segunda-feira, 1 de julho de 2013

Em progresso


Com dois de Fred e um de Neymar, Brasil massacra a Espanha no Maracanã, conquista o título da Copa das Confederações 2013 e faz pensar.

Do discurso, é preciso saber quem enuncia, o que enuncia e, sobretudo, de onde enuncia. Identificar essas posições é vital para entrever as relações de poder que o compõem.

No futebol, a paixão clubística é de uma natureza totalmente diversa daquela que se nutre pelo selecionado nacional. A paixão pelo clube é deliberada porque cada um decide para que time torce, embora essa escolha não seja desembaraçada de mediações. Na minha família, por exemplo, uma escolha por não ser Flamengo representaria uma tomada de posição radical contra a tradição. "Eu sou Flamengo", portanto, é o discurso que eu enuncio a partir de minha posição social e formação familiar. Há diversas relações, inclusive de poder, implícitas nesse discurso. Mas esse é assunto para outra prosa.

Por ora, nos contentemos em apontar a diferença de natureza entre esta paixão pelo clube e aquela pela seleção nacional de futebol. A nação não é uma escolha. O homem pode estar mais ou menos afastado de suas origens, mas resta uma bandeira, um hino, uma História e, acima de tudo, uma língua - logo, uma estruturação cognitiva, uma forma particular e nomear e entender o mundo - compartilhada com outros tantos seres humanos, elementos que estampam sobre estes homens uma espécie de marca indelével. Discutir a formação histórica das nações e a questão da identidade nacional também é assunto para outras prosas.

No Brasil, o futebol é uma dimensão definitiva da vida pública. Entre outras coisas, somos o que jogamos. E a função histórica da Seleção Brasileira não pode ser desprezada. Não sei como a coisa se dá em outras praças, não conheço a fundo outros países para dizer e não pretendo estabelecer, por isso mesmo, qualquer tipo de comparação. Basta saber que é assim no Brasil.

De onde enuncio estas palavras agora, um estado de embriaguez pelo acontecido ontem, 30 de junho de 2013, no Maracanã, o raciocínio parece fazer sentido. 

Os cinco títulos mundiais da Seleção, referendação suprema de sua vocação futebolística, pontuaram momentos históricos cruciais da história moderna do país. O bi-campeonato 58-62, quando se instituiu um novo paradigma de jogo, pautado pela possibilidade do drible e do improviso, o avassalador triunfo de 70, em que se acrescentou à maturação daquele novo paradigma o advento do alto rendimento físico, o chorado tetracampeonato de 94, quando houve Romário, e o alegre penta em 2002, todos esses títulos encontraram ressonância em movimentos que se davam no âmago da sociedade brasileira.

Aqui, é preciso fazer uma digressão. 

Pensemos que um time de futebol é composto, basicamente, por jovens. Nos parâmetros do esporte de alto rendimento, o declínio fisico de um atleta de futebol se dá, em geral, a partir dos 30 anos de idade e mais acentuadamente a partir dos 35. Demograficamente pensando, porém, um sujeito de 30 anos é um jovem. A Seleção Brasileira que ofereceu o baile da noite passada tinha como jogador mais velho o goleiro Júlio César, com 33 anos de idade. A média de idade da equipe é de aproximadamente 26 anos. Jovens, portanto. Em 1958 e 1962, essas médias eram de mais ou menos 25 e 27 anos, respectivamente. Em 1970, a média era de pouco mais de 24 anos, enquanto em 94 e 2002, curiosamente, as médias foram idênticas: 26,2 anos de idade. Ou seja, no sentido do termo apropriado pela demografia, e não pela ciência esportiva, foram equipes formadas por jovens.

Como são jovens que compõem a maioria dos imensos cordões que ocupam as ruas e os espaços públicos há pelo menos três semanas no país. Toda seleção nacional, dessa forma, é uma pequeníssima amostra da juventude de um país. Salvo nosso grande goleiro atual, todos os demais jogadores do time que arrebentou a corda da viola na final da Copa das Confederações 2013 nasceram nas décadas de 80 e 90. Nesse sentido, é possível afirmar que jogadores da Seleção atual e jovens que atiçam o panorama político nacional fazem parte de um mesmo conjunto, foram criados no mesmo momento, sob condições históricas similares e sob o mesmo zeitgeist, ou espírito da época: são da mesma geração.

Como Pelé, Garrincha, Didi, Zagallo e seus companheiros nos dois primeiros títulos mundiais do Brasil, em 1958 e 1962, foram da mesma geração daqueles que cantavam, à base de frases de jazz e samba, goles de uísque e cachaça, roncos de motor automotivo e britadeiras e betoneiras, à sombra das curvas de arquitetos modernistas, um Brasil que vislumbrava uma candidatura ao desenvolvimento e ao progresso prometido lá pela metade do século XX. 

Como um amadurecido Pelé, Tostão, Jair, Rivelino, Gérson e outros foram da mesma geração que se entricheirava sob os porões, ou atrás das armas, ou dos palanques, ou na subserviência, ou atrás de seus salários, ou de Deus, ou da família, ou da tradição, ou da propriedade ou de um hologramático milagre econômico, gemendo, entre altos e baixos, um "Pra frente, Brasil" que se fundia com a harmonia do escrete amarelo. 

Como estavam condenados, pelo mesmo tribunal histórico, os filhos dos porões a perderem as lindas batalhas que insinuaram nas ruas e no gramado no início da década de 80. 

Como respiraram depois de três décadas de asfixia econômica, poítica, ideológica, social e de títulos mundiais no futebol de seleções, os nascidos nos 60 (salvo Gilmar, nascido em 59, e Cafu, que veio ao mundo em 70), através de um trabalho pragmático realizado dentro dos campos e nos escritórios e nas salas de estar de cada família. Era preciso ser assim, dizia o senso comum sobre a vida e sobre a Seleção: a dureza dos tempos recentemente passados nos ensinara dessa forma e o destino daquela geração estava marcado. Havia Romário e a taça veio, dura como vieram as notícias das décadas anteriores. Quebrando o protocolo FIFA, Dunga ergueu-a proferindo: "É nossa, caralho!". 

Depois, na torrente do discurso do progresso e da modernidade foram levados patrimônios nacionais, vendidos tesouros inestimáveis, a bandeira puiu, mercantilizaram-se Brasil e brasileiros nascidos na década de 70, cegados pela luz do ouro e, convulsionadas ao ritmo marcial de La Marsellaise, hino nacional francês, seleção e sociedade assistiram ao espetáculo de Zidane.

Em 2002, havia algo no ar. Qualquer coisa no espírito daquela época anunciava novos ventos. Um pouco da enxurrada de alguns anos antes estancara, poucas partículas se cristalizaram no fluxo da globalização, ou sei lá o quê. Tínhamos, então, alguma coisa a oferecer ao mundo, além de nossa própria resiliência a toda lama histórica? Do outro lado do mundo, chegavam imagens e sons de um grupo de jovens nascidos nas décadas de 70-80, capitaneados pelo líder brabo e carismático que era o Felipão, pagodeando entre japoneses e coreanos. Cafu ergueu a taça com um sorriso que, por si só, é um discurso complexo, e disse: "Regina, eu te amo". Poucos meses depois, com 52.793.364 votos, a maior marca da história da República, Luís Inácio da Silva, o Lula, pôs a faixa no peito.

Em 2006, coincidentemente de volta ao território europeu, metrópole e totem de nossa construção (inclusive no futebol, claro), fomos arrogantes. Estávamos ricos, pela primeira vez participávamos do mundo do consumo para valer. Comprávamos muito, vendíamos muito, o país estava em ebulição, subíamos a cada dia no ranking das maiores economias mundiais, tínhamos os maiores do mundo portando cordões de ouro em terras espanholas de fazer inveja aos portados pelos astros do basquete em terras ianques. "Iate em Botafogo, apartamento em Ipanema, uma vida de bacana, se eu entro assim pro esquema". Ou: "Desempregado, falido, andava pela rua largado e fodido. Achou na rua uma carteira recheada de dólar. Acabou-se a miséria, foi-se o tempo da esmola". Assim cantavam Marcelo D2 e Chorão, respectivamente, em "À procura da batida perfeita" e "Rubão", no começo do século XXI. Éramos todos assim, todos um Rubão à sua própria maneira. E nossos rubões, na Alemanha, pagaram caro para ver Zidane, de novo.

A ressaca estava braba em 2010. Tínhamos um repertório de brados na gaveta, tínhamos um capitão do "É nossa, caralho!" no comando da equipe, tínhamos uma ex-guerrilheira disputando o poder. Estávamos buscando as referências, revisitando o passado em busca de pistas sobre o que fazer dali em diante. Mas o time não encaixava, as referências não davam liga e, cheios de energia mas sem o ímpeto natural, demos murros nas pontas das facas e voltamos da África do Sul mais cedo do que gostaríamos, depois de fazer o máximo que era possível com o que estava disponível.

Agora temos milhões nas ruas e uma taça das Confederações na estante da CBF. Temos um time que deu liga, atropelou a quem de direito e reafirmou a hierarquia óbvia e quase esquecida da história do futebol. Temos uma torcida que reaprende a torcer em casa por uma seleção que volta para casa depois de muito tempo. Reaprende a ponto de formar, com quase oitenta mil corpos, um desfibrilador gigante capaz de reanimar o sagrado Maracanã, onde talvez nem a força da grana destrua as coisas belas e nem o peso do concreto novo soterre os velhos espíritos que o fazem ser a máquina potente que sempre foi. Nós também voltamos para casa depois de muito tempo. Houve uma diáspora. Estivemos na luta e na farra, estivemos fisica ou espiritualmente fora por um tempo. Aos poucos, estamos voltando. É só o começo. O processo é moroso. Há defasagem entre as pressões das ruas e os movimentos institucionais que atendem a essas pressões. Mas eles acontecem. 

A Seleção Brasileira não representa o povo e o povo não representa a Seleção. A Seleção não empurra o povo e nem o povo empurra a Seleção. Os dois se imbricam profunda e mutuamente num processo complexo e contínuo. São os mesmos jovens que compõem os dois, afinal. 

David Luiz nasceu em Diadema, São Paulo, em 1987. É zagueiro, atua no Chelsea, da Inglaterra. Com 26 anos, está no centro da média de idade da Seleção atual. É um jovem brasileiro que andou fora por um tempo e voltou a jogar em casa. Ao final da partida, na zona mista onde, segundo o padrão FIFA, os jogadores devem dar seus depoimentos aos jornalistas credenciados, seu discurso não foi polêmico, não foi vingativo, não foi de desabafo, não foi ideológico. Foi determinado: 

"(...) desde o começo, a gente entendeu o que tinha na mão, e entendeu que poderia demonstrar isso, mas somente unidos. A gente se uniu, tem um grupo muito consciente, a gente ainda não ganhou nada. Ganhou hoje um título importante que é especial, mas ainda estamos numa caminhada muito grande."

Marilena Chauí nasceu em Pindorama, São Paulo, em 1941. Tem 71 anos, é professora de filosofia da Universidade de São Paulo e um dos maiores nomes do estudo da história da filosofia no país. No eclodir da mobilização pelas ruas das cidades brasileiras, declarou:

“Não é momento histórico, é um instante politicamente importantíssimo, no qual a sociedade vem às ruas e manifesta sua vontade e sua opinião. Mas a ação política é efêmera, não tem força organizativa do ponto de vista social e política, não tem uma força de permanência, caráter dos movimentos sociais organizados, de presença organizada em todos os setores da vida democrática.”

Há algo em comum entre os dois discursos. Nada está ganho e, apesar dos efeitos expressivos do sacode no bicho-papão - em campo e nas ruas - muito trabalho ainda há pela frente. Muita determinação é necessária ainda para construir um momento histórico que garanta o hexacampeonato mundial. Ou será o contrário?



Por Bruno Passeri.


terça-feira, 18 de junho de 2013

Me desculpem, companheiros

Foto: Fábio Motta, do Estadão.

Me desculpem, companheiros, mas eu nunca acreditei na gente. Me desculpem, mas nasci acreditando estar à sombra da vitória de uma geração sobre a Ditadura e também sobre Collor. Nasci quando milhões, enfim, respiraram aliviados; aprendi a andar, falar e pensar enquanto todos, enfim, puderam fechar os olhos para descansar depois de anos de sofrimento. Nasci quando Ayrton Senna, Romário e Guga expurgavam nossos fantasmas pela TV. Acho que larguei as fraldas no dia em que o grito galvanesco de "É TETRA!" nos libertava de uma inflação pavorosa. Acreditei, então, que a engrenagem já estivesse girando e que o Brasil fosse ser Brasil sozinho. 

Me desculpem, companheiros, mas não soube o que fazer com a minha rebeldia natural da adolescência. Lia revolução, e ouvia miscigenação num tom feliz nas aulas água com açúcar do colégio; lia teorias sociais e manifestos, e via futebol nos comerciais de todos os produtos; queria pensar, mas só me vinha samba e bunda na cabeça. Achei, e assumo a culpa, que a História não fizesse parte do meu mundo, e que as mudanças deviam ser feitas muito longe daqui, talvez em Cuba, talvez em Paris, não sei. Mesmo tendo lido o contrário, fizeram-me comprar que o povo brasileiro não tinha uma trajetória de lutas magníficas e que estava fadado à mediocridade. 

Caminhando comigo, minha geração começou a beber, e beber o que nenhuma outra deve ter bebido. Um hedonismo quase sem explicação. A angústia, a falta de respostas? Há séculos todos aturaram e superaram isso. A descrença, a ausência de perspectiva, a total resignação, isso sim nos deixava mal. Estar entre um passado esculpido em ouro pelos avós – as brincadeiras na rua, a inocência das crianças, a vida vivida – e um futuro caótico – o Grande Irmão, a tecnologia como alma, o fim do mundo; isso sim nos afundou e nos colocou, ainda que inconscientes, numa busca infinita e melancólica pelo prazer.

Quando tive maturidade e mais esclarecimento para perceber que o trem estava muito fora dos trilhos, me desculpem, companheiros, mas não tive forças para mover um dedo, mesmo apaixonado pelas grandes mudanças dos Romances e dos livros de História. Na real, é diferente. O egocentrismo dos líderes de movimentos estudantis me impôs distância. O preconceito com uma intelectualização desses movimentos me impôs distância. A visão de que as redes sociais tornam textos/correntes/ideais mais "moda" do que qualquer outra coisa me impôs distância. Virei as costas para a geração que compartilhava das mesmas angústias que eu. Não nos entendemos em nenhum ponto. 

Os protestos já haviam começado há dias e, como sempre, conquistaram a minha simpatia distanciada. Muito discreta, quase introspectiva. Ontem de manhã, no entanto, senti alguma coisa diferente quando comecei a acompanhar mais de perto as redes sociais, blogs e o frisson em alguns cantos da cidade. Estava com cheiro de coisa muito grande no ar. 

Eu havia bebido demais no domingo para, mais uma vez, esquecer minha dose de culpa no mundo, e acordei com uma ressaca infernal. Mesmo vacilante e com um certo nó na garganta, fiquei em casa. Acompanhei, de quatro horas da tarde às duas da manhã, todos os canais possíveis que cobriam e comentavam os movimentos pelo país - trancado no meu quarto, como aquele mais fanático dos torcedores que se esconde fingindo que nem se importa mais. E, por mais de uma vez, chorei. Não acreditei no que estava vendo, porque nunca acreditei em vocês. Um mar de gente (certamente muito mais que os 100 mil estimados) no Centro do Rio que eu jamais pensei que veria me fez chorar. A simbólica tomada do Congresso Nacional me fez chorar. As fotos espalhadas nas capas dos principais jornais do planeta me fez chorar. O entendimento, a sincronicidade e a força do movimento me fizeram chorar. Não sabia e nem saberei dizer se era orgulho por vocês, vergonha por mim, ou felicidade por nós. Acho que já não mais importa. Só me desculpem, companheiros, e deixem eu me unir a vocês. Chegou a hora.



Por Beto Passeri.








quinta-feira, 6 de junho de 2013

Uma carta entre dois velhos amigos



Maracanã, meu velho, amigo,

Tenho acompanhado o noticiário desde o início e, portanto, não faz muito sentido perguntar como tem passado. Lamentei desde o primeiro momento, mas não poderia imaginar que as coisas chegariam a esse ponto. Eu bem sei o quanto me toma por arrogante, mas dessa vez mesmo você deve me dar razão. Se não sou ainda centenário como meu nome, estou chegando lá e então me sinto à vontade para fazer agora o papel do senhor de idade que se põe a aconselhar os mais jovens.

Outro dia vi uma foto sua e não pude reconhecê-lo. O que fizeram de ti? Muitos dos nossos já passaram antes por processos de “modernização” (com o perdão da palavra), mas nenhum parece ter sofrido tanto. Não se tratou apenas de um rejuvenescimento, não foi só a ofensa de te colocarem essas desnecessárias cadeiras coloridas, foi bem mais do que um simples encolhimento. Não se contentaram em mudar sua aparência externa; mexeram por dentro, no âmago, no que te faz distinto de todos os demais – e te tornaram igual a outros tantos. O que fizeram contigo foi o que de pior pode acontecer a um estádio: tomaram sua alma.

Alma, meu caro amigo, é o que distingue poucos de nós em meio aos milhares de estádios que há por aí. E temos (ou tínhamos), você e eu, muito mais em comum além da alma. Foi aqui, em 1930, que, recém-nascido, vi a Celeste Olímpica vencer a primeira Copa do Mundo. E foi aí, 20 anos e uma Guerra Mundial depois e com você também recém-nascido, que El Negro Jefe, Schiaffino e Ghiggia foram buscar o outro Mundial de que se orgulha o Uruguay. Você pode até não gostar, pois te carimbaram esse tal Maracanazo para todo o sempre, mas isso nos tornava um tanto mais próximos. Tanto quanto o fato de sermos os palcos sagrados do futebol nas Américas – quem haverá de nos desmentir?

A verdade, velho Maraca (se me permite a intimidade), é que estou para te escrever há tempos e venho adiando a tarefa, mas não deu para resistir aos acontecimentos mais recentes.

Não sei se você sabe, mas estou em uma semana das mais agitadas, com jogos decisivos do campeonato nacional e um duelo do nosso selecionado contra a França. Nesses jogos todos, a rotina é a mesma de sempre: o povo se fez presente, cada torcedor fica (em pé ou sentado) no lugar que bem entende, bandeiras se agitam, faixas são penduradas, camisas tradicionais sobem para o gramado, ouve-se o alento das hinchadas de lado a lado, ofensas são proferidas sem muito critério, papéis picados se fazem atirar, vende-se café, choripans, churros e hamburguesas, Montevideo vive o futebol que nós dois tão bem conhecemos.

Gente de todo tipo dá as caras por aqui. Minhas velhas, históricas e desgastadas tribunas recebem o povo semana após semana.

POVO. Você ainda se lembra do significado dessa palavra?

Novamente fazendo uso da prerrogativa de um idoso de 83 anos que aconselha um ex-senhor de 63, te digo que é algo bem distinto dessa gente que te tomou de assalto de uns anos para cá. A verdade, meu bom amigo, é que te dilaceraram por completo apenas para que burocratas falassem em seu nome e pudessem cobrar os impropérios de agora (vi e me assustei com os preços dos ingressos). Não contentes com a extorsão praticada, ainda querem domesticar o público, submetendo quem te visita a absurdas cadeirinhas numeradas e querendo impor o jeito como se torce. Aliás, me recuso a chamar de “torcer” o que se tem feito por aí nesses tempos tão sombrios.

Por aqui, eu admito, as velhas arquibancadas que viram a primeira Copa andam precisando de reparos, as cicatrizes já se fazem notar além do aceitável e há evidentes sinais de cansaço. Não vou negar que alguns cuidados seriam bem-vindos, mas não pode ser nada como o que fizeram contigo. Porque, em que pesem todos os problemas que vêm com o tempo, ainda se vive a história do futebol nessa zona central da velha Montevideo. E minhas tribunas ainda se chamam Olimpica, Amsterdam, Colombes e Américas, bem ao contrário das suas, que agora atendem por letras e números que nada dizem.

O povo ainda pode, semana após semana, olhar para esta velha cancha e relembrar os grandes esquadrões que por aqui passaram. E minha estrutura não é feita apenas de cimento – que os oportunistas e deslumbrados que te mataram certamente chamariam de ultrapassado –, mas é composta de uma Copa do Mundo, centenas de títulos, incontáveis clássicos e muitas, inesquecíveis e dramáticas noites de Libertadores. Por aqui passaram – e continuarão passando – todos os grandes clubes do continente.

Meu conterrâneo Eduardo Galeano, que tanto te respeita, escreveu certa vez que eu “suspirava de nostalgia pelas glórias do futebol uruguayo” e que você “continuava chorando pela derrota de 1950”. Pois a primeira parte continua verdadeira – o saudosismo me precede –, mas te fizeram esquecer à força as memórias (boas e ruins) das últimas seis décadas. Não apenas te tomaram essas lembranças todas, mas afastaram de ti a gente que o fazia ser o mundialmente famoso Maracanã.

(Outro dia, velho amigo, escutei que se cogita uma candidatura do Uruguay para sede da Copa de 2030. Pois eu desejo que isso nunca aconteça. Não quero ter o mesmo destino que impuseram a ti.)

E sim, fiquei sabendo do vexame que você passou com o quase cancelamento do jogo entre o país que inventou o futebol e o que se diz “o país do futebol”. Sabe, meu velho, você vai me perdoar, mas isso até que viria a calhar. Porque um vendeu a alma faz tempo, afastando o povo das canchas, e o outro tem seguido pelo mesmo caminho, mas de um jeito muito mais vergonhoso. E eu sinceramente prefiro guardar de ti a imagem que adorna o Museo del Fútbol, aqui no meu interior: um Maracanã grandioso, repleto, popular, liberal ao extremo, sem imposições, malandramente carioca e com o espírito aberto para receber o povo…

O futebol, você vai me perdoar uma vez mais, continua a viver mesmo aqui no Uruguay – e, que eles não saibam disso, lá do outro lado do Río de La Plata…

Saludos,

Centenario de Montevideo


Por Beto Passeri

domingo, 2 de junho de 2013

Colunas do Partenon

Fred fez o primeiro gol na partida contra a Inglaterra que terminou em 2 a 2. (Ministério dos Esportes/Divulgação)

Como é obscuro ver heróis morrerem de overdose. Ídolos, que ocuparam um espaço áureo da memória, desmoronam, tornam-se vis. Normais. Claro que todo eldorado construído no passado não se esvai de um dia para outro. O fanatismo e a idolatria se transformam em uma opaca reverência protocolar, a mesma que os ateus prestam para com as igrejas ou que os cidadãos de uma democracia inoperante prestam para com seus membros do legislativo. 

Triste é ver um símbolo de redenção pretérito definhar em plena tarde de domingo, na estreia do ex-maior estádio do planeta. Atrás dos vidros transparentes dos estúdios de imprensa de uma arena que ocupa o lugar do antigo palco do povo, um antigo atleta e atual cartola e empresário debutava na tarefa de comentarista. Tendo como companheiros o também ex-jogador Casagrande e o quase ex-locutor Galvão Bueno, Ronaldo observaria e faria apontamentos sobre o Brasil e Inglaterra, que terminou empatado em 2 a 2. 

O atacante que ocupa o imaginário do Brasil com gols e jogadas de explosão agora concentra as atividades de empresário da Nin9  empresa de marketing esportivo que gerencia a carreira de alguns boleiros brasileiros , membro diretor do Comitê Organizador Local da Copa do Mundo (COL) e, nas horas vagas, ainda é garoto propaganda de algumas das marcas que patrocinam a Seleção Brasileira. Não é para se esperar nada além de uma atitude neutra e imparcial nos seus comentários, como a rede Globo já devia saber.

Entre elogios exagerados a Neymar (que, por coincidência, é um dos agenciados pela Nin9), exaltação das cores da bandeira nacional e ufanismo, e, é claro, adoração aos "padrões Fifa" que puseram abaixo o velho Maraca, deixaram orfãos os atletas que treinavam no estádio Célio de Barros e no parque Aquático Julio de Lamare, bem como os estudantes da escola Friedenreich e os torcedores que tinham como paixão torcer junto ao seu time no templo do futebol carioca, o Fenômeno se mostrou fraco. Portador de uma característica baixa, pouco condizente com um ídolo: Ronaldo foi mesquinho. Abraçou a Copa e os interesses comerciais em detrimento da ética.

Para completar a náusea do momento, a transmissão ainda exibiu no intervalo imagens de um craque exuberante, amado pelos populares, símbolo de obstinação e abnegação... Em suma, fonte de saudade para todos que, envergonhados, viam aquela aparição descabida que teve ainda outros  pontos altos, como a declaração de que a seleção ia se dar bem na partida com um campo grande como o Maracanã (o estádio teve suas extensões reduzidas por determinação da Fifa e o cartola do COL não ficou sabendo?) e uma coincidência risível: enquanto, mais uma vez, ele falava das benesses das mudanças estruturais, Rooney arrancava com a bola e dava um chute no ângulo de Julio César e fazia o segundo gol inglês.

Olhar para Ronaldo hoje é como admirar as colunas do Partenon. Corroídas pelas chuva ácida destes anos sem deuses, pensadores ou batalhas homéricas, as vigas apenas lembram, de longe, o passado clássico de uma Grécia que não existe mais. Grécia esta que reflete um provável Brasil futuro que, tendo a oportunidade de sediar um grande evento esportivo, delegou à personalidades escusas o trabalho de organizar a festa e hoje agoniza em crise política, desemprego e profunda pobreza.



Por Helcio Herbert Neto

quarta-feira, 22 de maio de 2013

Cinefoot e "Os rebeldes do futebol"


O futebol, assim como todo elemento de mobilização da massa, pode (e deve) ser usado como bandeira política e social. Ao longo da história, alguns jogadores foram absolutamente mestres nesta arte. É exatamente isso que mostra o documentário “Les Rebelles du Foot” (“Os Rebeldes do Futebol”), que abrirá o Cinefoot, festival sobre filmes de futebol que está fazendo tour por todas as cidades sedes da Copa e que estará no Rio entre os dias 23 (amanhã) e 28 de maio.

A película, produzida pelo ex-jogador (e também rebelde) Eric Cantona, conta a trajetória de cinco ex-futebolistas que, desafiando as circunstâncias e as barreiras oferecidas pela conjuntura política de suas épocas, marcaram posição e, através do esporte, apresentaram e defenderam os seus pontos de vista (confira o trailer abaixo).


Dentre eles, um brasileiro: Sócrates. O engajamento do capitão da seleção na Copa de 82 na luta pelas eleições diretas para a presidência da República e sua participação no movimento "Democracia Corintiana" são o pano de fundo do capítulo que lhe é dedicado.


O documentário tem mais quatro partes, cujos protagonistas são o chileno Carlos Caszely, o marfinense Didier Drogba, o argelino Rached Meklhoufi e o bósnio Pedrag Pasic.

Caszely se opunha frontalmente à ditadura de Pinochet. E manifestou isso publicamente – um ato de extrema coragem à época – quando se recusou a apertar a mão do general numa solenidade em que os jogadores classificados para o Mundial da Alemanha, em 74, foram recebidos no Palácio de la Moneda. A bravura custou caro ao então capitão da seleção: sua família passou a ser perseguida pelo regime, a ponto de sua mãe ter sido torturada. Ele revelou a barbárie numa entrevista para a TV. Para não morrer, optou pelo exílio na Espanha, onde jogou durante cinco anos antes de voltar a seu país.

A história de heroísmo do atacante marfinense também esbanja coragem. Em 2007, havia cinco anos em que a Costa do Marfim vivia sob uma sangrenta guerra civil. De um lado, os governistas, cristãos. Mais ao norte, os rebeldes, de origem islâmica. A seleção do país enfrentaria Madagascar, numa partida decisiva pela classificação à Copa das Nações Africanas.  Semanas antes, Drogba foi ao palácio presidencial e, valendo-se da sua condição de astro do time, exigiu que a partida fosse disputada em Bouaké, a capital dos rebeldes. O pedido desconcertou o então presidente Laurent Gbagbo (hoje detido pelo Tribunal Penal Internacional por crimes cometidos contra a sua população). Mas, pressionado pela opinião pública, ele cedeu.

O jogo no Bouaké Stadium uniu rebeldes e simpatizantes ao governo durante um período de cessar fogo, que, a rigor, foi conquistado por Drogba. Um tanque rebelde conduziu a seleção até o estádio. E, antes do começo da partida, 25 mil pessoas, entre governistas e rebeldes, cantaram o hino do país.

Na tribuna, Gbagbo ficou ao lado do guerrilheiro Guillaume Soro, atual primeiro-ministro do país. A Costa do Marfim goleou Madagascar por 5 a 0. No dia seguinte, os jornais marfinenses resumiram tudo de forma magistral: “Cinco gols para acabar com cinco anos de guerra”.

Meklhoufi usou o futebol como forma de protesto à colonização de seu país, a Argélia. Nos anos 50, era um dos craques do futebol francês. Jogava no Saint-Ettiene. Era nome certo na equipe que iria à Copa de 58, na Suécia. A vaidade, porém, não lhe subiu à cabeça. Em defesa de sua pátria, desertou da França. E, ao lado de outros companheiros de causa, formou um time de futebol que se tornou uma espécie de braço esportivo da Frente de Libertação Nacional da Argélia e embrião da futura seleção nacional. A equipe, que se instalou na Tunísia, fez partidas em outros países africanos francófonos, sempre pregando o discurso da independência.


A liberdade só foi alcançada em 1962. Meklhoufi virou herói nacional. E, como digno fundador da seleção de seu país, dirigiu-a, como treinador, na Copa do Mundo de 1982.

Amor e abnegação por sua terra também são o cenário da história do bósnio Pedrag Pasic. No fim dos anos 70, com a camisa do FC Sarajevo, era um dos principais jogadores da antiga Iugoslávia. No clube, tinha como seu psicólogo uma pessoa que mudaria para sempre a história daquele pedaço dos Balcãs: Radovan Karadzic. Pasic jogou a Copa de 82 pela Iugoslávia antes de fazer uma bem-sucedida carreira no futebol alemão. De volta à sua região, viu a dissolução da Iugoslávia e o estabelecimento da Bósnia como país livre.

Mas alguém não via aquilo com bons olhos. Aquele mesmo psicólogo com quem trabalhara no FC Sarajevo se tornou presidente da Sérvia: Radovan Karadzic. Conhecido como o “Carniceiro dos Balcãs”, ele iniciou uma guerra que trazia no seu cerne o objetivo de fazer uma limpeza étnica na Bósnia, exterminar a população muçulmana para, depois, anexar o território à Sérvia.

Pasic era um dos bósnios a serem exterminados. Seus contatos na Alemanha até lhe ofereceram ajuda para que fugisse. Mas ele se manteve firme. Resolveu enfrentar a guerra com a sua arma: o futebol. Fundou uma escolinha, conhecida como Bubamara, que recebia crianças de todas as origens: sérvias, bósnias e montenegrinas. Mesmo com a capital bósnia sitiada, Pasic não arredou pé de suas posições. Convenceu os pais das crianças que, se tivessem de morrer, seria daquela forma, fazendo o que mais gostavam – jogando bola.





Por Beto Passeri.









segunda-feira, 29 de abril de 2013

O sábado, a mutilação e uma guerra no Congo


 Estreia do novo Maracanã aconteceu no último sábado de abril, mês da mentira, mês do Golpe de 1964. (Marcelo Horn/Divulgação)


Era o século XX, Era dos Extremos. Em uma das suas viagens pelos então distantes mundos africanos, o polonês Riszard Kapuscinski, correspondente da agência PAP, deparou-se com um irremediável conflito de poder no Congo. Dois eminentes representantes da política local mobilizaram todos seus esforços para resolver a questão, intransponível. Inacessível. Aqueles exércitos conspiravam nas sombras das árvores e palácios, tramavam sangue e dor junto aos seus correligionários; questão de vida ou morte.

Nomeação de um juiz. Essa era a razão que motivava o tumulto interno, o combate de forças e o desgaste político. Um país a uma faísca do colapso pela eleição de um burocrata, canhões erguidos para o inimigo que é coberto pela mesma fronteira. Burocrata sim, já que tratava-se de um sistema de três poderes recém-implantado na frágil armação tribal e pós-imperialista de mais uma república africana. Uma gente que se mutilava, apontando o punhal para o seio do progresso que ela mesmo lutou para alcançar. "É por isso que esse povo não se desenvolve", afirmou um dos jornalistas europeus que cobria o choque, portando um sorriso que só o eurocentrismo é capaz de oferecer.

Tinha de ser no sábado. Claro, para praticar mais uma ofensa contra as tradições do futebol. Estreia do Maracanã, sem os grandes nomes, sem o populacho que tanto o engrandeceu – e, é claro, sem o próprio estádio – , não podia acontecer no sacro domingo. O Palco das Multidões não foi ao Maracanã no sábado. Um signo que consagrou o futebol como elemento fundador da identidade nacional brasileira, agora sem o significado. Cabral e Paes, claro, artífices do conflito desnudo entre a organização dos grandes eventos os símbolos de sua gente, estavam lá, de pé, aplaudindo a iminente derrubada da escola Friedenreich, do estádio Célio de Barros e do parque Aquático Júlio Delmare. Zico, Paulo César Caju, Petkovic, Jairzinho e Dinamite não estavam. Dilma foi. Os milhares não.

Interesses pontuais. Essa é a razão que promoveu a cisão entre a gente do futebol e os políticos. Crianças sem escolas, atletas sem praças esportivas, torcedores longe de suas alegrias... Tudo em nome do lucro de empresários que comandam a organização dos grandes eventos. O resultado é um ruído entre termos e suas correspondências. Bandeiras de identidade turva. Já havia uma seleção sem povo – ouça as vaias do jogo do Mineirão da semana passada e diga o contrário, desafio. Agora há um estádio sem torcida e ano que vem haverá um país-sede sem suas ruas de torcedores. Não pense em Alzirões e Fan Fests vazios. Gostamos de festas e iremos às ruas: beber, pular, flertar. Por nada. Como fazemos nos fins de semana.

Tribal guerra, tão sem sentido quanto a do Congo retratada pelo poeta factual do leste europeu. Conflito promovido por um Estado (em maiúsculo, já que a palavra compreende também o município e o Governo Federal) que entrega recibo à iniciativa privada que bancou à candidatura lá, na época da eleição do Brasil ao posto de novo subserviente da Fifa e do COI, ainda em meados da década passada. O Estado entrega um Rio mutilado aos encomendadores do crime.




Por Helcio Herbert Neto.                            

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Meus sonhos ainda não foram todos vendidos

Foto: Globoesporte.com

Os bailes aplicados ontem e hoje por Bayern de Munique e Borussia Dortmund em Barcelona e Real Madrid precisam apontar para algo maior que duas atuações de gala dos times alemães. Não que os confrontos estejam definidos (embora eu pense que sim), e menos ainda que haja uma queda catastrófica do Barcelona ou dos espanhóis anunciada no horizonte. Trata-se apenas da forma de se encarar o futebol,  ou melhor, trata-se da perspectiva sobre o esporte mais popular do planeta, que, involuntariamente, gera consequências em todas as instâncias da vida.

Já cansei de manifestar o meu desgosto pelo rumo que o mundo e, consequentemente, o futebol vêm tomando nos últimos anos. A minha teoria é de que está "faltando alma". A intensidade, a paixão, a experiência visceralmente vivida, isso é uma raridade. Esvaiu-se quando passamos a ser moldados, quando nos tornamos subprodutos tortos de nosso sistema. Estamos totalmente imersos na publicidade, morando nas marcas - literalmente para quem já ouviu falar no Celebration, condomínio da Walt Disney, localizado na Flórida, onde pessoas vivem na "cidade dos sonhos", em lares que remetem aos de bonecas e princesas de filmes e desenhos. 

É perigoso, pois não são mais produtos que estão à venda, e sim experiências que as marcas propõem para preencher quaisquer lacunas pessoais e moldar estilos de vida. É isso que faz, por exemplo, milhares de pessoas dormirem na fila da loja da Apple à espera de um novo lançamento. 

Um grande problema é que felicidade não se pode orçar, logo temos pagado caro por tudo. O outro é que o Estado também tem incorporado essa lógica, o que faz com que sejamos menos cidadãos e mais clientes. É o esvaziamento da esfera pública em detrimento da esfera privada, das grandes corporações ("Ah, o velho Maracanã e sua rede caída..."). 

A isso tudo, acrescentamos as redes sociais, a vida digital e pronto: a consequência é uma pasteurização geral, ampla e irrestrita da vivência. Em palavras simples, o mundo está chato. E o futebol também, claro.

Porém, ontem e hoje, nem que tenha sido só por 180 minutos, voltou a ser divertido. Não simplesmente por se tratar de dois gigantes de quatro, mas pelo que representam. O Barcelona é genial, sem dúvidas, mas é chatíssimo de se assistir justamente porque é tão calculista que chega a ser frio e irritante; o Real Madrid, do elenco mais caro do mundo, é muito bem representado pelo seu craque narcisista. Ambos foram atropelados pela entrega em tempo integral de Bayern e Borussia (do elenco mais barato da competição). Goleada do coração sobre o cérebro, goleada das vísceras sobre as aparências. Antes, DURANTE e depois do jogo, alemães de Munique e de Dortmund encheram a cara, berraram seus cantos e suaram as camisas junto com seus ídolos, que parecem mais humanos, mais reais. 



Por Beto Passeri.