quarta-feira, 24 de julho de 2013

A hora e a vez de Alex Stival: a trajetória de Cuca e a oportunidade de ouro do futebol brasileiro hoje à noite, no Mineirão.



Alex Stival, o Cuca, é o principal personagem do futebol brasileiro atual. Personagem no sentido dramatúrgico mesmo, como herói de uma jornada narrativa. Nesse sentido, não há enredo mais rico para se narrar no futebol brasileiro nos últimos anos.

Cuca foi um bom jogador, atacante de gols decisivos, como o que deu o título da Copa do Brasil de 1989 ao Grêmio, time por que jogou mais tempo. Jogou também por outros clubes grandes do Brasil, participou de uma convocação da seleção brasileira, teve breve passagem pela Espanha e pendurou as chuteiras em sua cidade natal, jogando pelo Coritiba. A partir daí, Cuca se formou em Educação Física e Ciência do Esporte. Estudou um bocado antes de dar o pontapé inicial em sua carreira de treinador, dirigindo o Uberlândia. Seu primeiro trabalho interessante foi deslocar o Goiás da lanterna para a nona posição do Brasileirão-2003 em apenas um turno. Esse trabalho foi, digamos, a entrada definitiva em sua jornada do herói.

O São Paulo de 2004: indícios de tragédia e glória

O primeiro grande desafio foi realmente grande. Foi a primeira vez que exibiu seu trabalho num clube grande e foi também a primeira vez que conheceu uma derrota doída. À frente do São Paulo, Cuca chegou às semifinais da Libertadores em 2004 e foi eliminado pelo até então incógnito Once Caldas, da Colômbia, que depois arrebataria a taça sobre o Boca Juniors, em plena Bombonera, e perderia o título mundial para o Porto de Mourinho, Deco e Carlos Alberto. À época, Cuca já demonstrava os primeiros traços de sua personalidade intensa. Extremamente inteligente e corajoso em suas decisões de jogo, visionário na contratação de jogadores promissores, Cuca parecia um tanto irascível fora das quatro linhas, aparentando um certo excesso de pulsação que talvez fosse a ansiedade do gênio em queimar etapas de sua trilha, ou simplesmente imaturidade emocional para a envergadura de sua posição. Fato é que Cuca se desgastou com a diretoria do São Paulo e foi demitido, deixando como legado a contratação de jogadores como Danilo e Grafite, até então ilustres desconhecidos, e a montagem da base do time que, no ano seguinte, conquistaria a mesma Libertadores da América e o Mundial sob comando de Paulo Autuori.

Grêmio, Coritiba, Flamengo, São Caetano: itinerância e ressaca

Depois Cuca teve uma meteórica e fracassada passagem pelo Grêmio em 2004. Saiu do clube depois de um mês, incapaz de desfibrilar um péssimo time que acabaria sendo rebaixado à série B meses depois. A seguir, em 2005, Cuca assumiu um dos piores times da história do Flamengo e permaneceu apenas quatro meses no cargo. Outros assumiriam a cadeira até que o Flamengo escapasse do rebaixamento na bacia das almas sob comando de Joel Santana. A ressaca do São Paulo parecia não lhe sair da cabeça, e Cuca não engrenava um bom trabalho nem era convidado a assumir times bem montados. A pedreira seguinte foi o Coritiba, pouco menos de um mês após sair do Flamengo. Por lá permaneceu cinco meses, até perder três partidas seguidas e deixar o posto. O trabalho seguinte ratificava a impressão de que Cuca, tão brilhante em seu começo de carreira no São Paulo, era mais um cometa entre os técnicos brasileiros. O São Caetano começava a decair de sua fase áurea no começo do século XX, perdendo a base do time que fez campanhas incríveis, como o vice-campeonato da Libertadores em 2002, e Cuca não foi capaz de encontrar soluções, saindo mais uma vez de um clube sem ser brilhante. Em 2006, o São Caetano seria rebaixado à série B. Havia uma sombra sobre Cuca ou ele simplesmente era um daqueles one-hit wonders, apelido atribuído no cenário musical aos artistas que conseguem emplacar apenas um grande sucesso de público em suas carreiras? 

O Botafogo de 2007: a inspiração e o desastre

A resposta começaria a vir no ano de 2006, quando um Cuca cada vez mais cismado, nervoso, cheio de tiques e repleto de soluções criativas na montagem de times, um Cuca revigorado, enfim, embora ainda um tanto sorumbático, assume um clube que era sua imagem e semelhança, ou vice-versa: o Botafogo. Mais uma vez Cuca apostou em sua capacidade de perceber talentos onde outros não enxergam e investiu suas fichas em Lúcio Flávio, que havia passado por alguns clubes sem grande destaque, Zé Roberto, que também havia rodado sem brilho, Jorge Henrique, revelação do Naútico que havia defendido cinco clubes em cinco anos de carreira profissional, e o brilhante e errático Dodô, que dois anos antes havia caído nas graças da proverbial torcida alvinegra. Botafogo, Cuca e seus principais jogadores eram então apostas arriscadas, cheias de poréns, que encaixaram como música. Por um ano inteiro (2007), o Botafogo jogou o futebol mais vistoso do Brasil, um time de toques rápidos, intensa movimentação, centrado no talento dos seus jogadores. Um belo time, de futebol delicioso, lindos gols e... azares fragorosos.

Esse belo time perdeu o título estadual para um Flamengo burocrático, caiu nas semifinais Copa do Brasil diante de quase 65 mil pessoas no Maracanã graças à atuação desastrosa da bandeirinha, um frango ridículo do goleiro no final do segundo tempo e, dizem as más línguas, ao azar que ronda Cuca. O Botafogo de 2007 liderou o Campeonato Brasileiro da sexta à décima oitava rodada, mas perdeu fôlego e encerrou a campanha em nono lugar, algo, aliás, que depois seguiria sendo a sina do clube, com ou sem Cuca. E ainda judiou de sua torcida perdendo a classificação nas oitavas-de-final da Copa Sul-Americana em Buenos Aires para um River Plate combalido pela expulsão de dois de seus jogadores durante a partida. Cuca pediu demissão, mas assumiu novamente o cargo uma semana e meia depois. Levou o time à nova decisão do estadual, mais uma vez perdida para o Flamengo, ocasião em que se deu mais um dos episódios que reforçariam a letra escarlate de sua personagem, a sombra do azar e da superstição: Cuca, o então presidente do Botafogo, Bebeto de Freitas, e os jogadores de pé diante das câmeras protagonizando a reclamação que ficou conhecida como o chororô botafoguense. O futebol cativante e a disputa à vera de competições que o Botafogo nem sonhou disputar nos dez anos anteriores não foram suficientes para a torcida e a diretoria do clube decidiu demitir Cuca. O ônus ficou para a história do treinador, sem que os louros de tamanha façanha fossem devidamente creditados em sua conta.

Novas itinerâncias, o primeiro título e o primeiro milagre

Cuca teve passagens ruins por Santos e Fluminense em 2008. Mais uma vez, a síndrome de um grande trabalho que acabou sem título e sem o devido reconhecimento parecia assombrar sua carreira. Quando, em 2009, Cuca ganhou seu primeiro título, comandando o Flamengo contra o Botafogo na decisão do estadual – a terceira seguida vencida pelo time da Gávea sobre o rival -, parecia que o horizonte clarearia. Cuca vinha de um título e ganhava um reforço importante, Adriano Imperador, para disputar o Brasileirão. Mas não. Uma campanha pífia e desentendimentos com os principais nomes do elenco fizeram-no perder o cargo. Dois meses depois, ele assume um Fluminense em estágio terminal na série A. Para livrar o tricolor do rebaixamento, seria preciso, segundo matemáticos estimavam à época, reverter um quadro de 98% de possibilidade de descenso. Cuca não apenas operou o milagre, montando das cinzas das Laranjeiras um time interessante que venceu praticamente todas as partidas restantes e ainda chegou à final da Copa Sul-Americana, onde foi batido pela LDU. De novo, Cuca havia montado um time competitivo e de futebol interessante de onde ninguém esperava nada, chegado a competir em alto nível com esse time. E, de novo, Cuca colheu créditos minguados pelo feito. Quatro meses depois de sacramentar a permanência incrível na série A, o Fluminense demitiu o treinador por maus resultados no Estadual de 2010.

O nascimento do personagem e o flerte com o desastre

O tempo e os castigos do destino não endureceram Cuca, mas tornavam-no, pouco a pouco, tanto menos intempestivo quanto mais apegado às suas manias e convicções. Tornavam-no um verdadeiro personagem, com trajetória tão sinuosa quanto especial, cheia de dramas e injustiças, episódios pitorescos e fantásticos. Cuca passava a ser um herói contemporâneo, contraditório e cativante. Em 2010, assume o Cruzeiro. Novamente, fez de um time desacreditado uma equipe de encher os olhos. Apostou de novo em sua sensibilidade para talentos desconhecidos e montou um esquema envolvente, bem treinado, de toques rápidos, marcação por pressão, intensa movimentação e vocação ofensiva. O time foi vice-campeão brasileiro. Em novembro já havia garantido com antecedência a classificação do Cruzeiro à Libertadores do ano seguinte, na qual comandou uma das campanhas mais impressionantes vistas até então na primeira fase do certame, com direito à goleada de 5 x 0 num Estudiantes que dois anos havia surrupiado o título do celeste belorizontino em final disputada em pleno Mineirão. Mais uma vez, porém, havia uma pedra no meio do caminho e Cuca cumpriu sua sina. Nas oitavas-de-final, após ter vencido o jogo de ida por 2 x 1 em Manizales, Colômbia, o Cruzeiro de Cuca perdeu por 2 x 0 em Sete Lagoas para o Once Caldas, aquele mesmo que lhe havia tirado a chance de disputar o título da Libertadores em seu primeiro grande trabalho, em 2004, com o São Paulo. Mais uma vez, o eterno retorno de Cuca ao destino duro o fez sair achincalhado de um Cruzeiro que montou com maestria, chegando muito perto do êxtase e batendo na trave. Sem perdão, o futebol. No mesmo ano, repetindo outras ocasiões na trajetória stivaliana, o Cruzeiro deixado por ele se livraria do rebaixamento na última rodada com goleada de de 6 x 1 sobre o arquirrival Atlético, então dirigido por... Cuca!

A chegada ao Galo: histórias a serem rescritas

É que ele assumira, meses antes, a direção de um Galo ameaçado pelo fantasma do rebaixamento. Não era a primeira vez que Cuca passava por isso, aliás. O trabalho começou como um verdadeiro causo, mais um na trajetória do herói. O presidente do Atlético, Alexandre Kalil, procurava um treinador para o time após demitir Dorival Júnior em razão da péssima campanha na série A. Nem passava por sua cabeça o nome daquele que havia sido defenestrado meses antes pelo arquirrival. Foi o filho do presidente que o convenceu de que Cuca era o nome certo. “Quem pode conhecer melhor o time do Galo do que um técnico do Cruzeiro?” foi a pergunta de filho para pai que selou o destino de Cuca. O começo foi trágico: seis derrotas em seis partidas e um pedido de demissão revertido pelo próprio elenco, que insistiu na permanência do comandante. Ele permaneceu, com a anuência de Kalil, e consegui fazer grande campanha, mais uma vez salvando do rebaixamento quem já não parecia capaz de se salvar. A derrota para o Cruzeiro, em jogo que poderia ter decretado o rebaixamento do arquirrival que dirigira até o começo da mesma temporada foi um duro golpe para o clube e para Cuca. Mais um.

No primeiro semestre do ano seguinte, Cuca se sagraria bicampeão mineiro. E seria eliminado precocemente na sempre madrasta Copa do Brasil. Mas Cuca e Kalil houveram por bem mudar o curso do destino, e foram buscar alguns nomes fortes e outros desacreditados no mercado. Victor foi um investimento pesado, era um goleiro valorizado por grandes campanhas no Grêmio e convocações para seleção. Jô havia sido afastado do Inter e rondava aquela duvidosa nuvem de nomes que ninguém sabe se valem a aposta, mesmo caso de Ronaldinho, recém-saído do Flamengo após polêmicas extracampo, péssimas atuações e uma vergonhosa eliminação na Libertadores. Cuca estava transformado. Cada vez mais sereno, embora cada vez mais cheio de tiques e manias, ele foi montando, pouco a pouco, o melhor time de sua carreira, um dos melhores times produzidos no Brasil no século XXI e possivelmente o melhor time da história do Atlético. Com futebol extremamente corajoso, envolvente, rápido e comprometido, o Atlético jogava mais bola, mas pontuava menos que um Fluminense do tipo relógio-suíço, e acabou ficando com o vice do Brasileirão, seis pontos atrás do time de Abel Braga. Mais uma vez, batia na trave a redenção de Cuca.
  
Em 2013, Cuca se sagrou tricampeão mineiro e comandou o Atlético na campanha mais sensacional que vi um time brasileiro fazer na Libertadores. Tudo o que sempre pareceu ser o destino de Cuca e do Atlético, as derrotas doídas, as bolas aventureiras cortando sonhos pela raiz, a falha da arbitragem a favor do adversário, a síndrome de vítima do azar, tudo foi sendo drenado pela incrível intensidade do time, jogando um futebol corajoso, mesmo nos momentos mais críticos, como, por exemplo, no jogo de volta contra o Newell’s, no Estádio Independência. Foi o próprio Kalil quem disse, após essa vitória antológica, que eles estavam mudando a história do Atlético. Cuca também está mudando a sua.

Um sujeito diferente

Mudou sua postura diante dos fatos, se tornou um cara mais seguro de suas virtudes e de seus defeitos. Passou a ser mais espontâneo, mais honesto, tirou o peso sempre presente em seu semblante. Hoje é inegavelmente o melhor treinador em atividade no futebol brasileiro. Mais que isso: carrega aquela imanência dos gênios, algo excêntrico, algo profundamente concentrado, alguma coisa em sua figura que o desiguala dos demais. Há gênios, no futebol e na vida, que são fenômenos de autoconfiança, atravessam ambientes (no caso do futebol, gramados) derrubando tudo em volta sem pestanejar. Vi alguns assim no futebol, Romário sendo o maior deles. Há também os gênios que são aéreos, excêntricos, muitas vezes inconstantes, quase sempre pouco carismáticos. Ronaldinho é assim, Messi também. E há os que carregam uma letra escarlate, uma marca indelével do peso do mundo sobre suas costas, certa dor ou angústia no semblante, impaciência exponencial, uma inquietude que os obriga a se alimentar de grandes mudanças, o que volta e meia os leva ao fracasso. Às vezes, uma figura assim leva anos para encontrar um tempo e um lugar onde possa desenvolver suas virtudes com mais serenidade. Às vezes, nunca encontra e vaga perdida em sua própria ebulição interna. Quando um gênio como esse murcha em seus fracassos, a história é punida com lacunas. Quando desabrocha, é escrita em negrito.

Lembro de ter percebido esse caráter em poucos personagens do futebol. Telê era um deles, talvez o maior. Levou muitos anos para que pudesse receber os créditos que mereceu ao longo dos anos, quando montou o Fluminense campeão brasileiro de 70 (Torneio Roberto Gomes Pedrosa), o Atlético campeão brasileiro de 71, o Grêmio campeão gaúcho de 77, após oito anos de hegemonia colorada, ou quando montou um dos times mais brilhantes da história do futebol, a seleção de 82, duramente punida por Paolo Rossi na tragédia do Sarriá. O estigma nublou suas conquistas e a poesia de sua filosofia, que atribuía pouco valor à vitória pela vitória, ao ganhar a qualquer custo. Só quando conquistou todos os títulos que lhe estavam disponíveis pôde usufruir do reconhecimento, o que pouco lhe valia internamente, porque mesmo depois de ganhar, por exemplo, quatro títulos internacionais em um ano pelo São Paulo (Libertadores, Mundial, Recopa e Supercopa de 1993), Telê seguia mastigando violentamente seu chiclete, cerrando as sobrancelhas à beira do campo e procurando onde estava a brecha para a nova transformação no que já parecia perfeito aos olhos dos mortais.

Cuca me passa uma sensação parecida quando o vejo em ação. Não quero dizer, com isso, que Cuca seja Telê. Quero dizer que algo em Cuca me escapa à razão estrita, como escapava em Telê e como escapou em raríssimos personagens que conheci na história recente do futebol. Fora o comportamento sempre inquieto, Cuca montou um grande time, desenhou e regeu um futebol há tempos esquecido em solo brasileiro. Prestou um serviço inestimável à tradição do nosso jogo com este Atlético que hoje joga a sorte contra o Olimpia, no Mineirão lotado. É preciso “apenas” ganhar por dois ou mais gols de um dos gigantes do futebol sul-americano. Será um fio desencapado, mas é possível. Ganhando ou perdendo, hoje e sempre, seguirei acreditando que Cuca pode se tornar um dos maiores treinadores da história do nosso futebol. O jogo brasileiro precisa se reencontrar, precisamos nos religar à tradição que nos levou a sermos o que somos. A seleção brasileira dirigida por Felipão na Copa das Confederações deu um passo firme, mas sem dúvida Cuca é o artífice maior desse processo em solo nacional. Apesar de não ser torcedor do Galo, apesar de ser fã do jogo de fibra e milonga sul-americano e não ser fã de Ronaldinho, apesar de tudo isso, hoje vou torcer para o Galo como nunca torci para outro time - fora o meu, claro - antes. O título pode virar uma chave dentro de Cuca, quem sabe pode fazê-lo desabrochar definitivamente. Se isso puder acontecer, a final de hoje é uma oportunidade de ouro na história do futebol brasileiro.


Por Bruno Passeri. 

terça-feira, 23 de julho de 2013

A cartomante rica e os arrota-peru: a liderança do Botafogo, Juninho no Vasco e o castigo ao Fluminense.


Estaria arrecadando uma nota no cenário atual a cartomante que, no começo do primeiro Campeonato Brasileiro de pontos corridos, em 2003, tivesse lido no tarô que Botafogo e Coritiba dividiriam a liderança do campeonato dez anos depois. E seria rica atualmente a mesma vidente se pudesse ter lido entre as cartas que os líderes contariam com Seedorf, o então promissor holandês que entrava aqui e ali no lugar de Rui Costa, Rivaldo e Fernando Redondo no meio-campo do Milan que acabava de ser campeão italiano, campeão da Copa dos Campeões da Europa (era o nome da UEFA Champions League) e vice-campeão mundial para o Boca de Tévez e Iarley, e com Alex, que começava a dar sinais de amadurecimento assumindo a 10, ao lado de Zinho, no meio-campo de um Cruzeiro campeão estadual e da Copa do Brasil e que assumia a liderança do Brasileirão na oitava rodada para perdê-la apenas na décima sexta e na vigésima oitava para o Santos de Robinho e mantê-la pelo restante das 37 rodadas (naquela época, com 24 times, o campeonato tinha 46 rodadas, das quais 39 lideradas pelo time comandado por Luxemburgo), sacramentando a conquista da chama Tríplice Coroa (Estadual, Copa do Brasil e Campeonato Brasileiro na mesma temporada).

Embora o Coritiba tivesse até feito um bom ano de 2003, conquistando a quinta colocação no campeonato e assegurado vaga na Libertadores, não era exatamente um hábito dos coxas-brancas frequentar esse ambiente na tabela. E o Botafogo ainda não sabia, na metade de 2003, quando a cartomante hipoteticamente tirava seu tarô, se conseguiria o acesso à primeira divisão do futebol nacional jogando a série B daquele ano. Portanto, supor que dez anos depois esses times estariam onde estão seria um exercício de vidência extremamente apurada, o que nos dias atuais sempre pode render uma boa grana.

O que absolutamente significa dizer que Botafogo e Coritiba estejam por cima da carne-seca, pelo contrário. Precisam afirmar suas ascensões com títulos relevantes, que não ganham há pelo menos duas décadas. Em todo caso, parecem querer mudar, nos últimos anos, o conceito sobre si mesmos. O Coritiba evoluiu muito depois do trágico descenso de 2009. Montou times competitivos, fortaleceu o relacionamento com seu torcedor, disputou duas finais seguidas da Copa do Brasil (bateu na trave o tal título relevante), ficou sem a vaga na Libertadores em 2011 por um triz e segue habitando a primeira metade da tabela com mais frequência que a segunda. O Botafogo, a seu lado, vem desde o intrigante caso Cuca, em 2007, salvo alguns lapsos, montando times interessantes, namorando vôos mais altos e morrendo na praia. Desde que Seedorf chegou, porém, algo parece ter mudado na filosofia do clube sobre si próprio. Há dois anos não se ouve no noticiário do Botafogo as auto-referências proverbiais, as mandingas, o “tem coisas que só acontecem...”. Ouve-se falar sobre treino, futebol, vitórias, objetivos, ativação do (difícil) relacionamento com sua briosa torcida, e assim por diante. Falta carimbar a faixa.

Se a tal cartomante pudesse prever, sem tarô, que o barco do Vasco faria água depois de alguns anos de arroubos euricanos, seria mais dedução que vidência. Mas o Vasco é o Vasco e, ao contrário do Botafogo e do Coritiba, acaba carimbando faixas de um jeito ou de outro. A mais importante delas no período recente foi justamente contra o Coritiba, na Copa do Brasil de 2011, título que havia batido na trave em 2006, contra o Flamengo. Em 2012, a unha de um goleiro iluminado e a bola aventureira arrematada nos acréscimos tirou o Vasco de uma ótima campanha na Libertadores. “É o destino”, alguns diriam, mas talvez fosse preferível acreditar que os deuses do futebol sul-americano, sempre cheios de caprichos, mas raramente errados, souberam premiar a entrega e o talento do Corinthians naquele ano.

Da mesma forma que não é o destino que trouxe Juninho de volta à São Januário para a última missão de sua longa e vitoriosa carreira. Um ídolo do porte de Juninho, um dos últimos contestadores em atividade no futebol brasileiro, volta à colina para travar uma batalha que ainda acredita ser justa e válida: liderar um desorientado Vasco da Gama a permanecer lá de onde jamais deveriam tirá-lo. Pode-se acreditar no tarô, na física quântica ou seja-lá-que-diabo-for, mas calhou de a missão de Juninho começar justamente por um confronto metonímico com o Fluminense. Os ventos querem soprar a nau vascaína para mares aos quais ela não pertence, assim como o Fluminense quis assumir um lugar histórico que não era o seu no mitológico Maracanã. O Vasco, primeiro campeão do estádio, foi premiado com o lado direito das antigas cabines de rádio. Foi uma conquista histórica dentro de campo, não uma canetada. Por quase sessenta anos ali permaneceu sua imensa torcida nos clássicos, mas agora é a torcida do Fluminense quem deve ocupar a área. Juninho chega, então, com a missão de recolocar o Vasco em seu devido lugar, na História e no estádio. E o faz com genialidade e alma, arrasando com o jogo nos pés e nas palavras sempre duras e francas.

Quando o Brasil massacrou a Espanha pela final da Copa das Confederações, concordei com Júlio César: “existe uma hierarquia no futebol”. Não se pode negar. É possível enfrentá-la, com muito esforço, no campo, e o futebol é cheio de exemplos de times que reverteram sua inferioridade histórica jogando mais bola do que o adversário poderoso. Davi muitas vezes ganha de Golias, o que não faz de Davi, Golias e de Golias, Davi. O próprio Fluminense foi exemplo disso, quando conseguiu derrubar, um atrás do outro, São Paulo e Boca Juniors na Libertadores 2008, antes da trágica derrota na final para a LDU no mesmo Maracanã. Amanhã, por exemplo, veremos o Galo tentando cumprir essa missão contra o Olimpia pela final da Libertadores 2013, e que as cifras não enganem: o Davi, no Mineirão de amanhã, é o Atlético. Acima de tudo, é preciso reconhecer uma condição antes de superá-la.

Clássicos são clássicos, mas existe uma hierarquia também neles. Que a bonança e boa forma concedida ao Fluminense nos últimos tempos pelo destino e pelo plano de saúde não possam apagar a História, está claro e qualquer um pode ler nas cartas do tarô. Botafogo, Coritiba e Fluminense, cada um a seu jeito, tentam reverter a hierarquia do futebol. Neste final de semana, quis o destino premiar os que enfrentam essa batalha na grama e castigar quem tentou vencê-la no gabinete.


Por Bruno Passeri. 

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Aspas para as aspas: por que acreditar no Galo?

Roberto Drummond nasceu em Ferros, Minas Gerais, em 1933, e faleceu na cidade de Belo Horizonte aos 68 anos de idade, em 21 de junho de 2002, vítima de problemas cardíacos. Não sei se esses problemas teriam relação direta com o jogo Brasil 2 x 1 Inglaterra, pelas quartas-de-final da Copa do Mundo, jogado no mesmo dia. Não sei se Drummond estava regando as plantas em seu quintal ou jogando buraco com sua esposa ou alimentando periquitos, ou se estava assistindo ao jogo e o teste foi duro demais para o coração frágil de um sexagenário. Sei que ele não imaginava que o Ronaldinho que metia a bola por cima de um incrédulo Seaman, que catava cavaco tentando alcançar, seria a grande esperança de seu Galo para conquistar, onze anos depois, a Taça Libertadores da América, o maior título da história do clube.


Irônico, o destino. 


Como irônicos eram o tom de suas crônicas esportivas e os títulos de seus romances: O dia em que Ernest Hemingway morreu crucificado (1978), Sangue de coca-cola (1980), Quando fui morto em Cuba (1982), Hitler manda lembranças (1984), Ontem à noite era sexta-feira (1988), entre outros. O mais famoso, provavelmente, é Hilda Furacão (1991), que rendeu adaptação para a teledramaturgia global. Ou talvez seja Uma paixão em preto e branco, publicação póstuma que compila crônicas de sua autoria sobre aquele que seria o grande furacão de sua existência, o Atlético.


A literatura, como tudo na vida, é um eterno retorno, é repetição-só-que-não, é releitura. 


Lamento profundamente não poder ler o que Drummond escreveria agora que o Galo impõe à sua massa seguidora testes cardíacos dificílimos. Mas agradeço a Mauro Beting pelo brilhante esforço de compilar trechos das crônicas publicadas por Drummond de modo a formar um único texto que não apenas faz sentido como uma peça única, como também tem tudo a ver com o momento vivido pelo Galo atualmente. Premonição? Mesa-branca-Chico-Xavier feelings? Prefiro acreditar em Nietzsche. E ler Drummond.


Aspas para as aspas de Beting:


"Libertadores quae sera tamen: Roberto Drummond acredita - Olimpia 2 x 0 Atlético Mineiro.


Ele acredita!

Saudade de Roberto Drummond. Um atleticano cronista (necessariamente nesta ordem) que hoje escreveria algo parecido com isso. Todas as palavras abaixo são dele em outras crônicas atleticanas.
Aspas abertas:
"O que mais combina com a magia do Atlético é o sangue. Esse que nosso volante recuperou quando tinha tudo para deixar o campo e continuou a jogar com a cabeça enfaixada. Toda vez que o Galo foi apenas arte e esqueceu seu lado heroico, ele saiu banido de campo e derrotado dentro do coração dos que o amam.
Mas quando o lado heroico do Atlético prevalece, ele sempre sai de campo glorificado. É com sangue, suor e raça que o Galo pode derrotar o rival. É com amor. É como quem disputa o coração da mulher amada. É como quem defende o último pedaço de chão da pátria. É assim que o Atlético deve fazer.
Se fizeram um eletrocardiograma da bola, verão que até ela está com o coração batendo na garganta. Vocês dirão que não – que bola não pensa, que bola não sente… Ingênuos! A bola sempre sabe que rede beijar. E esse beijo, às vezes, é deixado para a última hora, para nos fazer sofrer. Mas esse beijo costuma ser dado a quem merece. A quem desde a primeira vista deste campeonato pôs amor em tudo que fez. Houve ocasiões, sim, que o adversário mereceu tanto quanto o Atlético. Nunca mais do que o Galo.
A bola levará isso em conta no Mineirão. Tudo na vida é questão de merecer. Os jogadores do Atlético podem estar tranquilos. São os mais capacitados e predestinados para serem campeões.
Queria que todos os atleticanos não se esquecessem quando se virem cercados, sem saída e sem caminho, que sempre há um jeito de chegar até a linha de fundo e cruzar uma bola.
Senhor, apague o sol, apague a lua, anoiteça os olhos da amada, derrame a noite sobre nós, mas não deixe o Atlético capitular. Senhor, tire nosso pão, corte nossa água, proíba nossos amores, decrete a solidão nas esquinas, nos bares e em nosso coração, faça de nós um bolero, faça de nós um tango, faça de nós a mais desesperada canção, mas transforme a zaga do Atlético num muro.
Prenda de vez nosso coração, mas espalhe luz sobre os caminhos de nosso meio-campo. Acenda uma estrela na chuteira deles e não deixe o adversário jogar. Não deixe o Atlético capitular.
Senhor: nos faça descobrir o amor para depois tirá-lo de nós. Faça-nos sofrer de amor, mate-nos de amor, se preciso, mas quando o atacante pegar a bola, Senhor, iluminado seja o seu caminho.
Senhor, depois que o Atlético ganhar, aí, Senhor, prive-nos de tudo o que quiser, exile a amada no Paraguai e outra vez nos mate de amor.
Mas, Senhor, não nos prive do Atlético. Ser atleticano é como casamento. Na saúde e na doença. Nas alegrias e nas tristezas.
O atleticano é capaz de após uma derrota pegar a camisa no armário e sair às ruas. O primeiro e único mandamento do atleticano é ser fiel e amar o Galo sobre todas as coisas. A bandeira atleticana cheira a tudo neste mundo. Cheira ao suor da mulher amada. Cheira a lágrimas. Cheira a grito de gol. Cheira a dor. Cheira a festa e a alegria. Cheira até mesmo perfume francês. Só não cheira a naftalina, pois nunca conhece o fundo do baú.
Já vi o atleticano agir diante do clube amado com o desespero e a fúria dos apaixonados. Já vi atleticano rasgar a carteira de sócio do clube e jurar: Nunca mais torço pelo Galo. Já vi atleticano falar assim, mas, logo em seguida, eu o vi catar os pedaços da carteira rasgada e colar, como os amantes fazem com o retrato da amada.
Que mistério tem o Atlético que, à simples presença de sua camisa branca e preta, um milagre se opera? Que tudo se transfigura num mar branco e preto?
Ser atleticano é um querer bem. É uma ideologia. Não me perguntem se eu sou de esquerda ou de direita. Acima de tudo, sou atleticano. Toda manhã, quando acordo, eu rezo: Obrigado, Senhor, por me ter dado a sorte de torcer pelo Atlético”.
Aspas fechadas.
Posso acrescentar?
“Obrigado, Senhor, por ter me dado a sorte de torcer pelo campeão da América na próxima semana”.
Eu acredito que Roberto Drummond acredita lá em cima. Eu acredito no time de Cuca aqui embaixo.
Vocês sabem: “Se houver uma camisa preta e branca pendurada no varal durante uma tempestade, o atleticano torce contra o vento”. Já falou Drummond.
O vento de 2013 está a favor do Galo nesta Libertadores.
Eu, Mauro Beting, acredito.
Faltam 90 minutos. Quem sabe mais. Mas quem mais sabe em 2013 não vai deixar ter pênaltis. Vai fazer ainda mais do que fez contra o Newell´s. Quem mais jogou não vai deixar perder mais um título ganho. Mais um título perdido pelo receio de que não vai dar.
O novo Atlético é o do novo atleticano que sabe que muita coisa não foi conhecida. Muito troféu não foi conquistado. Muita vitória foi perdida. Mas este novo alvinegro contagia o mais velho com uma nova mentalidade. Não mais do já-perdeu. Mas do que pode-ganhar. Não mais do tudo-contra-todos, mas do todos-pelo-Galo.
De novo vai ganhar de velho. De novo vai sofrer e suar para ganhar por pelo menos dois. Com muito mais de 11. Com tudo mais de milhares no Mineirão. Com milhões pelas gerais de Minas e do Brasil.
De novo vai ter de se superar. De novo vai ter de esquecer a arbitragem que o atleticano não esquece que não é amiga e anulou lance difícil que poderia ter dado em gol de Tardelli – o único que tudo jogou em Assunção, embora pudesse ter dado ao ausente Ronaldinho um gol de presente na segunda etapa.
De novo vai ter de estar atento até o último chute, como Pittoni fez o golaço da vitória do Olimpia, na infeliz escolha de Alecsandro que atrapalhou Victor, como o mano Richarlyson se atrapalhou com Salgueiro, com Silva, e com mais uma expulsão tola como o amarelo levado por Marcos Rocha.
Aquele chute do Salgueiro que desviou na zaga, aos 36 iniciais, era o típico gol que o Galo levaria. Não levou. E olha que poderia ter levado mais, por que Luan não se encontrou, e demorou para Cuca apostar em Rosinei. Como insistiu com Jô até ele só não fazer um belo gol em passe genial de Guilherme por que Silva fez mais uma grande defesa. Tão importante com os pés como Leo Silva que salvou gol certo, tão certo e gol também não feito como o que Bareiro perdeu na sequência.
Muita coisa deu errada em Assunção. Muita coisa tem como ser refeita no Mineirão. Foi um enorme e exagerado 2 a 0. Mas reversível. Como foi muito difícil segurar aquele pênalti contra o Tijuana. Como foi muito complicado reverter aquela derrota em Rosário. Como será ainda mais complicado igualar os dois gols sofridos em Assunção.
Mas quem diria que seria diferente para o atleticano?
Vai ser assim.
O Roberto Drummond acredita. Eu também.
(O texto que compilei com trechos de crônicas de Drummond que abre este post é uma colagem feita a partir de sete colunas do cronista mineiro. Todas presentes no essencial “Uma Paixão em Preto e Branco”, coletânea de colunas de Roberto publicada pela Editora Leitura, muito bem organizada por Alexandre Simões)".
Aspas das aspas fechadas.

Por Bruno Passeri.




quinta-feira, 11 de julho de 2013

Gogó para o alto


Henrique Alves, presidente da Câmara dos Deputados, e Renan Calheiros, presidente do Senado(José Cruz/ Agência Brasil)

Existem dois tipos que conquistam as mulheres. Quem me disse foi um velho amigo meu, camarada de partidão e vizinho de porta aqui na vila. Há os que chegam nas mulheres com as mãos na cintura, dizem uma meia dúzia de palavras sem sentido só para causar arrepios com o calor da voz e as levam direto para o canto da festa. Outros, também bem-sucedidos, por paixão incomensurável pelos amigos, preguiça existencial ou por brilhante vergonha, optam por encher a tulipa e beber uma gelada junto à seus pares. Vencem quando, exaustos preza e caçador, chocam-se por pura atração anatômica e acabam tendo por companhia, além do incansável copo transbordando, o par da vez.

Vale ressaltar que esse papo aconteceu no século passado: tempos em que as mulheres eram mais intimidadas pela conservadora sociedade cristã. Hoje os tempos são outros e até os que não adotam nem um perfil nem o outro também podem se dar bem. O sucesso, contudo, é menos frequente. O bêbado e o obcecado estão sempre mais próximos do objetivo. Podem conferir. O primeiro não gasta tanto dinheiro quanto o segundo, mas tem de se afastar dos amizades. "Cada escolha uma renúncia", como diz o profeta que trabalha engraxando sapatos na esquina entre as ruas Mem de Sá e Lavradio.

Pois bem, estava eu na quarta-feira passada assistindo a TV a noite quando me lembrei das palavras do sábio companheiro de Pecebão. Não por causa das mulheres, já que a minha velha dormia ao meu lado e nesta altura da vida não quero comprar briga com ela, que já mostrou no tempo de casamento ser vingativa como a minha sogra e chata como a hora cívica da época do colégio. Vi os políticos de Brasília e os cartolas dos grandes clubes brasileiros e lembrei das personalidades evocadas pelo meu parceiro de bar, aqui no Andaraí. E veio a minha cabeça uma relação que o faria engasgar na hora de mastigar o provolone  no restaurante do Seu Luís: dirigentes de clubes e os petistas são todos, sem exceção, alcoólatras em busca de suas metas. Em vez de irem direto ao ponto, fazem média junto a quem está próximo e adiam a peleja. 

Não duvido que eles queiram realmente alcançar o desenvolvimento de suas respectivas instituições. Afinal, os dirigentes são, por via de regra, torcedores, enquanto os petistas, em muitos casos, sofreram na pele os golpes do conservadorismo durante a ditadura. Entretanto, objetivos outros acabam por prendê-los e tomar muito tempo. Digo aqui da corrupção e dos interesses escusos sim, mas também da boa relação que eles tentam travar nos meios por onde circulam e da imagem que tentam passar para o público.

O programa de sócio-torcedor é espetacular, aumenta a arrecadação e o vínculo entre os torcedores e o clube, mas é deixado de lado por colidir contra os interesses das empresas que vendem ingressos ou por desagradar as torcidas organizadas. Dilma pede uma Constituinte para arejar o cenário político e trazer pessoas interessantes novamente para a política, mas a bancada ruralista, por exemplo, teme o fim do coronelismo e a perseguição aos crimes que são cometidos na Câmara e no Senado.

E cada vez mais o pretendente está alcoolizado, e cada vez mais ele se distancia da garota da noite que, nessa altura da madrugada, já começa a pensar em como vai voltar para casa ou em procurar a outra amiga que, acompanhada pelo obcecado, já deve ter a maquiagem borrada ou o cabelo despenteado. E o tempo passa, o desenvolvimento não chega, e políticos esportivos e engravatados com a estrela no peito só fazem por fortalecer o status quo. Apesar de desejar o progresso, apesar de achar a donzela irresistível.

Só que, até meu parceiro de mesa fixado nos estanques modelos de sedutor, teria que se render ao meu argumento final. Diferente do que aconteceria na nossa época de gafieira, o rapaz não vai poder terminar a noite com o gogó para alto, pensando no que fará na próxima vez que encontrar a menina (que, provavelmente, não terá sua face lembrada). O momento de instabilidade social vai levantar o cadáver e pressioná-lo a fazer o que tem que ser feito. Com o adiamento do plebiscito, o Distrito Federal dá mostras de que não confia na ebulição que vem das ruas e fecha os olhos para a Copa do Mundo tensa que se constrói, a cada superfaturamento, diante dos olhos da Fifa. E é possível que a revolta se estenda também para o universo, até então isolado, dos clubes de futebol. O efeito da bebedeira promete ser nauseabundo durante um longo tempo após a madrugada de flerte. 

por Helcio Herbert Neto.                                                                                   




quarta-feira, 10 de julho de 2013

Mata-mata: Fluminense, Botafogo, Flamengo e Galo vivem quarta-feira decisiva, por motivos diferentes.


O Fluminense anuncia hoje, às 16h, na sede das Laranjeiras, a assinatura do contrato com o consórcio de empresas que administrará o Maracanã pelas próximas quatro décadas. As informações dão conta de que o acordo terá a mesma duração da concessão do estádio: 35 anos. Daqui a 35 anos, estaremos em 2048, Fred terá 64 anos e o presidente Peter Siemsen, signatário do contrato, 91 anos de idade. Pode ser que o Fluminense esteja fazendo um grande acordo. Pode ser que, na condição de um dos advogados mais conceituados do país, Siemsen tenha garantido dispositivos legais que ajustarão o contrato ao longo do tempo de forma que os benefícios do Fluminense jamais caduquem. É possível. A torcida tricolor está preocupada, porém. E tem razão de estar. Nada na postura do consórcio que tomará conta do ex-Maracanã indica boa-vontade nas negociações com os clubes. Em breve, o Botafogo deve anunciar acordo por dois anos com a mesma arena. Jogará por lá, pelo menos, até que o Engenhão se recupere de um dos maiores fiascos públicos protagonizado pela gestão do esporte carioca (e não foram poucos ao longo da história). O Flamengo, por outro lado, endurece o jogo, bate o pé, diz que não aceita os termos propostos, fala em “abismo” entre os objetivos das partes envolvidas. Talvez seja o Flamengo o inflexível ou irrealista. Ou talvez Botafogo e, principalmente, Fluminense estejam entregando o ouro fácil demais. O tempo dirá. Esperemos que todos os clubes façam acordos que os permitam desenvolver-se economicamente e garantam às suas torcidas o direito básico de torcer por seus times no templo eterno da Avenida Maracanã.

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O Flamengo joga hoje em Arapiraca contra o tinhoso ASA, às 21:50h. O ASA pode ser mais perigoso que parece, principalmente jogando contra um Flamengo que ainda balança na temporada. Que deixe de balançar e leve o jogo muito a sério. Até que os ventos entrem pela janela de transferências internacionais trazendo dois ou três bons reforços – se é que o farão -, o Flamengo joga o ano na Copa do Brasil. É um tipo de competição que favorece times de massas apaixonadas que empurram bolas para as redes quando as coisas parecem impossíveis. Um tipo de competição que aceita campeões menos brilhantes do que outros concorrentes. O campeonato de pontos corridos não mente. O mata-mata, a seu jeito, também não. Na verdade, são perguntas diferentes que os dois campeonatos fazem. O Brasileirão se questiona: “qual é o melhor time?” Ou ainda: “qual é o time com a capacidade de ser melhor na maior parte do tempo, em longo prazo?”. A Copa do Brasil, a seu tempo, interroga: “que time é capaz de oferecer mais (futebol, vontade, dedicação, concentração e, sobretudo, alma) num curto espaço de tempo?”. Ambos os campeonatos oferecem a quem responder melhor a vaga na mítica Taça Libertadores da América. Em 2013, para times como Flamengo, Vasco, Palmeiras, entre outros, é muito sensato perceber a que pergunta são capazes de responder melhor. E levar muito a sério a resposta.

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A mítica Libertadores faz outras perguntas, além das citadas anteriormente. Apenas uma vem ao caso hoje: serão o Galo e sua massa capazes de fazer o improvável, como tantas vezes se viu nesse torneio? A resposta passa, claro, pelo apoio incondicional da torcida, pela alma que o time empregará em cada jogada, por uma atuação abaixo da média do excelente adversário, mas, acima de tudo, passa por Ronaldinho. Um jogador extraordinário capaz de arregaçar qualquer jogo contra qualquer adversário, mas que, no entanto, costuma não cumprir essa promessa em jogos como o de hoje à noite. Um Ronaldinho inspirado e elétrico pode contagiar torcida e time e, sobretudo, dar ao Galo o talento necessário para a reviravolta (porque ainda se trata de uma partida de futebol). Ele joga mais do que a soma de todos que estão em campo, mas, na Libertadores, a resposta não está só aí.


Por Bruno Passeri.

terça-feira, 9 de julho de 2013

The Queen needs you, Andy

Fonte: The Times

A leitura da vitória de Andy Murray em Wimbledon pode ir muito além da (re)conquista dos britânicos de seu "próprio território", digamos assim. É muito significativo que, após 77 anos aplaudindo outros jogadores erguendo o troféu mais tradicional do tênis, os ingleses tenham voltado a bater palmas para alguém "de casa", como já havia sido nas Olimpíadas do ano passado. 

E a primeira observação é sobre essas aspas quando digo "de casa", pois tanto as Olimpíadas quanto Wimbledon foram/são disputados em Londres, e Murray é escocês. Há, em todas os debates - e nas próprias entrevistas do jogador - a brincadeira de que 'ele é britânico quando ganha e escocês quando perde'. Minha experiência etílica-socio-cultural de dois meses em solo da Rainha, com londrinos e escoceses, me passa uma credibilidade mínima para afirmar que o fundo de verdade é maior do que a brincadeira nesse caso. 

Se fosse o contrário - Murray fosse inglês e os títulos fossem na Escócia -, não acho que haveria grandes problemas. Mas Londres (isso não se aplica a Inglaterra como um todo, de maneira alguma) é "The Heart", o coração do Império Britânico, é sério, educado, polido, espetacular. Ninguém diz, mas a Escócia é meio "primo farofeiro" (nos padrões londrinos, claro); o sotaque é estranho, soa meio caipira, eles gostam muito de festa, enchem a cara de uísque até não poder mais, dançam de saia na rua, enfim, fazem uma arruaça não muito britânica. Sinceramente, não conheço bem o Murray. Pelo que já observei, imagino até que ele seja um escocês mais inglês que a maioria, mas isso não muda muita coisa. As manchetes dos jornais, os outdoors, a conversa nos pubs, tudo exalta Andy Murray como herói , ídolo britânico. Não que esse seja o sentimento, mas é uma necessidade.

Uma necessidade de um povo com uma sina que resultou num complexo curioso: o de possuir a patente de inúmeros esportes e terminar, quase sempre, superado pelos outros (e, ainda pior, suas ex-colônias). Eles inventam, criam regras, apaixonam-se por aquilo e...perdem. Perdem para o Paquistão e para a Índia no críquete, perdem para a Nova Zelândia e para a África do Sul no rúgbi, perdem para os Estados Unidos no golfe e no beisebol, e para quase todo mundo no tênis e, pior, no esporte mais popular do planeta, o futebol. Ainda que o Campeonato Inglês seja o mais importante, que seus times sejam podres de ricos, organizados, que Londres seja a cidade com mais clubes e estádios de futebol, o fantasma está lá e incomoda muito: a Inglaterra, mãe do futebol, só ganhou uma Copa do Mundo em sua história, a de 66, jogando em casa e derrotando a Alemanha com um gol que é discutidíssimo até hoje.

Os britânicos e, sobretudo, os ingleses, sentem-se lesados. "A gente cria o esporte, leva até lá, ensina eles a jogarem e depois apanha?". É muito frustrante. Acrescente-se a isso a falta de grandes nomes, de heróis que ajudem a dimensionar, a significar uma geração, uma era no esporte. Como foi Pelé, Michael Jordan, Schumacher, o próprio Tiger Woods. Apostou-se muito em Hamilton, mas a Fórmula I está longe de arrancar suspiros tão apaixonados e, mesmo que assim fosse, Hamilton não é esse cara. 

Sobrou para Andy Murray, o pobre escocês eternamente semifinalista que não conseguia ultrapassar a linha do bom para o vencedor, do muito bom para o campeão. Mas Murray rompeu essa barreira - muito mais psicológica do que técnica - e fez isso justamente em Londres, duas vezes. Nada menos que em uma Olimpíada e em Wimbledon, o Grand Slam mais tradicional do mundo. O talentoso tenista escocês virou ídolo do esporte britânico. O jovem agora é Sir.

The Queen needs you, Andy.



Por Beto Passeri.