quarta-feira, 29 de abril de 2015

Os Blues valeram a pena

Vasco e Botafogo fazem a finalíssima no Rio: aproveitemos o que há de bom nos regionais (Marcelo Sadio/Divulgação)

Para ouvir ao som de: Chico Buarque - Essa Pequena

Nas últimas eleições, deu-se o ocaso de Chico Buarque. Você não foi convidado para o enterro. Tampouco os parentes do compositor. Nenhum tabelião avalizou uma certidão de óbito. No entanto, parágrafos e parágrafos na imprensa sentenciaram que o filho de Sérgio Buarque de Hollanda estava inapto, senil. Tudo isso por seu posicionamento político.

Não julguemos, aqui, a visão do cantor ante o que acontece entre os mais poderosos brasileiros; que teçam argumentos ou espumem ódio em outro canto. Sem dúvida: presente é a vivacidade da verve do artista. No ano que encomendaram o ataúde do Chico, o autor lança o incensado livro “Irmão Alemão”, reconhecido como um dos melhores entre as quatro estações de 2014.

Pouco antes, em 2011, Chico Buarque entrou em turnê para divulgar o disco “Na Carreira” (o título é uma resposta antecipada aos que decretaram a falência do compositor?). Há, entre aquelas faixas, uma inédita capaz de decodificar tanto uma expectativa das arquibancadas como uma ética da própria produção do músico.

“Essa Pequena” não tem a poética incisiva de “Construção” ou a ironia ferina de “Deus lhe Pague”. Ocorre ali a descrição de um amor que, mesmo diante da diferença de idade, acontece da maneira mais contundente. Embora não haja a perspectiva de dezenas de anos de convivência, ocorre a felicidade, a cada segundo, em plenitude.

Chico aproveita o futebol, como praticante e torcedor. Embora os campeonatos regionais tenham sido difíceis, ocorreu uma interessante cizânia entre o Fluminense do poeta, o Flamengo, a Federação Fluminense e, por conseguinte, a CBF. Desse embate, pode sair um ensejo de liberdade para os clubes, quem sabe a liga independente?, uma coesão entre grandes times...  

Escassearam os momentos de grande futebol: que sejam curtidos os lampejos de felicidade nesse esporte. Agora, quer saber quem vai ganhar, Botafogo ou Vasco? Que vença o mais competente. Os blues já valeram a pena.

Por Helcio Herbert Neto.

sábado, 21 de março de 2015

Há vinte anos, Darcy apontava para o bom senso

O antropólogo não se perdoa por ter acabado com os campinhos de futebol (reprodução/Youtube).

Darcy Ribeiro militou junto aos estudantes, aos índios e aos movimentos sociais. Embora tenha sofrido pujantes derrotas ao longo de sua jornada - integrava, inclusive, o governo João Goular derrubado pelo golpe de 1964 -, são muitos os seus legados; o Sambódromo e a Universidade Estadual do Norte Fluminense são resultados sólidos, irrevogáveis de sua atuação.

O professor, antropólogo e político, contudo, reconhecia um grande erro para com um símbolo da brasilidade. Em entrevista concedida ao Roda Viva em 1995 (para assistir, aqui), ele lamentou ter destruído dezenas campos de futebol para a construção dos CIEPs. O maior programa educacional da história do Brasil tinha como objetivo implementar a educação integral do Rio, na década 1980.

Devido à escassez de áreas para as escolas, à época, o governo de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro cometeu tal equívoco. A autocrítica, realizada em rede nacional de TV, seguiu negligenciada pelos políticos por essas duas décadas. O esporte não foi o foco de políticas públicas efetivas nas esferas municipal, estadual e federal. Até uma Copa do Mundo passou e o erro foi reiterado. 

Dilma Rousseff fez parte do partido de Brizola e Darcy, o PDT. Quatro anos após sua chegada à presidência, ela parece ter sido tomada, de súbito, pelas recordações dos ensinamentos do dirigente de sua antiga sigla. A lei de responsabilidade fiscal no esporte é um aceno para uma perspectiva de mais políticas públicas para as práticas esportivas durante o segundo mandato da presidenta.

O esforço para a elaboração da medida provisória, anunciada nesta semana, ainda mostra uma tentativa de começar a compreender o esporte em sua plenitude, como fenômeno econômico, social, cultural e educacional. Com o texto em vigor, clubes terão de honrar compromissos trabalhistas e fiscais. A ideia é que eles deixem de ser maus exemplos para os seus torcedores.

É bem verdade que, entre a lamentação do então senador, na TV Cultura, e o tenso atual momento da presidenta foram sancionados o Estatuto do Torcedor e a lei Pelé. Muito pouco, para tanto tempo. Os pontos da MP foram articulados entre Casa Civil e o Bom Senso FC, associação de jogadores de futebol pelo bem do esporte. O grupo foi recebido no gabinete de Dilma antes das eleições de 2014.

Diferentemente de outras promessas voltadas para os setores sociais que catapultaram a petista para um segundo quadriênio em Brasília, essa foi escutada. O texto ainda passará pelo Congresso, o que deve ser temido, ante os embates entre Executivo e Legislativo. A cúpula da presidência deve fazer o máximo esforço para que as novas determinações não sejam engavetadas.

A medida provisória é importante para confirmar as origens políticas de Dilma, postas de lado no primeiro trimestre de 2015. A legislação será um legado do atual governo, positivo como os do professor Darcy Ribeiro. Também comprovará que a presidenta não ignorou, como tantos outros, a autocrítica do etnólogo dirigente pedetista.



Por Helcio Herbert Neto.                                                  

quinta-feira, 19 de março de 2015

Decidi jogar bola

Em 1964, a maioria pensou que a permanência dos militares seria efêmera. (Agência Brasil)


Pleno domingo. O barulho vinha das panelas, não de arquibancadas. A multidão caminhava nas ruas e não tinha como destino final o estádio. O adversário não nutria respeito algum para com o oponente. Em vez de abnegação, foco e raça, era o ódio o sentimento que corria pelas veias das gentes que marchavam em vias públicas no Brasil. Não havia, ali, nenhuma demonstração de aceno para conciliação e para compreendimento.

Precisava ser assertivo. Tomar partido, diante daquele transe coletivo. Nunca desfilaria acompanhado de Jair Bolsonaro, Coronel telhada, seus iguais, seus ideais. Embora o atual governo pratique políticas indefensáveis. Apesar de também haver reivindicações válidas por entre os cartazes. Nunca gastaria sola de sapato na saliva ácida de viúvas de uma Ditadura Militar que deixou 434 mortos e desaparecidos. Mau fui capaz de fatigar minhas retinas com a cobertura - ou apologia? - na TV.

Aquela cólera toda acabava por me combalir. Intervenção militar, ir à Cuba, impeachment. As críticas sem profundidade endereçadas aos manifestantes, de forma geral, também não me apaziguavam. O rubor que a tensão causava era um mau a ser expurgado, democraticamente. Era preciso vomitar aquela bílis. E a cerimônia tinha que acontecer no mesmo domingo, dia 15: dia do "Eu vou" - ou do "Não Vou".

Decidi, portanto, jogar futebol. Puxava o ar, partia em corrida, com ambição lacerdista. Ao perder a bola, vociferava impropérios udenistas. Quando me encontrava cercado pela marcação, tinha segundos de exílio, incomparáveis aos anos de sombras pelos quais passaram líderes sociais e políticos até a anistia e a reabertura. Tendo o placar sido alterado ao nosso favor, curtia instantes da cena na qual os adversários "sangravam", verbo usado, inapropriadamente, por Aloysio Nunes, às vésperas do protesto.   

Quando levava um corte ou errava na marcação, suspirava á la janguistas. Ao recuperar a bola e partir para o contra-ataque, exibia um peito inflado e a certeza no sucesso dos prestistas. Para delimitar (extremas) fronteiras, vale ressaltar que tudo foi feito sob a cadeia da legalidade. Diferentemente de militares e da UDN de ontem. Deferentemente de alguns golpistas travestidos de liberais dos dias de hoje. Uma coisa correr atrás da bola ensina: para haver jogo, é necessário quórum e adversário. Não nos cabe liquidar, trucidar, eliminar concorrentes.


Por Helcio Herbert Neto.                                                                 

terça-feira, 10 de março de 2015

Avelinos e Marinhos

A história de Avelino é rememorada por Daniel Aarão Reis no livro "Luís Carlos Prestes - Um revolucionário entre dois mundos". (Reprodução)

As recordações de símbolos populares se esvaecem, de maneira geral, entre os habitantes do território brasileiro. Principalmente fatos e versões ocorridos longe do Centro-Sul. Heróis de outrora ficam renegados aos livros empoeirados ou aos distantes círculos acadêmicos. Quando muito, movimentos, personagens e datas marcantes ganham uma medalha de honra ao mérito; entram em placas de nomes de rua, viram praças, mas não são revividos pelas gentes concidadãs.

Avelino Clementino de Barros. O nome não é reconhecido pela maioria da população brasileira. Ajuda pouco no ato de rememorar se for recordada sua profissão: músico, de um regimento de infantaria de Natal. No entanto, Avelino foi preponderante no levante de novembro  de 1935, um episódio marcante da República. Na década de 1930, apesar da esperança motivada pela chegada de Vargas à presidência, muitas das reivindicações populares ainda eram negligenciadas.

Para agravar a situação, o presidente pôs em vigor a Lei de Segurança Nacional, que intensificou a repressão aos opositores do regime. O quadro de ebulição culminou na insurreição capitaneada por Avelino, em Natal. Posteriormente, Luís Carlos Prestes e o Partido Comunista evocaram as rédeas do movimento, fazendo eclodir rebeliões também no Rio de Janeiro. Nome mais imponente no cenário político nacional, Prestes ficou reconhecido como o líder daquela que ficou conhecida como a Intentona Comunista.

Sem a atitude de Avelino, contudo, as reivindicações não teriam voz. Entre tantas atribuições, cabe também ao jornalismo, mais especificamente aos repórteres, trazer à luz essas histórias. E, nessa tarefa, não há restrições de editorias: existem instantes decisivos na Economia, na Cultura, na Política, na Cidade, no Esporte. Muitas vezes, os personagens são próximos e acessíveis, embora negligenciados. Como o músico de Natal, capaz de mobilizar insurretos.

É em busca de tal resgate que o livro "A Bruxa e as vidas de Marinho Chagas" se projeta. Figura muito presente da mesma Natal de Avelino, a proximidade do ex-lateral da Seleção Brasileira acabou sendo naturalizada, quase vulgarizada. A reação de quem ficava perto do antigo atleta do Botafogo tinha relação com os rumos que Marinho tomara durante as últimas décadas de sua vida. Por mostrar os becos onde o jogador se meteu, a obra é um mergulho na sombria vida dos ex-atletas.

A decadência dos últimos dias, contudo, não faz por desmerecer o trabalho de elucidação das glórias de Marinho Chagas. A fugaz ascensão no futebol nordestino, as inebriantes jogadas ofensivas do suposto defensor, e o reconhecimento internacional pelo atrevimento estão presentes, ao longo das páginas do livro. Ali também estão outras tantas passagens escondidas: a reverência de Bob Marley ao jogador, durante uma turnê do Náutico na América Central, figura entre as mais divertidas.

Embora incomparáveis em amplitude, ambos os casos suscitaram empatia dos potiguares. Em suas respectivas áreas, Avelino e Marinho foram importantes para a vida da capital do Rio Grande do Norte. Em um momento político em que parcela da sociedade brasileira questiona a participação política e social de nordestinos e suas opções eleitorais, é necessário que as jornadas épicas do atrevido atleta e do obstinado militante voltem à tona, rebatendo históricos preconceitos.
Por Helcio Herbert Neto.                                                                 
   

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Entre o céu e o inferno



Não corre, por entre a gente cubana, rios de leite e mel. Nem mesmo um messias de vastas barbas seria capaz de transformar aquele rincón em um Eldorado. Faltam recursos naturais e ocorre, no histórico da ilha, uma reincidência nefanda de barbáries e da gana de atrozes. E, vale lembrar aos desavisados, antes de discussões triviais: não houve personagem messiânico que influiu no curso da História.

Sim, correm meninos atrás da bola. Ou da lata. Ou mesmo da garrafa que, na lúdica imaginação infantil, pode mimetizar o objeto que levanta multidões ao entrar na rede. Embora o beisebol seja o esporte com maior poder de atração junto aos cubanos, bares e restaurantes transmitem, por exemplo, o Campeonato Espanhol, aproximando o trio latino-americano do ataque do Barcelona e os garotos que brincam nas ruas de Havana, sob escassa iluminação.

Agilizam seus movimentos as pessoas que buscam um lugar nas filas para as compras. Utensílios que custam, além de valores em moeda local, horas a fio. A dificuldade de suprimento gerada por um embargo e um regime inverossímeis podem ofuscar os avanços em áreas da Saúde e da Educação, registrados durante a última metade de século? À beira do oceano e ao som da reconhecida música cubana, não deixa de ser uma lástima perder tempo.    

Ligeiros se mostram os representantes do governo norte-americano, em busca de um mercado ignorado desde um distante ano de 1959. Apesar de muitos estadunidenses ainda vestirem capacetes, virarem canhões para a Baía dos Porcos e lembrarem saudosos de Ronald Reagan, a Guerra Fria acabou. Para fortalecer laços comerciais, será preciso fazer concessões. Reconhecer, inclusive, os méritos que residem do outro lado das léguas marítimas que separam ambos os países.

Móveis sãos os movimentos dos muitos militares cubanos espalhados por La Habana, também dando mostras de que aguardam resultados do entrevero entre Kennedy e Kruschóv. A belicosa postura contrasta com as belezas inúmeras da cidade que foi, durante muito tempo, o paraíso e o purgatório das Américas. Contraste semelhante ao da imagem recorrente de um carro da Polícia Militar, exibindo um fuzil a descansar, diante dos mares cariocas. As semelhanças latino-americanas...

Longe da contaminação física que os extremismos costumam causar, repousa a única certeza que vive na ilha: Cuba é só um lugar. Muitas vezes, por mais elementar que pareça, é necessário bradar tal frase. É um território ocupado por uma Havana Velha culturalmente evoluída, por um inebriante gosto de tabaco, por sonhos, por sangue, ou por tudo que homens e mulheres forem capazes de ali construir.  

Havana, Janeiro de 2015.


Por Helcio Herbert Neto.      

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Memória eclipsada


Para ler o som de: Eclipse - Pink Floyd

O acesso aos compartimentos da memória pode ser uma tarefa artística. Não há um inventário estatístico das experiências vividas. Tampouco existe a possibilidade de revistar os momentos para uma análise técnica e isenta. Ao recordar, os fatos são redescobertos, já ensaboados pelos afetos que, de alguma maneira, têm relação com o instante pretérito.

São inúmeros os casos de recordações que escorregam nos sentimentos envolvidos e desaparecem. Diante do avançado do tempo, é bem verdade, as memórias acabam por apagadas por condições alheias aos ambientes afetivos – condições médicas, por exemplo. As emoções, entretanto, também renegam fatos ao obscuro do inconsciente.

Há até mesmo lembranças de um passado recente que são alteradas pela raiva, paixão, descontentamento ou simples negligência que circunscreviam tal episódio. Um lugar que parece mais belo e pessoas que são lembradas como mais desagradáveis são exemplos da ineficácia do inventário da memória.

Quem deslizou os olhos até este quarto parágrafo deve se perguntar qual a relação de tudo isso com o esporte – que é o fio condutor do que aparece nesta página escondida da internet. Já engajado em tratar da abertura da Olimpíada de 2016, houve uma tentativa, de minha parte, de recordar como foi a cerimônia inicial dos Jogos Olímpicos de 2012.  

Ao me imbuir de tal tarefa, fui abordado por um mecanismo da memória que nem pertence à categoria das lembranças apagadas nem às recordações repaginadas. Ainda tinha vivo na cabeça o exato instante em que a chama olímpica foi acesa. Ao som de “Eclipse”, última faixa do disco “Dark Side of the Moon”, do Pink Floyd.

Nada, em minha pueril imaginação, poderia ser mais fantástico do que o supracitado desfecho musical. No entanto, ao pesquisar imagens do evento na internet, terminei por me espantar: sim, é possível algo mais marcante. Ao fim da música da banda londrina, Paul McCartney interpretou “The End”, a também derradeira canção do álbum “Abbey Road”, dos Beatles.

Era a realidade se mostrando mais fantástica que os registros da memória afetuosa. Ao mesmo tempo, foi uma cerimônia espetacular e simbólica sobre a cultura britânica do século passado. Embora seja difícil competir com a influência internacional da Inglaterra, opino: é possível que o Brasil faça uma abertura também muito forte.

O reaparecimento de João Gilberto seria vertiginoso. Reuniões dos Mutantes, dos Doces Bárbaros ou dos sambistas que apareceram a partir do Cacique de Ramos também seriam capazes de tanto. Bandas como Nação Zumbi e Sepultura reúnem admiradores ao redor do mundo. Por motivos óbvios, a presença dos Paralamas na abertura dos Jogos Paraolímpicos seria poderosa.

E esses são apenas alguns exemplos.


Por Helcio Herbert Neto. 

terça-feira, 25 de novembro de 2014

Ascese requerida

Não basta ser razoável. Não basta ser passional. Para a opinião pública, é necessário ser asceta. (Marcelo Sadio/Divulgação)

Fim de ano. Queixas infindáveis formam filas, talvez motivadas pelas contas que eclodirão em poucos dias, no começo do próximo exercício. Talvez pelo acúmulo de querelas, composto nos últimos, longos e sufocantes meses. Cansados de expor as críticas em redes sociais, multidões se aglutinam para submeter as reclamações em busca de repercussão. A procissão caminha rumo a um ente metafísico, poderosíssimo -- a opinião pública.

Talvez este espectro tenha, hoje, o vulto da Igreja no medievo. Ou o poder que os bigodes de Stalin tinham entre os soviéticos no século passado. A opinião pública é o símbolo maior da moral. É o centro de tudo, todos buscam a recepção e a repercussão. Para operar de forma eficiente, distribui-se em agências próximas, nas esquinas. Como as bancárias. E assim como os bancos, reúne fileiras infindáveis em certos (e recorrentes) eventos.

Entre os tantos que ali estavam naquele período perto das festas, havia um pacato cidadão. Como tantos, mas este requer um olhar especial. E não me refiro ao intenso monitoramento das câmeras de segurança. O figurão levava consigo uma calhamaço de papel, pesado e amassado. Reunia ali os argumentos sobre os quais desejava lançar luz. Não tinha a preferência dos atendimentos personalizados e teve que digerir a espessa manhã de espera.

Finalmente, chegou ao atendimento e entregou ao atarefado funcionário atrás do balcão. Este olhou os documentos e os encaminhou à comissão julgadora. Voltou vinte e três minutos depois.

"Infelizmente, suas reclamações foram indeferidas."

"Mas por quê? Todos os argumentos aí estão."

"Todas as reclamações não atenderam o mesmo critério. Tópico 66: ascese requerida", justificou o atendente, apontando para a lista de regras, presa na parede.

O homem que solicitava interpelou, na tentativa de solucionar o problema. Neste momento, uma lágrima rolou pelas suas costas. Embora o condicionador de ar estivesse ligado, o volume de gente consumia todo o frescor do aparelho, deixando na atmosfera somente o calor.

"Os doutos da opinião pública exigem ascese para aceitar reclamações. Veja o caso da sua primeira reivindicação: a fragilidade dos programas sociais do governo! Você quer que eles sejam expandidos", exemplificou, exaltado, o funcionário.

"E qual o problema?", questionou, pacato.

 "Você estudou a vida inteira em colégios particulares. Tem o carro lançado no ano passado. Passou longe de conviver fome", explicou o rapaz da agência. O moço balançou a cabeça, como que não entendendo nada do que vinha do outro lado da mesa.

"Você não pode pedir pelo que não te afeta. Não faz sentido. É incoerente. Seus argumentos são até cabíveis, mas você nunca viveu a miséria. Ninguém aceitaria", continuou o atendente.

"Eu tenho que militar na pobreza, pelo que você está falando."

"Não fale isso! A opinião pública odeia a palavra militância. Sua situação não é das piores. Só falta um documento. É só você voltar com o comprovante de dez anos de risco social."

"Tenho que morrer de fome para que aceitem essa reclamação como verossímil?", perguntou, incrédulo, o senhor. Foi respondido como impaciência.

"Meu caro, você faz o que quiser. Só com o comprovante o pessoal vai aceitar", cortou o funcionário.

"E quanto à outra queixa?", perguntou o requerente.

O jovem começou a folear a reclamação seguinte, com receio que o inquieto rapaz do outro do balcão visse os impropérios que a comissão havia rabiscado, com caneta vermelha, nas páginas do cuidadoso dossiê. Respirou fundo e sentenciou:

"Meu senhor, você reclama aqui dos resultados do seu time de futebol. Mas você não tem o cartão diamante de sócio-torcedor, só foi oito vezes ao estádio assistir aos jogos. E mesmo assim foi usando camisas muito antigas, da década passada. Não contribui com a renda do clube. Não sofre nem acompanha. Apuramos também que você não sabe quando o seu time foi bicampeão nacional. Novamente, portanto, tópico 66."

Faltaram-lhe palavras. Pensou em lembrar que, entre os argumentos, estava a corrupção dos dirigentes. Nos papéis, também justificava a baixa adesão dos torcedores com o aumento do valor dos ingressos. Descartou a tentativa de continuar reforçando a reclamação. A opinião pública é implacável. Antes de sair da fila, balbuciou que o clube era o maior amor de sua vida. Abalado, chegou em casa, ligou o computador e postou em uma rede social ambas as queixas. Duas pessoas curtiram: sua mãe, já idosa; e um amigo seu de colégio, que não via há décadas.

Ninguém comentou. Ninguém compartilhou. Os argumentos caíram no esquecimento.


Por Helcio Herbert Neto.   

    


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Pedagogia do Oprimido e espetacularização da dor

Foto: Marcos Ribolli (Globoesporte.com)

















Em 1968, exilado em algum lugar do Chile, o educador e filósofo Paulo Freire escrevia as palavras "Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor", as mais famosas de sua obra-prima, "Pedagogia do Oprimido". Não me arrisco a resumi-la, pois seria tão simplista que beiraria à heresia. 

Ontem, na Arena do Grêmio, criou-se muita expectativa em torno de mais um péssimo jogo do Brasileirão. O motivo: o goleiro Aranha, do Santos, vítima de racismo por parte dos torcedores gremistas no último dia 28, voltava ao estádio após o episódio e a consequente exclusão do Grêmio da Copa do Brasil. 

Vaiaram o goleiro Aranha no momento em que ele entrou para o aquecimento, como sempre vaiam os goleiros adversários. Vaiaram o goleiro Aranha em cada tiro de meta e a cada segundo angustiante que ele permanecia com a bola nas mãos, como não se costuma fazer. Xingaram o goleiro Aranha de tudo que se pode imaginar, exceto ofensas que pudessem ser enquadradas como racistas - afinal todas as câmeras e microfones estavam virados para as arquibancadas à espera de um suspiro incriminador.

Eu não esperava um pedido de desculpas ou aplausos da torcida do Grêmio ao Aranha, mas esperava menos ainda essa reação carregada de ódio. Frequento estádios desde antes de conseguir andar por contra própria, e o faço até hoje, religiosamente. Sou um dos maiores críticos da atual "ditadura do politicamente correto" que tem infectado todas as esferas sociais, dentre elas - e principalmente - o futebol. Mas eu não acho que "no estádio vale tudo". Não sei qual é o limite, mas sei que a torcida do Grêmio o ultrapassou com bastante folga. 

Não acho - que me perdoe Paulo Freire - que o Aranha queira ser opressor. Nem perto disso. Mas é tratado como tal, e é isso que mais me espanta nessa história toda. O Aranha está pagando por ter sido vítima de racismo.  Está sendo vaiado por ter denunciado um ato criminoso, enquanto aquela jovem que você provavelmente já viu o rosto (o bode expiatório da mídia e da justiça), está chorando e pedindo desculpas em programas de auditório. Quero evitar o maniqueísmo, mas textos de gente grande circularam banalizando o assunto e eximindo a garota de culpa. Diversas vezes o goleiro foi questionado se ia ou não aceitar as desculpas e se aceitaria se encontrar com a tal garota. Como o próprio atleta definiu, "queriam um circo".

Quando Aranha deixou o campo e se dispôs a falar com a imprensa, falou com sobriedade e muita coerência, como tem feito desde o início do caso. Até que uma repórter insistiu em perguntar se "as vaias não eram normais e por que não eram normais". Aranha encarou a repórter por alguns segundos como quem respira paciência e respondeu: "Você sabe que não eram normais e sabe o porquê. Ou você acha isso normal? Acha normal? Que bom, ein?", e se dirigiu ao vestiário de cabeça baixa, enquanto a repórter sorria, pateta, como quem tenta descredenciar um lunático. 

Tenho medo.


Aqui está o vídeo da entrevista coletiva do goleiro Aranha.



Por Beto Passeri.







segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Eram só crianças

Eram só crianças
correndo sem rumo,
flanando sem pouso,
uivando pra Lua.

Eram só crianças
pobres crianças,
num parque tristonho,
espalhando areia
com pés feridos.

Eram só crianças
que não sabiam o dia,
que não sabiam o mês,
que muito pouco sabiam
além das grades.

Eram só crianças
invisíveis e famintas,
que viram uma bola
que as fez chorar.

Eram só crianças
por entre os carros,
nem tão invisíveis,
não mais famintas,
espalhando areia
e
sonhos
e
sorrisos.

Eram crianças
parando o trânsito,
calando buzinas
e
angustiando os grandes.

Eram crianças
com pés feridos
transformando a vida
e
mudando o mundo.





Por Beto Passeri.











sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Às vezes só resta o vazio

Não saberia, de modo algum, dizer quanto tempo teria permanecido desacordado não fosse aquele cutucão. Cutucão forte, apressado, de quem está perdendo a paciência numa tentativa vã de ressuscitar um semimorto. Trabalho cumprido, o estranho sumiu de vista. 

O único som que ouvia, além da preguiçosa batida do próprio coração, era uma voz feminina no português que não entendia. Mas entendia inglês e tinha bom senso, de modo que "final" "estação" e "obrigatório" foram a senha para que se levantasse contra a própria vontade.

Cambaleou não só uma, mas duas vezes antes de ganhar a plataforma completamente vazia. Respirou fundo para tomar consciência, mas a única sensação que teve foi de um machado atingindo em cheio seu crânio. Definitivamente, essa era uma ressaca daquelas. 

Olhou o relógio e nem teve forças para reagir: havia perdido o voo. Havia perdido o voo e precisava subir as escadas para ter alguma pista de onde estava e de qual seriam os seus próximos passos. Tudo, nesse momento, era complexo e delicado.

Cada degrau demandava uma eternidade, e em cada uma dessas eternidades estavam as lembranças de uma noite, um mês, uma Copa. Disseram que não haveria Copa. Que no Brasil as coisas estavam pegando fogo; que a política encobrira o futebol, que a empolgação dos brasileiros não resistira ao cansaço e que não haveria diversão. É bem possível que ele mesmo estivesse flutuando em outra realidade, mas, com seu olhar mais sincero e profundo, não foi isso que viveu. Houve Copa, houve muita Copa, Copa além do que poderia prever. 

E ia se recordando de uns beijos mal estalados, de uns sexos mal transados, de umas conversas atravessadas e de umas amizades que pareceram durar a vida toda. Brasileiros, franceses, ingleses, chilenos, italianos, colombianos, e - quem diria - até argentinos. Todos, ou quase todos, muito simpáticos, explodindo em uma alegria que política, entidade ou confederação nenhuma pode minguar ou tentar carregar os créditos. Uma felicidade plena, quase infantil. 

Finalmente chegara à superfície. O sol se espreguiçava, sonolento, por entre prédios velhos, enormes e pichados. Olhou para sua própria camisa branca manchada de sabe-se lá o quê. Sentiu um alívio tremendo ao lembrar que era campeão do mundo. Alívio que rapidamente foi desmanchado pela indiferença estampada no rosto dos transeuntes. Uma tensão tão grande que o ar poderia ser cortado com faca. Pessoas apressadas, exageradamente objetivas, sem escadas rolantes, sem tempo para sofrer. Como se nunca, nunca tivesse acontecido uma final de Copa do Mundo a alguns metros dali. 

Comprou uma água e sentou-se num banco qualquer na sombra. Em Berlim, em Munique, em Colônia, em Dresden e em todas as outras cidades as pessoas certamente enlouqueciam neste momento. Entristeceu-se. Horas depois todas estariam pegando o metrô, pensou, e esgotando esse assunto a caminho do trabalho, de modo que logo tudo estaria insuportavelmente ultrapassado e igual. 

Tomou um longo gole d'água até esvaziar a garrafa. Sentiu-se muito melhor. Estava a mesma merda de sempre. 

Às vezes - e, por Deus, são tantas - só resta o vazio.



Por Beto Passeri.







terça-feira, 12 de agosto de 2014

Luiz Antônio, favelas e preconceito social

O que muros sociais têm para mostrar. (Natasha Montier/Divulgação)

Para ouvir ao som de "O Homem na Estrada" - Racionais MC's

A estética urbana das favelas e periferias simboliza muito mais do que a sindrômica precariedade nas políticas públicas de habitação no Brasil. Para tantos, as periferias e comunidades carentes são sinônimo de violência e barbárie. Nas vielas e guetos, está escondido o crime, em sua plenitude, pensam eles. Tal relação entre as regiões que enfrentam maiores dificuldades e a criminalidade é uma conclusão automática na cabeça de grande parte das pessoas e esconde o mais vil preconceito social.

Algo parecido com isso (em menor escala, óbvio) acontece quando se fala em Flamengo. As associações recentes entre atletas rubro-negros e narcotraficantes mecanizam ainda mais essas conclusões. O caráter popular do time da Gávea também. Luiz Antônio, volante do elenco do clube carioca, é investigado por relação com grupos paramilitares que controlavam um condomínio do programa Minha Casa, Minha Vida, do Governo Federal, na zona oeste do Rio. Mais uma comprovação para uma conclusão dos simplistas.

Em ambos ambientes -- o time de maior torcida do país e as áreas menos abastadas --, sobrevoa o mesmo mal: o abandono. A favela sofre com o ostensivo contato com um tentáculo do Estado, a Polícia. Militarismo e clima de guerra estão presentes, enquanto educação, moradia e saúde são escassas. A ignorância por parte do Poder Público e da maior parte da abastada sociedade civil gera um ambiente propício para a proliferação de violações. Vale ressaltar, embora a maioria seja de pessoas honestas nas periferias.

Existe uma condescendência muito grande, por parte das autoridades, com as direções dos grandes clubes brasileiros. Isso resulta na presença de personalidades de idoneidade duvidosa na administração das entidades e em grandes dívidas com o tesouro público. Andrés Sanchez, ex-presidente do também popular Corinthians, revelou-se, recentemente, foi acusado pelo Ministério Público Federal por sonegar impostos. Aliás, Andrés tenta se eleger deputado federal em outubro.

A negligência é reproduzida dentro do clube, também com jogadores e comissão técnica. A espiral de ignorância multiplica casos como o de Luiz Antônio. A condição social com a qual o jogador conviveu na vida inteira também o torna mais suscetível a essa convivência com milicianos, traficantes, policiais, políticos e empresários corruptos e corruptores. A estética da comunidade e a confusão turbulência interna no Flamengo, portanto, denotam o abandono e o retrocesso, além de escancarar o preconceito.

Por Helcio Herbert Neto.                                      


domingo, 10 de agosto de 2014

Vã rivalidade

Mais uma guerra que interessa o estabilishment do futebol (Divulgação) 

O que aconteceu na tarde do Dia dos Pais de 2014, dentro Maracanã, foi mais um capítulo obscuro da recente rivalidade entre Flamengo e Sport. Ambos, trajando vermelho e preto (no caso da partida válida pelo Brasileirão, o time do Recife usou, excepcionalmente, branco) seguidos por multidões e colecionadores de títulos. O pernambucano só tem um nacional. E é aqui começa a oposição entre os dois clubes. Em 1987, Zé Carlos; Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo; Aílton, Andrade e Zico; Bebeto, Renato Gaúcho e Zinho foram campeões da Copa União. 

A escalação é um mantra quase tão presente na memória rubro-negra quanto o time campeão mundial de 1981. O torneio nacional foi organizado por uma incipiente liga de clubes -- o Clube dos 13. A dissidência dos principais emblemas brasileiros ocorreu após a Confederação Brasileira de Futebol decretar que não teria condições financeiras de conduzir o principal campeonato do país naquele ano. É importante lembrar desse último ponto. O Sport, por sua vez, ganhou uma espécie de segunda divisão naquele mesmo ano. Vale lembrar que a Copa União não seguiu a ordem classificatória do ano anterior, em gesto arbitrário. 

No entanto, na tentativa de cooptar a iniciativa de vanguarda, a CBF exigiu que os dois campeões se confrontassem. O Flamengo se negou e fez-se esse nó. Ricardo Teixeira, presidente da entidade máxima do futebol brasileiro, que assumiu em 1989, tomou para si a tarefa de prolongar o máximo a briga e usar a libertária independência daquela Copa União como símbolo maior da necessidade de prestar reverência aos cartolas das federações e da própria confederação. Ousados serão punidos. Um dos (tantos) legados malditos de Teixeira foi conseguir a implosão definitiva da Clube dos 13, ao fim de sua administração.

Para incentivar o ódio, por parte dos pernambucanos, foi evocado o discurso contra o Sul Maravilha, eixo Rio-São Paulo que, é bem verdade, peca com tanta frequência por um elitismo, típico no Leblon e na Avenida Brigadeiro Faria Lima. Usou-se também uma tal taça das bolinhas, em um drama tão desnecessário e longo que nem vale citação neste quinhão virtual. Portanto, é uma incoerência fantasmagórica defender, por exemplo, as reformas no calendário ou a criação de uma liga independente dos clubes brasileiros se, ao mesmo tempo, é levantada a bandeira que proclama o Sport como o vencedor de 1987.

Para quem se interessa pelo debate, vale assistir ao documentário "Copa União".

Por Helcio Herbert Neto.                                                       

  

quinta-feira, 17 de julho de 2014

Eterno retorno

Tudo volta. Se houver trabalho, será possível encantar novamente. (divulgação/Governo do Estado do Rio)

Para ouvir ao som de Bat Macumba - Os Mutantes

Somente quando onze senadores trajando ternos sofreram a pior derrota do esporte brasileiro que foi possível enxergar a aurora de novos dias, da glória. Foi diante de uma multidão que representava 10% da população do Distrito Federal e de juras de que nunca mais o brasileiro poderia ser grande, que o destino mesmo era ver os grandes do norte brilhar. Foi há muito tempo. Tanto que todos já esqueceram.

Sessenta e quatro anos quase exatos. A metáfora que compara os jogadores da Seleção Brasileira aos políticos foi publicada na imprensa após a vitória do Uruguai em 1950, na primeira Copa do Mundo realizada em território nacional. Na época, o time de Zizinho, Ademir e Jair tinha a responsabilidade de fincar no seio do Brasil o futebol como elemento da identidade do país. Uma nação ainda sem muita cara, que começava a se urbanizar e que punha nas costas dos jogadores o peso de mostrar quem era essa nação.

Dessa vez, em 2014, o fardo vinha das ruas. As manifestações de 2013 serviram de incentivo para a vitória na Copa das Confederações. A geração que mergulhou nos protestos e fez uma lista de reivindicações teve representação nos gramados da competição-teste para a Copa. No ano seguinte, isso não foi suficiente para a conquista do Mundial. Durante a preparação,a defasagem do futebol praticado aqui foi escondida pela figura de um técnico carismático, pouco atualizado. 

De súbito, esqueceu-se que, na história, os treinadores nunca foram os personagens principais da Seleção. Talvez o detentor do maior brilho tenha sido Felipão, o mesmo que tomou sete gols contra a Alemanha. Scolari também liderava o Brasil quando este venceu os germânicos na final da Copa de 2002. Derrocada dos tricampeões desencadeou uma série de transformações estruturais no futebol alemão. Pouco mais de 12 anos, aqui estavam eles, erguendo a taça do mundo.

Outros sinais do eterno retorno do futebol, esporádicos, apareceram durante o segundo Mundial em solo brasileiro. Júlio César, questionado, saiu da Copa imaculado. Os erros de 2010 se desmancharam na memória quando o goleiro foi herói na disputa dos pênaltis contra os chilenos. Sim, a mesma seleção que o time de Dunga teve que enfrentar nas oitavas da competição na África do Sul. Neymar parou de brilhar em 2014 por problemas graves de saúde, assim como Ronaldo em 1998. A idade de ambos: 22 anos.

Podem ser coincidências. Isso sempre é possível. Esse será o argumento de oportunistas, que bradam o apocalipse do futebol brasileiro. A última passagem recorrente no histórico da Seleção Brasileira é quase final na discussão com os que, para arrebatar a audiência, dizem que esse esporte nunca mais terá o Brasil como ícone transnacional: é tradicional, após grandes traumas há o ressurgimento.

Foi assim após a batalha campal entre brasileiros e húngaros, em 1954, depois das discussões sobre a divisão dos prêmios dentro do time de Sebastião Lazaroni, em 1990, e na sequência da derrocada diante dos franceses, em 1998. Para destilar a frustração, todavia, é preciso trabalhar.

por Helcio Herbert Neto.                                           


quinta-feira, 19 de junho de 2014

Eu sempre preferi a 5, o coração

Foto: Lance!press









Não sei se estava no meu DNA ou se aconteceu por circunstâncias alheias à minha vontade, mas eu sempre preferi a camisa 5. Claro que, quando se é criança, parece mais divertido driblar o time inteiro e colocar a bola na rede; você é "o cara", você é o Ronaldinho, o Ronaldo, o Messi dos campinhos discretos transformados em estádios lotados pela fértil imaginação infantil. As pessoas ficam de pé quando você pega na bola, você estampa as capas de revistas, as manchetes de jornais, os jogos de videogame e tudo mais.

Ninguém sonha com um carrinho bem dado e uma saída de jogo decente, sem grandes invenções. Eu demorei um pouco a aceitar, mas eu gostava desses caras. Os caras que são um pouco os "vilões" do futebol. Que quase sempre precisam dispensar sorrisos e boas maneiras para serem respeitados. Que, assim como os goleiros, destroem as mais belas criações. Que têm que correr o dobro e jogar dez vezes mais para serem aplaudidos. Homens que já foram acusados de não jogarem nada e que ganharam partidas e títulos com cusparadas e pisões nos calcanhares (os politicamente corretos se contorcem). Muitas vezes são os capitães, líderes de grupo e responsáveis até mesmo por frear o alto nível de gracinha dos craques do próprio time. 

Gosto do futebol marginalizado e passional, como ele é em sua essência. Sou apaixonado pela Libertadores e apenas mais um espectador da Champions League. Muito disso é pura fantasia, mas acontece que sou completamente maniqueísta nesse sentido. Quase sempre vejo os ricos e badalados como "o mau" a ser vencido, na base da superação, pelos mais fracos e desacreditados - o "bem". Um clichê que nunca morre. 

Nem sempre é possível fazer essa distinção tão claramente, mas aqui, na Copa do Mundo no Brasil, eu tomei meus partidos. Pode ser que essa Copa não seja a Copa das Américas, como andam dizendo, mas uma linda história já foi escrita ontem com a vitória do Chile que eliminou a Espanha. Hoje, uma não tão significativa, porém não menos importante com o Uruguai derrotando a Inglaterra.

A Inglaterra, que inventou o futebol, fez cara feia para jogar no calor de Manaus. Perdeu para a Itália. Hoje, num clima londrino em São Paulo, também foi derrotada. Derrotada pelo talento de Suárez, mas principalmente pela entrega dos uruguaios, que não perderam uma dividida. Os mimados meninos da Rainha precisam comer muito mais grama do que isso.

A Espanha, que "reinventou" o esporte bretão com o seu insuportável Tiki-Taka, levou um verdadeiro baile do Chile, que também não perdeu uma dividida. Apatia, salto alto ou fim de uma Era - pouco importa. Os chilenos não tinham nada com isso e precisavam revidar trezentos anos de exploração e a recente apropriação do apelido "La Roja" (veja aqui o vídeo). Foi uma das vitórias mais bonitas que me lembro em Copas do Mundo.

Tirando Itália e Alemanha, que são clássicas, torço contra qualquer europeu. Sobretudo depois desses anos negros em que decidiram que espanhóis jogavam mais futebol que todo mundo. Agora a Espanha ficará mais uns cem anos sem ganhar nada e os coxinhas precisarão achar outra "escola" para admirar; quem sabe a Bélgica seja a próxima.

Como disse ontem no bar a um chileno emocionado com a vitória sobre a Espanha, 'enquanto não devolverem nossa prata e nosso ouro, continuarão apanhando na América'.



Por Roberto Passeri.













Garra charrúa

Historicamente, não é a simples habilidade que diferencia os uruguaios (twitter oficial da Associação Uruguaia de Futebol)

Não vi Obdúlio Varela. A mitologia do futebol conta que, após a vitória do Uruguai na final da Copa do Mundo de 1950, o capitão da Celeste foi às ruas do Rio e se espantou com a reação dos brasileiros. O sofrimento de uma nação inteira fez com que ele se sensibilizasse e chegasse até a dizer que, se soubesse da dimensão da dor do povo amigo, não levantaria a taça. 

Continuou companheiro de Zizinho, Ademir e dos outros derrotados por toda a vida. Entretanto, eu vi Luís. Luís enfermo, que dias atrás estava na cadeira de rodas. Suarez companheiro de time de Philipe Coutinho, melhor brasileiro da temporada europeia que poderia ser uma alternativa para o Brasil, caso Felipão o tivesse convocado para a Copa do Mundo.

Um homem capaz de reviver a garra charrúa, o espírito dos índios que ocupavam o território que hoje é da população Uruguaia. Diferentemente dos outros latino-americanos campeões mundiais, na mística celeste não é a habilidade -- ou o futebol arte -- que os faz diferentes dos demais. É o coração. Um exemplo: não há meias de relevância na equipe uruguaia que joga o campeonato do mundo no Brasil. 

Com o avanço da idade de Diego Forlán, a armação tática de 2010 não pôde ser revivida.Tampouco existe um virtuoso, hábil e faceiro como Neymar, camisa 10 da seleção da casa, ou como Messi, craque da vizinha Argentina. O que ocorreu na segunda rodada da primeira fase da Copa no Brasil em campo foi um exemplo de força, gana e vontade de vencer. Virtudes típicas do futebol uruguaio.

Embora a Inglaterra tenha feito um bom jogo, foi para Luís Suarez que os brasileiros escolheram torcer nesta tarde fria em grande parte do centro-sul do país-sede. Como em 1950, existe condescendência. Nos sensibilizamos com a superação do maior nome do Uruguai. Ao sair do estádio do Corinthians, em São Paulo, os torcedores e jogadores uruguaios foram recebidos com a irmandade de um rival em potencial. Assim também fez Obdúlio, na primeira Copa disputada em solo verde e amarelo. 

Por Helcio Herbert Neto.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Verdades subterâneas




João Saldanha assumiu o comando técnico do Botafogo no fim da década de 1950. Portanto, há mais de 50 anos. Depois de todo esse tempo, algumas das constatações do treinador e jornalista podem estar obsoletas -- pensaria um desavisado. Nada de substancial mudou no futebol: as regras, as hierarquias e a corrupção moral são as mesmas da época que as ideias do pensador de vanguarda do futebol treinava uma das maiores equipes de todos os tempos.

Em "Os Subterrâneos do Futebol", João Sem Medo escancara a rotina de uma concentração e, a partir do convívio com Didi, Garrincha, Nilton Santos, Paulo Valentim, Amarildo e outros jogadores, mostra as hipocrisias e banalidades que circunscrevem todo o universo do futebol. Os preconceitos desses ambientes estão ali naquelas páginas, desnudos.

Entre os diagnósticos mais precisos do Saldanha está a importância da cultura afrodescendentes para o esporte do povo. De acordo com o técnico, a presença de negros é imprescindível para o futebol. Nos campos e nas arquibancadas, eles são o início do processo de popularização do jogo e o meio pelo qual as competições, atletas e instituições ganharam importância mitológica.

Já não há mulatos e negros nas plateias bacantes do nosso jogo como antes. Nem numericamente, nem simbolicamente. Uma lástima. Também não haverá representação da cultura afrodescendente durante a Copa. A flexibilidade das concentrações também é um dos panfletos distribuídos pelas linhas do livro. Com certeza João Saldanha aprovaria a decisão de liberar Oscar para visitar o filho recém-nascido, tomada por Felipão.

Mesmo com a visita das editoras aos arquivos em busca de títulos de futebol, "Os Subterrâneos do Futebol" não foi reeditado recentemente. Talvez, nem hoje em dia, sejamos capazes de digerir o intragável João Sem Medo. Contudo, vale a leitura. Busque nos sebos, aconselho.

Por Helcio Herbert Neto.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

Aos derrotados



 Para quem perde, a Copa do Mundo também é inesquecível. (site oficial do Atlético de Madrid)

 

Para ouvir ao som de Beck - Loser

Toca uma música batida. De cima, chegam os outros barulhos que vão ficar na memória daqueles que não conseguiram ascender ao Olimpo dos vencedores. A presença das autoridades ronda os outros, os que alcançaram. Os poderosos negligenciam quem vem do lado oposto, cabisbaixo, após ter tentado – ou não – tudo o que era possível. Bem como a multidão, que ignorará aqueles homens em todos os dias a partir de agora.

Geralmente é “We are the Champions”, do Queen, a canção que serve de tema para o sofrimento inicial dos derrotados. Não é uma música fraca, pelo contrário. Por ser tão repetida, contudo, tornou-se enfadonha. É reproduzida nas finais de quase todos os campeonatos do mundo. Muitas vezes, em mais de uma competição do mesmo país em uma só temporada.

E é o começo da dor do time derrotado. O vencedor nem nota. É a hora do êxtase, do prazer supremo que é consequência de um esforço de anos, décadas. Dedicação parecida com a apresentada pelos oponentes, que nunca serão reverenciados. Seria assim com o Atlético de Madri, caso eles não tivessem erguido o troféu nacional na Espanha.

Aconteceu com a Alemanha de 2002. Desafio quem, por distração ou falta do que fazer, veio parar nesse texto, elencar cinco jogadores germânicos que estavam em campo quando o time brasileiro ganhou a Copa. Como todos os vice-campeões, até a véspera da decisão do mundial, eles tinham os mesmos méritos que aqueles que entraram para o panteão ícones do esporte. Hoje, estão distantes da recordação.

Em vez dos tapinhas nos ombros, eles encararão o escárnio ou a pena, todos os dias, das pessoas que por sorte ou azar os encontrarem nas ruas. No mínimo, um sorriso no canto de boca. Barbosa, goleiro da Seleção de 1950 sabia disso. Zico, o personagem que perdeu um pênalti contra a França, em 1986, e não conseguiu empatar o jogo contra a Itália, 1982, também deve saber o quanto dura essa chaga.

Isso para ficar somente com os casos brasileiros. Daqui a menos de uma semana, começa talvez a maior celebração dos derrotados do esporte. Diferentemente da Olimpíada, único evento do tamanho da Copa, somente uma equipe representando uma nação conseguirá o ópio da vitória diante da cobertura midiática do mundo inteiro.

Alguém já disse que o futebol é a coisa mais importante entre as menos importantes da vida. Confesso que não sei a identidade do autor. Posso, entretanto, concluir que ele tem a perfeita dimensão de um derrotado: porque somente quem foi vencido nos campos tem a ideia de como é difícil conviver com a certeza de uma meta agora inalcançável – com o ar sufocante da derrota.

Por Helcio Herbert Neto.