e vivido na atualidade. Dessa forma, os milionários hits americanos que embalam as festas caras da Cidade Maravilhosa e a música que anima a madrugada nos subúrbios trazem a busca pelo prazer que é a tônica de nossa época. De resto, o preconceito com a Batida dos Morros somente comprova a velada hipocrisia que se esconde no Rio de Janeiro. Hipocrisia que tem um forte caráter social.

A abordagem da mídia sobre Adriano também desmascara tal elitismo. Como diversas figuras públicas, o Imperador não soube lidar com o bombardeio midiático que é, verdadeiramente, desumano. Contudo, entre Ronaldos e tantos outros, ele foi o escolhido. Foi selecionado para ser o mais assíduo jogador nas cinzas paginas jornalísticas, extrapolando a seção de esportes.

O Centro-Avante foi coroado em Milão. Após uma saída precoce do Flamengo e de sua realidade, o Atacante se destacou na Itália e ganhou uma vaga no time de Giuseppe Meazza. O sucesso o pôs na Seleção Nacional e na capa das revistas. Era o Grande momento de sua carreira. Não obstante, uma fatalidade mudou o trajeto da carreata do Imperador.

A morte de seu pai lhe virou a cabeça. Tudo aquilo que tinha, que conquistara devido ao seu esforço e abnegação, não seria capaz de trazê-lo de volta. Começou a faltar treinos, engordou, sumiu. Foi se perdendo por aí, vagando por ruas e Champions Leagues. O convocaram para o Mundial, mas quem se apresentou não foi o Imperador. Quem jogou e perdeu a Copa de 2006 foi um mero mortal.

O tempo passou e chegou a hora de sair da Itália. Todos sabiam, ele sabia. A motivação não estava mais lá. Veio ao Brasil, ao seu povo, reencontrou um futebol razoável. Mas o que é razoável para um César é inatingível para os outros. Ele reconquistou um país de dimensões territoriais infindáveis. Após 17 anos, o Flamengo foi Campeão Brasileiro e Adriano chorou.

Ao som do Baile da Vila Cruzeiro, comemorou a grande fase. Lá, todos o tratavam como todo potente. Um herói material e próximo para aquela gente esquecida era algo de sobrenatural. O momento era de êxtase, de explosão e de felicidade. Entretanto, era um simples e efêmero momento. Mais manchetes, mais problemas, mais frustrações e mais despedidas. Seguiu seu caminho pelo mundo.

O Camisa Dez campeão nacional em 2009 contraria a dinâmica usual. A busca pelo retorno às suas origens surpreende a todos. Como voltar ao Complexo do Alemão e deixar a Capital da Moda? Poucos entendem. O dinheiro, para o Imperador, não foi a felicidade. E por isso ele buscou, e ainda busca, a alegria em um recanto inacreditável para a maioria. No Morro, ao lado de sua gente, amigos e familiares, ao som do povo; e claro, ao som de Funk.

É muito mais fácil delegar à rotina controversa do jogador a razão por sua infelicidade. É muito mais fácil delegar ao Funk a razão pela baderna nas comunidades. Porém, são questões muito mais complexas. Trata-se de verdades que, geralmente, preferimos não levar em conta. Criamos parábolas, histórias fantasiosas capazes de preencher as lacunas de respostas que não conseguimos dar.

Feche a janela, ligue a TV, volte a rotina. Entre acreditar que o Mundo está de cabeça para baixo, em uma incontrolável busca de prazer e crer que a favela é a origem de todo mal, jogue a culpa para o lado pobre da Cidade Partida. Entre ver que ninguém escapa ao peso de viver em busca de um lugar chamado felicidade e fingir que Adriano é o único a caminhar errante pela vida, não compreenda o Imperador. É mai fácil virar para o lado e voltar a dormir.

Por Helcio Herbert Neto.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Copa de 2014 na Inglaterra

Recebi o texto que vem a seguir por email e desconheço sua autoria, mas vale a pena ler.

"O Brasil não é o país do futebol. O país do futebol é a Inglaterra, pois foi lá que o esporte nasceu. Claro que o Brasil pode ter orgulho de ser um grande campeão mundial, mas isto não é motivo para que a Copa 2014 seja realizada aqui. Aliás, a única vez em que isto ocorreu, em 1950, sofremos uma derrota histórica. No entanto, o grande motivo para mandar a Copa de 2014 para a Inglaterra é que não temos dinheiro, não temos competência e não temos honestidade para realizar um evento deste porte.

O Brasil é o país da corrupção no futebol. A presidência da Confederação Brasileira de Futebol é praticamente vitalícia e nem com CPI, que comprovou dezenas de ilícitos, conseguiu ser mudada. Os clubes, na sua grande maioria, são dirigidos por políticos corruptos ou por agentes de jogadores, usados como currais eleitorais ou como fonte de bilionários negócios pessoais. A estrutura para a prática do futebol é um fiasco, tanto é que a realização da Copa está exigindo investimentos de mais de U$ 3 bilhões apenas em estádios. Tudo com financiamento a fundo perdido pelo BNDES ou dá para acreditar que os clubes, maiores devedores de INSS e FGTS, vão pagar estes empréstimos? E o BNDES vai fazer o quê com um estádio de futebol confiscado para pagamento de dívida?

Além disso, o Brasil não possui nem mesmo aeroportos decentes para receber os torcedores do mundo inteiro e, mesmo que o governo arranje dinheiro para construir e reformar, nenhum deles ficará pronto para 2014, segundo relatório do IPEA, órgão público federal. Este é apenas um exemplo. O custo para realizar a Copa do Mundo 2014 no Brasil está orçado em U$ 15 bilhões, sem contar com os U$ 30 bilhões destinados a construir um trem-bala para ligar São Paulo com o Rio de Janeiro, um projeto fadado à falência, por ser economicamente inviável. Aliás, o trem-bala também não ficará pronto para o evento.

O mais grave de tudo, no entanto, é que com a desculpa de agilizar as obras, o governo federal quer fazer todas as obras ao arrepio da lei, eliminando licitações e afrouxando a fiscalização. Será uma roubalheira generalizada. Lembram do Pan de 2007, que deveria custar R$ 400 milhões e acabou custando R$ 4 bilhões, sendo que até hoje o Tribunal de Contas da União não aprovou as contas? Senhores e senhoras, o custo orçado de U$ 25 bilhões acabará sendo de U$ 50 bilhões.

O Brasil é um país rico pela própria natureza, mas pobre, muito pobre pela ineficiência do seu governo, pela má gestão, pela corrupção. Temos 30 milhões de miseráveis. Temos 20 milhões de analfabetos. Temos 1 milhão de viciados em drogas. 50.000 brasileiros morrem por ano em acidentes nas péssimas estradas federais. Há mais de 100.000 assassinatos por ano. Não temos boas escolas. Não temos bons hospitais. Não temos penitenciárias suficientes. Não temos clínicas de recuperação de drogados. Não temos creches. Não temos, em resumo, U$ 25 bilhões,que acabarão sendo U$ 50 bilhões por causa da corrupção, para gastar em 30 dias de um evento esportivo.

Por isso, estamos lançando a campanha “Eu quero a Copa 2014 na Inglaterra”. A Inglaterra é o país que inventou o futebol. Está realizando os Jogos Olímpicos 2012 que, ao final deste ano, com seis meses de antecedência, vai entregar todas as obras exigidas e uma infra-estrutura espetacular. Lá está tudo pronto e não haverá prejuízos para o mundo do futebol. O Brasil tem outras prioridades. O Brasil precisa de escolas, não de estádios de futebol. O Brasil precisa de ônibus e metrô, não de trem-bala. O Brasil precisa de ferrovias, estradas,pontes, viadutos, ruas calçadas e asfaltadas. O Brasil precisa respeitar o dinheiro dos brasileiros, que pagam a maior carga tributária do mundo e os maiores juros do planeta. Vamos mandar a Copa do Mundo de 2014 para a Inglaterra."


Por Beto Passeri.